sexta-feira, abril 15, 2011

PARA TODOS QUE CHORAM - Rede FALE


REDE FALEPARA TODOS QUE CHORAM

Carta aberta da executiva da Rede FALE sobre as mortes acontecidas na escola Tasso da Silveira em Realengo, Rio de Janeiro.


Chorar é um ato radical, é o clamor da alma. É derramar a mais pura essência do sentimento em gotas cálidas de emoção. Sim, sabemos que alguns choram de alegria, e que elas podem expressar o nascimento de uma criança, porém hoje vertemos lágrimas por pequeninos tiveram suas vidas ceifadas tragicamente.

Não há palavras que traduza o nó na garganta ante a barbárie vivida na Escola Municipal Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro. É inaceitável pensar na ideia de que crianças sejam alvo de tamanha brutalidade. Porém é mais inaceitável ainda que alguém tenha acesso tão fácil a armas e munição.

A transbordante violência acontecida nesse ato louco é tão somente o sintoma de algo que é visto em proporções menores todos os dias. Pessoas de todas as idades morrem cotidianamente em nossas cidades vitimadas por armas de fogo. Muitas dessas armas letais chegam na mão de qualquer um porque ainda há uma grande circulação delas e falta de fiscalização do estado. É comprovado que a presença delas nos lares faz também aumentar grandemente as chances de acidentes, suicídios e homicídios culposos ou mesmo dolosos, em vez de servir como mecanismo de defesa.

Em 2005 (ano do referendo sobre o desarmamento), a Rede FALE mobilizou-se com a campanha FALE PELO DESARMAMENTO que, entre outras reivindicações, pedia a adoção de medidas rigorosas para o controle da produção, importação, exportação e circulação de armas de fogo e munição em nosso país, fiscalizando-se também, com maior eficiência, as empresas de segurança privada e polícias, a fim de serem coibidos os desvios de armamentos para organizações criminosas e a imprescindível proibição do comércio de armas para a população civil.

Na disputa do referendo sobre o comércio de armas, os vencedores coordenaram a campanha do VOTO contrário ao desarmamento, foram bancados pela indústria de armas e deram a falsa ideia de que votar “Sim” seria o mesmo que favorecer os criminosos. Hoje a maioria dos crimes e assassinatos são praticados com armas provenientes do mercado legal, prova cabal de que tal alegação não passava de sofisma.

A Bíblia afirma que Deus enxugará dos olhos todas as lágrimas. Sim, é verdade... Mas muitas dessas lágrimas poderiam ser evitadas! Até quando instrumentos de morte serão fabricados com a desculpa de trazer segurança? Quantas outras vítimas involuntárias irão tombar para que nossa gente tome consciência do poder destrutivo das armas? Quantos “brasileirinhos e brasileirinhas” ainda terão suas vidas tomadas pelo terror que nos cerca enquanto o estado brasileiro teima em não criar políticas públicas que fortaleçam uma cultura de paz?

A Rede FALE se manifesta em favor da vida. Para todos que também choram conosco diante da violência acontecida em Realengo, nossa mensagem é:

Chorar é um estado de alma, é ser plenamente humano e totalmente divino. É um bem espiritual que Deus nos dá. É a capacidade de sentir numa época onde a lógica é ter peito de pedra e coração de latão. Felizes são os que choram, pois deles é o Reino de um Deus que por meio do seu sangue reconcilia toda a sua criação. Queremos convocar todos vocês que orem junto conosco para que nosso país converta “...suas espadas em relhas de arado, e as suas lanças em foices”(Isaías 2:4).


Em Cristo, o Príncipe da paz.


Caio Marçal – Secretário de Mobilização Nacional da Rede FALE
mobilizacao@fale.org.br
www.fale.org.br
Twitter: @redefale
"Fale a favor daqueles que não podem se defender. Proteja os direitos de todos os desamparados. Fale por eles e seja um juiz justo. Proteja os direitos dos pobres e dos necessitados". Provérbios 31: 8 e 9

segunda-feira, abril 11, 2011

A tragédia na escola de Realengo: Há caminhos de esperança?

A tragédia na escola de Realengo: Há caminhos de esperança?

Por Clemir Fernandes
"Eu só queria que isso não acontecesse mais com pai nenhum", diz um dos pais de aluna morta no massacre da escola Tasso da Silveira (1).

Em outras tragédias ocorridas no Rio de Janeiro envolvendo principalmente crianças, já ouvimos pais e mães se expressarem de maneira idêntica. Mas, lastimavelmente, isso teima em se repetir. Diante de uma brutalidade assim, as perguntas básicas que nos inquietam são: É possível mesmo fazer alguma coisa plausível que ajude a prevenir um ato como esse, classificado como "isolado" pelo secretário de segurança do Rio?! (2) Isso é, de fato, um fato isolado? O que pode e deve ser feito para se alcançar resultados mais positivos contra fatos assemelhados? Como e com quem se articular para ações proativas?

Acredito que um fato desses mereça sempre uma reflexão profunda por parte da sociedade, para além das tradicionais avaliações dos formadores de opinião e das pessoas em geral. E nessa tarefa, os meios de comunicação, as entidades religiosas, o poder público e outras organizações sociais podem e devem fazer muito na luta teimosa e esperançosa de se construir uma sociedade melhor e mais segura para todos, especialmente para as crianças.

Sem entrar em grandes avaliações e reflexões, que são necessárias e pertinentes, sugiro aqui, resumidamente, algumas ações que podem e devem ser aperfeiçoadas para sua possível realização e efetividade.

Solidariedade na morte e afirmação da vida

Um fato como esse exige da sociedade organizada um ritual de chorar com as famílias e amigos e reafirmar a sacralidade da vida. ONGs, poderes públicos, igrejas e outras tradições religiosas precisam marcar esse momento com uma cerimônia pública para ritualizar a morte e a vida. (No dia seguinte ao ocorrido a cidade mantivera sua rotina. Nem as escolas foram orientadas pela Secretaria de Educação a refletirem humana e pedagogicamente acerca do fato). Embora alguém possa objetar que atos assim sejam inócuos, é certamente importante tanto no sentido de não deixar cair no esquecimento coletivo quanto no processo de reafirmar os valores da defesa da vida e do apoio solidário e humano aos que sofrem pela perda de seus entes queridos.

Um vírus letal entre nós

É sabido que dentre tantas iniciativas para se conquistar uma sociedade mais pacífica faz-se necessário, por exemplo, desarmar os espíritos humanos. Além disso, também é urgente reduzir ou — numa utopia possível — retirar do ambiente social e individual o vetor que produz consequências funestas, como nessa tragédia: a arma de fogo. Esse vírus letal, absurdamente mais presente entre os civis que entre os aparelhos armados legítimos do Estado, tem matado diariamente cerca de uma centena de pessoas em nosso Brasil. É imperioso, portanto, discutir este problema e retomar as reflexões sobre o aperfeiçoamento e a aplicação do Estatuto do Desarmamento. Dados de pesquisas diversas apontam que, ao contrário do imaginado pelo senso comum, mais armas significa sempre mais insegurança, que resulta em mais violência e que produz mais mortes (3).

Uma premissa falsa causa ainda mais insegurança, pois as consequências são na direção oposta de seu objetivo.

Segurança nas escolas

A falta de segurança nas escolas é uma falha do poder público que precisa ser corrigida. Ou seja, as escolas precisam ter um sistema de controle de portarias e no ambiente da escola, inclusive com detectores de metais, se necessário, para ajudar na prevenção e inibir crimes assemelhados. Isso é uma tarefa mínima e, por demais óbvia, que já se faz tardia.

Capacitação específica dos professores e equipe multidisciplinar

Faz-se necessário também a capacitação dos professores para inclusão, de fato, dos diferentes e estigmatizados. Eles precisam de formação específica para saber identificar comportamentos tidos como estranhos ao nível básico das relações humanas. E saberem trabalhar com os “normais” que tantos problemas criam para os “diferentes”. Isso não pode ser visto como algo menor; é ainda mais importante que aprender sobre normas gramaticais, axiomas matemáticos ou leis científicas...

Por meios de métodos diversos, é imprescindível ajudar os professores a se capacitarem para cumprir além do currículo formal, o currículo sócio-afetivo-inclusivo que diz respeito à promoção de bem-estar, respeito, acolhimento e reconhecimento dos alunos, principalmente daqueles que podem ser alvo de preconceito, distanciamento, bullying e outros problemas de não-interação e não-reconhecimento social por parte do grupo. Esse é um assunto da maior importância no trabalho do professor. Alunos distantes dos demais e sem maior envolvimento social deve ser alvo preferencial dos professores, para, em diálogo com a escola e a família, buscar caminhos de apoio social. O apoio ao professor e aos demais profissionais da escola — afinal estão todos no processo sócio-educacional — deve ser feito especialmente por equipe multidisciplinar, mantida pelo poder público nas escolas para uma educação de qualidade e formação, de fato, integral.

Adoção de escolas para a promoção de cultura de paz

As entidades religiosas, culturais, sociais, que promovem cultura de paz (respeito pela diversidade, acolhimento e apoio aos diferentes, disseminação de valores como os esposados pela Declaração dos Direitos Humanos, entre outros), e que estejam mais próximas das escolas, podem "adotá-las" conforme o escopo do próprio sistema educacional. Um projeto assim deve se pautar pela legislação e pelo bom senso e não pode e nem deve, obviamente, prejudicar o bom andamento da escola. Fundamentado em um trabalho de parceria e interação, deve promover mais alegria, bem-estar e menos conflitos e violência nas escolas.

Para uma sociedade mais segura e feliz

Muitas outras considerações e sugestões precisam e devem ser feitas, para discussão e possível implementação, objetivando a ampliação e difusão de uma cultura de paz, para uma sociedade mais segura e feliz.

Quanto à fala do secretário de segurança sobre ser este um fato isolado, compreende-se, assim como também não pode ser minimizada nem eximida, por qualquer razão, a responsabilidade específica do autor dos crimes. Entretanto, se queremos ir mais fundo num assunto tão complexo como esse, precisamos questionar como e por que esse rapaz não conseguiu estabelecer vínculos sociais mais amplos e saudáveis, ou o que dificultou ou mesmo impediu que ele construísse relações de pertencimento social mais seguras e que lhe provessem maior segurança?! Um filho adotado, caçula, cujos pais já morreram (a mãe mais recentemente), que morava sozinho, certamente perdeu as referências fundamentais que ainda possibilitavam algum equilíbrio de sobrevivência...

O que podemos e devemos fazer por outras pessoas que transitam em nossos universos sociais e que têm perfis assemelhados? Para a segurança deles e também nossa, pois, parafraseando Paulo Freire, ninguém consegue segurança sozinho, só a alcançamos em coletividade. Ou, como ensina a regra áurea da reciprocidade: Tudo o que você quer que o outro faça por você, faça antes por ele.

Outras perguntas existem e para todas elas precisamos de respostas, se queremos, de fato, uma sociedade melhor e mais segura para todos. O debate, as reflexões, as respostas e os caminhos estão com todos os que aspiramos e lutamos por um mundo melhor.

Notas

(1) http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2011/04/08/eu-so-queria-que-isso-nao-acontecesse-mais-com-pai-nenhum-diz-pai-de-aluna-morta-em-massacre-no-rio.jhtm (Acessado em 8/4/11).
(2) http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia/2011/04/08/beltrame-pede-rediscussao-de-lei-sobre-desarmamento.jhtm (Acessado em 8/4/11)
(3) Os dados deste item podem ser conferidos em: BANDEIRA, Antonio R., e BOURGOIS, Josephine. Armas de fogo: proteção ou risco? Rio de Janeiro: Viva Rio, 2005 e FERNANDES, Rubem C. Brasil: As armas e as vítimas. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2005.


Clemir Fernandes é formado em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul, em Ciências Sociais pela UFF e mestre em Sociologia pela UERJ. É professor de Teologia e Ciências Sociais em faculdades e semináPublicar postagemrios do Rio de Janeiro. É também pesquisador do Instituto de Estudos da Religião (ISER), redator da revista de estudos bíblicos Compromisso (Juerp/Convenção Batista Brasileira), integrante da coordenação executiva da Rede Evangélica Nacional de Ação Social (RENAS) e coordenador da RENAS Rio. É membro da diretoria da Fraternidade Teológica Latino Americana-Brasil e atual coordenador do núcleo do Rio de Janeiro.

Fonte: http://www.novosdialogos.com/artigo.asp?id=502 - acesso em 11/04/2011

domingo, abril 10, 2011

O AMOR DE DEUS DÁ SENTIDO À VIDA

O AMOR DE DEUS DÁ SENTIDO À VIDA

SALMO 63

Salmo. De Davi. Quando estava no deserto de Judá.
Ó Deus, tu és o meu Deus, por ti madrugo. Minha alma tem sede de ti, minha carne te deseja com ardor, como terra seca, esgotada e sem água.
Sim, eu te contemplava no santuário, vendo o teu poder e a tua glória.
Teu amor vale mais do que a vida: meus lábios te louvarão.
Vou bendizer-te por toda a minha vida, e ao teu nome levantar as minhas mãos.
Vou saciar-me como de óleo e gordura, e, com sorrisos, minha boca te louvará.
Quando eu me lembro de ti, no meu leito, passo vigílias meditando em ti,
pois tu foste um socorro para mim, e, à sombra de tuas asas, eu grito de alegria.
Minha alma está ligada a ti, e tua direita me sustenta.
Quanto aos que me querem destruir, irão todos para as profundezas da terra.
Serão entregues à espada, e vão tornar-se pasto de chacais.
O rei, porém, se alegrará com Deus, os que juram por seu nome se felicitarão, quando a boca dos mentirosos for tapada.

REFERÊNCIA

BÍBLIA SAGRADA – Edição Pastoral – Tradução Ivo Storniolo, Euclides Martins Balancin – Paulus – SP – 1991. páginas 571-572

sexta-feira, março 25, 2011

Petição Campanha pela criação do Centro de Memória, Verdade e Justiça de Petrópolis – RJ

Companheiras e companheiros!

Estamos divulgando o abaixo-assinado que tem por objetivo desapropriar a ‘Casa da Morte’, também conhecida como ‘Casa dos Horrores’, localizada em Petrópolis e considerada por alguns historiadores o pior porão da ditadura militar brasileira, e transformá-la no Centro de Memória, Verdade e Justiça de Petrópolis.

No desejo de compor mais parcerias para esta empreitada e pressionar o poder público petropolitano, pedimos para que difundam ao máximo este abaixo-assinado entre seus contatos!

Aqui o link para assinar o documento e o texto na íntegra:

http://www.peticaopublica.com/?pi=P2011N7357

Campanha pela criação do Centro de Memória, Verdade e Justiça de Petrópolis – RJ

No dia 01 de dezembro de 2010, o Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis realizou um ato-evento em comemoração aos 25 anos de lançamento do livro Brasil Nunca Mais, ocasião na qual foram rememoradas as atrocidades cometidas pela ditadura militar neste país e reivindicadas a memória, a verdade e a justiça para os sobreviventes, seus familiares e todos os brasileiros.

Nesta história obscura marcada por extrema covardia dos agentes do Estado, Petrópolis ficou conhecida entre os opositores do regime político da época como sede de uma casa de tortura da qual, ao que tudo indicava, ninguém saía vivo: a “Casa da Morte” ou “Casa dos Horrores”, localizada à Rua Arthur Barbosa, Centro, nº 120.

Foram muitos os que ali estiveram clandestinamente presos, tendo sofrido cruéis e por vezes sofisticadas técnicas de violência: Inês Etienne Romeu, Aluísio Palhano Pedreira Ferreira, Heleny Teles Guariba, Paulo Celestino da Silva, Ivan Mota Dias e muitos outros que tiveram suas mentes dilaceradas, seus corpos destruídos ou enterrados em cemitérios clandestinos. De todos que passaram por esta nefasta casa, até onde se sabe, apenas Inês escapou à morte. Tudo por ousarem lutar pela liberdade e pela democracia.

O reconhecimento deste espaço como um lugar utilizado pela ditadura militar para torturar, matar e reprimir a luta pela democracia neste país, bem como a publicização dos documentos que revelem quem nesta casa esteve preso, é fundamental para que as novas gerações conheçam essa história e para que ela nunca mais se repita.

É por estes homens e mulheres e tantos outros assassinados nos porões da ditadura que o Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis, constituído em 1979, na luta pela democracia e defesa dos direitos humanos, unido a outras organizações, movimentos e pessoas que assinam este documento, vêm reivindicar que a Prefeitura Municipal de Petrópolis, através de seu prefeito, Paulo Mustrangi, adquira a “Casa da Morte” de Petrópolis e que ali crie um Centro de Memória, Verdade e Justiça de Petrópolis.

Nós, abaixo-assinados, somos favoráveis à Campanha pela criação do Centro de Memória, Verdade e Justiça de Petrópolis.

A cada companheiro tombado

nenhum minuto de silêncio

mas toda uma vida de luta.

Rua Monsenhor Bacelar, 400 - Centro - Petrópolis - RJ - 25685-113

www.cddh.org.br / cddh@cddh.org.br

As catástrofes naturais e teológicas - Caio Marçal

As catástrofes naturais e teológicas

Por Caio Marçal
Já se tornou algo corriqueiro: Toda vez que alguma catástrofe acontece, levantam-se debates acalorados sobre Deus e se Ele está ou não por detrás de tais acontecimentos. Nesse cabo de guerra teológico, estão subentendidos a disputa do monopólio sobre o sagrado e a necessidade de mostrar quem tem todas as respostas.

No meio desse turbilhão de opiniões sobre a ação divina, está subjacente o interesse em encaixotar o sagrado em nossas teses e posicionamentos já que, para esses, caso Ele não caiba em suas fórmulas, suas convicções serão postas em descrédito e, no jogo de poder do torneio da fé, estarão em desvantagem. Quem ousa rebater essa ou aquela posição, logo é denominado de ser não pensante (um jeito bacana e politicamente correto de chamar o outro de burro) ou de herege (um jeito religioso de fustigar quem pensa diferente).

Não quero entrar no mérito da questão, até porque sei que não tenho todas as respostas. Reforço meu silêncio com a experiência que tive ao visitar a região serrana do Rio de Janeiro junto com meu amigos da Rede FALE, da Aliança Bíblica Universitária e Visão Mundial. Até hoje não encontro palavras para classificar tamanha destruição mesmo quase quarenta dias depois da calamidade. Confesso que ainda fico comovido e de olhos marejados.

Porém desejo chamar atenção para a ideia de que o fazer teológico deve nos levar à humildade e que diante do mistério só resta o silêncio reverente. Quando não se tem resposta para aquilo que não temos domínio, todos temos de ser honestos em admitir que não sabemos de tudo, em vez de fazer afirmações categóricas. Também devemos lembrar que Deus não cabe em nossas teologias e que afirmar onde Ele vai ou deixa de ir, além de um ato de arrogância, é uma completa tolice. Não dá pra colocá-Lo num tubo de ensaio!

Infelizmente não é isso o que acontece e o grau de infantilidade teológica nessas contendas é lamentável . Chega a ser doentio alguns setores da "inteligência evangélica" usarem os desastres naturais para defender seus “preciosos pontos de vista”. Além de ser um tremendo desrespeito às vítimas, atesta o tamanho da enfermidade da alma dos mesmos. Quando ideias e posições teológicas em enfrentamento são mais levadas em conta do que seres humanos em situação de extremo sofrimento, desamparo e carência, só revela que existe algo muito errado.

Se há algo que se pode falar sobre Deus em qualquer situação, seja boa ou ruim, é aquilo que o apóstolo João nos diz em uma de suas cartas: Deus é amor. Portanto, a única resposta cristã para as catástrofes é a solidariedade. A fé no Cristo, antes de ser uma elaboração de uma teologia ou de uma declaração de confessionalidade religiosa, é amar e dar a vida assim como o Mestre o fez.

Se nossos “doutores da lei” das diversas correntes que disputam a hegemonia nos debates relacionados às coisas da fé querem mostrar que sabem de Deus, que o demostrem sendo sensíveis à dor e ao sofrimento humano. Quem sabe talvez parem de praticar tanta "masturbação" teológica que só dão gozo a eles mesmos e não gera vida. Oremos para que os nossas lideranças evangélicas e teólogos de gabinete saiam de suas zonas de conforto e sejam promotores da vida!

Em Cristo, onde todas as divergências são dissipadas e onde todos hão de dobrar os joelhos.

Caio Marçal é cearense e missionário da Igreja de Cristo de Frecheirinha/CE. Atua também como Secretário de Mobilização da Rede FALE.

"Des-graçado Deus" - Lucas Gomes

"Des-graçado Deus"
Lucas Gomes

Em meio à correria do trabalho pesado, não nos faltou tempo com as famílias para os deliciosos cafezinhos nos finais das tardes. Juntos trabalhamos, rimos e choramos.

Nos últimos vinte dias estive trabalhando na pequena Vieira, vila que pertence ao município de Teresópolis. Lá, mais de oitenta pessoas perderam suas vidas devido à volumosa chuva da madrugada do dia 11 de Janeiro. Quem não perdeu algum membro da família, perdeu no mínimo um grande amigo. A quase dois meses da tragédia, o Anderson chora o luto dos que se foram. Ele perdeu sua esposa e seu único filho, um lindo menino de cinco anos. O Djalma chora a morte do pai e irmãos, a Patrícia chora a perda de sua casa, construída com o suor do trabalho duro na lavoura. O Zé chora a perda das cebolinhas que estavam prontas para serem colhidas, elas alimentariam as famílias da cidade grande, e o que sobraria do fracionado lucro o sustentaria por algum tempo. A Ângela chora porque o governo não tardou em desanimá-la, depois de idas e vindas à Caixa, o aluguel social ainda não está disponível. Outro dia ela assistiu uma reportagem sobre os desabrigados de Santa Catarina, que três anos após a tragédia, alguns dos de lá continuam morando em barracas “provisórias”.

Há uns “portadores da verdade” que sobem a Serra com seus carros e caminhões carregados de donativos, interesses e arrogância, que dizem para os Vieirenses: Deus está julgando a Serra, vocês precisam se voltar para Jesus... O Anderson não consegue entender porque que o Deus que ele pensava ser amoroso e misericordioso matou seu filho e esposa. As poucas palavras que sai de sua boca são: Eu não estou entendendo, mas Deus sabe o que faz!

Deus realmente sabe, Ele sabe por que boa parte das pessoas que estão nos abrigos são pobres e negras, Ele sabe!

Nossa fé animista não consola o Anderson e nem confronta as repetidas injustiças. No curto prazo, nossos caminhões e voluntários subiram a Serra, uns com boa vontade, outros com arrogância e respostas prontas, usando a situação de destruição e luto como estratégia para podermos empurrar nossa estranha visão sobre o causo.

Amanhã faz dois meses do acontecido. O cenário mudou completamente, as necessidades são outras. A grande maioria das pessoas já não precisa mais de roupas, água ou cestas básicas. O momento é de reconstrução. Reconstrução da casa da Patrícia, reconstrução do relacionamento entre o Anderson e seu “des-graçado” Deus. É momento de cobrarmos dos que prometeram, é momento de expressarmos o amor e a verdadeira graça do Deus que é Pai e amigo do Anderson, da Patrícia, Ângela, Djalma, Zé...

Lucas Gomes é Missionário da JOCUM-RJ (Jovens Com Uma Missão)

terça-feira, março 01, 2011

FOTOS DIVERSAS DO RIO E DE NITERÓI






























segunda-feira, fevereiro 28, 2011

MEDITAÇÕES NO ENGARRAFAMENTO

MEDITAÇÕES NO ENGARRAFAMENTO

"Que proveito o trabalhador tira de sua fadiga?" Eclesiastes 3.9

O trânsito do Rio de Janeiro nunca foi maravilhoso, mas desde que mudei para Niterói, os engarrafamentos passaram a fazer parte do meu dia a dia. Excesso de carros, transporte público deficiente, ruas estreitas e mal pavimentadas, multiplicam o tempo necessário para o deslocamento de um ponto a outro da cidade.

Os congestionamentos são verdadeiros testes de paciência. Eles me irritam pela perda de tempo que causam. Um caminho que é percorrido em quinze minutos, quando está livre, num dia de trânsito intenso pode levar quarenta e cinco minutos, ou até mais. Quanta coisa mais interessante poderia ser feita se eu não estivesse dentro de um ônibus ou de um carro, sem poder seguir adiante?

Toda esta situação me leva a fazer uma analogia com determinadas fases da vida em que nos preparamos para andar rápido, mas fatores alheios à nossa vontade criam obstáculos ao avanço. Aprendi que não adianta ficar irritado no meio de um engarrafamento, porque a irritação não melhorará o trânsito mas, com certeza, tornará o meu dia pior.

Em determinados momentos não adianta insistir, temos que permanecer firmes e suportar as dificuldades que virão pela frente. É com esta persistência que chegaremos ao fim do caminho saudáveis e com espírito alegre para celebrar o fim da jornada.

Algumas providências são necessárias para neutralizar o impacto do trânsito ruim: Sair mais cedo de casa é uma delas, bons livros, ter um celular, mp3 ou Ipod carregados com boas músicas é outra boa opção para distrair-se e aproveitar estas horas da melhor maneira.

Nos engarrafamentos da vida também é possível superar os efeitos negativos da paralização, principalmente quando ela se prolonga indefinidamente. Estudar, planejar o futuro, curtir os pequenos momentos agradáveis que a vida proporciona: um encontro com os amigos, uma boa conversa, um lindo por do sol, etc. Estes momentos, aparentemente insignificantes, podem fazer toda a diferença na hora em que é necessária uma dose extra de energia para seguir em frente.

O transporte público é fundamental para a qualidade de vida do trabalhador. Não se deve tratar deste tema visando apenas o lucro, é preciso haver respeito ao cidadão que paga os seus impostos. É possível fazer um transporte de boa qualidade que seja lucrativo, mas para que isto aconteça é fundamental que a população se mobilize e exija que o seu direito seja atendido pelas autoridades.

O tempo de voo direto entre o Rio e Salvador é de 01h40m, entre o Rio e Buenos Aires é de 3 horas. Não é raro eu sair do trabalho em Copacabana à 18h e chegar em casa às 21h. Nem quero imaginar o que vai acontecer quando começarem as obras da Perimetral no Rio e da Estrada do Contorno, em Niterói.

sábado, fevereiro 12, 2011

Amós e a Justiça Social - Conclusão

Foto de: Rachael de Vasconcelos Alves

AMÓS E A JUSTIÇA SOCIAL - Conclusão:

Desde a época de Amós, até os dias de hoje, o anseio das pessoas permanece o mesmo. Todo o desenvolvimento econômico e tecnológico ainda não foi capaz de produzir uma sociedade mais justa.

Os profetas ainda são necessários para denunciar os acordos fraudulentos que enriquecem a poucos privilegiados à custa do sofrimento de muita gente.

É neste contexto que o ministério da igreja ganha relevância. Ela precisa ser a voz daqueles que não têm força para clamar contra os abusos que sofrem. Ela não pode acomodar-se à “zona de conforto” dos conchavos políticos sob pena de perder tanto a credibilidade quanto o seu espírito.

O livro do profeta Amós nos desafia a olhar para a justiça social com mais atenção e com seriedade. Não é possível construir a história de um país baseada na corrupção. Cedo ou tarde as consequências aparecerão e não serão nada agradáveis. A justiça é um assunto espiritual e não pode ser desprezada pela igreja que deseja desempenhar um papel transformador neste mundo. Que o exemplo de Israel, relatado na bíblia, nos leve a uma mudança de atitude e a um compromisso maior com os princípios do evangelho.

O mundo anseia por saídas para tanta usurpação e a igreja, pelo poder do Espírito santo, será capaz de mostrá-las, se decidir ser o que Jesus pediu que ela fosse: “sal da terra e luz do mundo”.

CASTIGO E RESTAURAÇÃO

Foto de Marcele Oliveira

CASTIGO E RESTAURAÇÃO

"Farei voltar os exilados do meu povo Israel. Eles voltarão a construir as cidades que foram destruídas, e nelas vão morar. Plantarão vinhedos e beberão seu vinho; formarão pomares e comerão suas frutas".

Amós 9.14

Os pais desejam o melhor para os seus filhos, mas em algumas situações faz-se necessário agir com dureza para reconduzi-los ao caminho adequado. Em mais uma séria advertência, Deus anuncia o pesado juízo que virá sobre a nação, caso ela insista em ignorar a justiça.

Por oferecer muitas chances, a misericórdia divina pode ser confundida com uma interminável procrastinação. Ainda que pareça demorado, o juízo virá para alcançar os ímpios e revelar que não há um lugar seguro para se esconder da ira do Senhor.

A destruição será grande, a fim de abater o orgulho dos poderosos, que se consideravam inatingíveis, devido a sua influência política e poder financeiro. "Pois eu darei ordem e sacudirei no meio de todos os povos a casa de Israel, como se abana o trigo na peneira, sem deixar que caia no chão um grãozinho sequer". (v.9)

Apesar de ser duro com os arrogantes, Deus apresenta a sua face misericordiosa com os humildes, aqueles que já estavam cansados de sofrer privações. "Nesse dia, vou armar de novo a tenda de Davi que caiu. Vou tapar seus buracos, levantar suas ruínas, até reconstruí-la como era antes". (v11).

Esta misericórdia não se limitava geográfica ou religiosamente a Israel. Ela se estendia a todos os povos que necessitavam de intervenção divina para a sua libertação.

Deus não queria arrasar Israel, seu intuito era restaurá-lo e transformar aquela terra num lugar onde os ideais do Reino de Deus não fossem apenas um discurso bonito para manter as aparências, mas uma realidade indiscutível a ser testemunhada pelas nações vizinhas.

O sofrimento daria lugar à paz, a liberdade substituiria a opressão, e cada pessoa teria um pedaço de terra para construir uma casa, cultivar a lavoura e sustentar a família com dignidade.

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Bispo de Limoeiro do Norte (CE) recusa comenda no Senado

terça-feira, fevereiro 08, 2011

DEUS NOS LIVRE DE UM BRASIL EVANGÉLICO

DEUS NOS LIVRE DE UM BRASIL EVANGÉLICO

Ricardo Gondim

Começo este texto com uns 15 anos de atraso. Eu explico. Nos tempos em que outdoors eram permitidos em São Paulo, alguém pagou uma fortuna para espalhar vários deles, em avenidas, com a mensagem: “São Paulo é do Senhor Jesus. Povo de Deus, declare isso”.

Rumino o recado desde então. Represei qualquer reação, mas hoje, por algum motivo, abriu-se uma fresta em uma comporta de minha alma. Preciso escrever sobre o meu pavor de ver o Brasil tornar-se evangélico. A mensagem subliminar da grande placa, para quem conhece a cultura do movimento, era de que os evangélicos sonham com o dia quando a cidade, o estado, o país se converterem em massa e a terra dos tupiniquins virar num país legitimamente evangélico.

Quando afirmo que o sonho é que impere o movimento evangélico, não me refiro ao cristianismo, mas a esse subgrupo do cristianismo e do protestantismo conhecido como Movimento Evangélico. E a esse movimento não interessa que haja um veloz crescimento entre católicos ou que ortodoxos se alastrem. Para “ser do Senhor Jesus”, o Brasil tem que virar "crente", com a cara dos evangélicos. (acabo de bater três vezes na madeira).

Avanços numéricos de evangélicos em algumas áreas já dão uma boa ideia de como seria desastroso se acontecesse essa tal levedação radical do Brasil.

Imagino uma Genebra brasileira e tremo. Sei de grupos que anseiam por um puritanismo moreno. Mas, como os novos puritanos tratariam Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Maria Gadu? Não gosto de pensar no destino de poesias sensuais como “Carinhoso” do Pixinguinha ou “Tatuagem” do Chico. Será que prevaleceriam as paupérrimas poesias do cancioneiro gospel? As rádios tocariam sem parar “Vou buscar o que é meu”, “Rompendo em Fé”?

Uma história minimamente parecida com a dos puritanos provocaria, estou certo, um cerco aos boêmios. Novos Torquemadas seriam implacáveis e perderíamos todo o acervo do Vinicius de Moraes. Quem, entre puritanos, carimbaria a poesia de um ateu como Carlos Drummond de Andrade?

Como ficaria a Universidade em um Brasil dominado por evangélicos? Os chanceleres denominacionais cresceriam, como verdadeiros fiscais, para que se desqualificasse o alucinado Charles Darwin. Facilmente se restabeleceria o criacionismo como disciplina obrigatória em faculdades de medicina, biologia, veterinária. Nietzsche jazeria na categoria dos hereges loucos e Derridá nunca teria uma tradução para o português.

Mozart, Gauguin, Michelangelo, Picasso? No máximo, pesquisados como desajustados para ganharem o rótulo de loucos, pederastas, hereges.

Um Brasil evangélico não teria folclore. Acabaria o Bumba-meu-boi, o Frevo, o Vatapá. As churrascarias não seriam barulhentas. O futebol morreria. Todos seriam proibidos de ir ao estádio ou de ligar a televisão no domingo. E o racha, a famosa pelada, de várzea aconteceria quando?

Um Brasil evangélico significaria que o fisiologismo político prevaleceu; basta uma espiada no histórico de Suas Excelências nas Câmaras, Assembleias e Gabinetes para saber que isso aconteceria.

Um Brasil evangélico significaria o triunfo do “american way of life”, já que muito do que se entende por espiritualidade e moralidade não passa de cópia malfeita da cultura do Norte. Um Brasil evangélico acirraria o preconceito contra a Igreja Católica e viria a criar uma elite religiosa, os ungidos, mais perversa que a dos aiatolás iranianos.

Cada vez que um evangélico critica a Rede Globo eu me flagro a perguntar: Como seria uma emissora liderada por eles? Adianto a resposta: insípida, brega, chata, horrorosa, irritante.

Prefiro, sem pestanejar, textos do Gabriel Garcia Márquez, do Mia Couto, do Victor Hugo, do Fernando Moraes, do João Ubaldo Ribeiro, do Jorge Amado a qualquer livro da série “Deixados para Trás” ou do Max Lucado.

Toda a teocracia se tornará totalitária, toda a tentativa de homogeneizar a cultura, obscurantista e todo o esforço de higienizar os costumes, moralista.

O projeto cristão visa preparar para a vida. Cristo não pretendeu anular os costumes dos povos não-judeus. Daí ele dizer que a fé de um centurião adorador de ídolos era singular; e entre seus criteriosos pares ninguém tinha uma espiritualidade digna de elogio como aquele soldado que cuidou do escravo.

Levar a boa notícia não significa exportar uma cultura, criar um dialeto, forçar uma ética. Evangelizar é anunciar que todos podem continuar a costurar, compor, escrever, brincar, encenar, praticar a justiça e criar meios de solidariedade; Deus não é rival da liberdade humana, mas seu maior incentivador.

Portanto, Deus nos livre de um Brasil evangélico.

Soli Deo Gloria
7-02-11

Fonte: http://www.ricardogondim.com.br

Muçulmanos e Cristãos Oram Juntos na Praça Tahrir, na Capital do Egito



Muçulmanos e Cristãos Oram Juntos na Praça Tahrir, na Capital do Egito

Local foi a ‘fortaleza’ dos manifestantes que pediam a saída de Mubarak. País volta aos poucos ao normal após 13 dias de violentos protestos de rua.

Muçulmanos e cristãos egípcios rezaram juntos neste domingo (6) na emblemática Praça Tahrir, no centro do Cairo, ao mesmo tempo que governo e oposição pareciam esboçar um acordo para encerrar a crise política no país. A praça virou a fortaleza dos manifestantes que, durante 13 dias, exigiram a renúncia imediata do contestado presidente Hosni Mubarak.

Os muçulmanos realizaram primeiro sua prece diária do meio-dia, ajoelharam-se em direção a Meca, numa praça onde se produziu uma batalha campal na quarta-feira passada, quando milhares de partidários do presidente entraram em Tahrir para desalojar os opositores.

Depois, um grupo evangélico entoou duas canções, uma delas pedindo a paz, enquanto milhares de pessoas agitavam a bandeira egípcia fazendo um V da vitória com as mãos. Em seguida, um religioso cristão, Ihab Jarrat, leu através de alto falantes alguns salmos, concluídos com um “amém” geral.

Milhares de manifestantes aproveitaram a oportunidade para lançar a mensagem de que as duas religiões estavam unidas contra Mubarak.

“Os muçulmanos e os cristãos do Egito, a Crescente Vermelha e a Cruz, dizem vá embora, presidente”, declarou Jarrat, filho do escritor egípcio Edward Jarrat.

Imediatamente, a multidão entoou o lema habitual: “Mubarak, vá agora”".

Os cristãos representam entre 6 e 10% dos 80 milhões de egípcios. A maioria é formada por coptos ortodoxos, cujo patriarca Shenuda III pediu aos fiéis que não participassem das manifestações. Os protestos já deixaram mais de 300 mortos desde 25 de janeiro, segundo as Nações Unidas.

Fontes: http://www.pavablog.com/2011/02/06/muculmanos-e-cristaos-oram-juntos-na-praca-tahrir-na-capital-do-egito/ - Acessado em:08/02/2011

sábado, fevereiro 05, 2011

Ed René Kivitz - TALMIDIM 033: Almoço Grátis

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

TERMELÉTRICAS E USINAS NUCLEARES NO NORDESTE, TERRA DE VENTO E SOL - Sérgio Abranches

Foto: Site Mundo Hoje - acesso em: 04/11/2011


TERMELÉTRICAS E USINAS NUCLEARES NO NORDESTE, TERRA DE VENTO E SOL

Sérgio Abranches

O apagão que deixou ontem sete estados do Nordeste sem luz foi causado por falha técnica, desta vez, dizem os responsáveis, não por oferta insuficiente ou demanda elevada. Mas a região precisa de aumentar a capacidade local de geração. Mas deve fazer isso explorando seu melhor potencial e buscando segurança energética. Poderia se tornar um pólo mundial de energias renováveis alternativas.

Mas o governo escolhe o pior caminho: faz termelétricas a combustível fóssil, poluindo a região e sujando a matriz elétrica brasileira e quer fazer usinas nucleares. Não precisa, o Nordeste é a maior fonte de energia eólica e solar do Brasil. Limpa e segura. Há áreas do semi-árido, hoje quase sem população, são muito secas e ficarão mais secas ainda no futuro. Nelas poderiam ser instaladas centrais de energia solar fotovoltaica.

Por que insistimos no caminho do velho? Por que o Brasil tem preconceito e se recusa a fazer o que o resto do mundo todo está fazendo: Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Espanha, Portugal, China, Índia? Só para mencionar os principais.

Porque temos uma política energética ultrapassada e que virou monopólio de uma clique de tenocratas e donataria de grupos políticos. O Ministério das Minas e Energia é como uma grande sesmaria, loteada politicamente. É comandado por uma facção política como se fosse direito hereditário. As empresas elétricas são capitanias hereditárias, os partidos viraram donos delas. Com o loteamento de um setor estratégico para o país para os grupos mais clientelistas da política brasileira, fica difícil imaginar políticas públicas com visão de futuro, voltadas para a inovação, sintonizadas com as tendências mundiais.

Nosso sistema de transmissão e distribuição é ineficiente. Apagões têm sempre um culpado exótico, o raio de Bauru, que só os técnicos do setor elétrico viram, mas a meteorologia não captou, ou o culpado é sujeito indefinido: “mandaram” desligar Itaipu – e aí 18 estados ficam sem luz. Ontem, segundo explicação da CHESF, uma peça eletrônica, uma “cartela eletrônica”, de uma grande subestação desligou, por defeito, parte do sistema e sete estados do Nordeste, mais o interior do Piauí, ficaram sem luz. Não dá para demitir o raio de Bauru, ou a cartela eletrônica.

Em entrevista, ontem, para Míriam Leitão na Globonews, o diretor da ONG Amigos da Terra, Roberto Smeraldi, e o diretor da COPPE, Luiz Pinguelli Rosa, defenderam investimento no aumento de eficiência na geração, transmissão, distribuição e consumo de eletricidade no Brasil. A energia mais barata que temos é a que desperdiçamos e a que deixamos de produzir. Defenderam também a diversificação urgente de nossa matriz energética, aumentando a geração eólica, que pode ser o melhor complemento da hidreletricidade e ainda dá segurança energética ao Nordeste. Eu concordo inteiramente. O Brasil precisa passar a investir em energia solar. O Nordeste não tem mais potencial hidrelétrico, mas tem um vasto potencial eólico e solar. A Índia está instalando a maior usina do mundo movida pelas ondas do mar. Aqui as ondas quebram nas praias, ociosas, dolentes, e ninguém vê a energia nelas contida. O vento balança as folhas do coqueiro do Nordeste, mas move muito poucas turbinas eólicas. O sol esquenta o agreste, mas não gera um único Watt de eletricidade. Mas a fumaça das termelétricas aumenta e agora o Nordeste enfrentará o risco nuclear.

Sempre me perguntam qual é a alternativa para o que se vem fazendo, e inclusive para Belo Monte? Resultado da propaganda do governo e setores do mercado interessados no status quo, que dizem que ou fazemos esses absurdos programados no PAC ou teremos um apagão e o crescimento será inviável. Não é assim. O mundo busca alternativas que temos de sobra e desprezamos. Insistem que é mais caro e não dá escala. Enquanto isso, no resto do mundo, o custo por kWh dessas energias só faz cair e a escala só aumenta. Caro é Belo Monte, um projeto sem transparência, cujo custo final, depois de realizado será provavelmente muito maior do que se diz. Era R$ 20 bilhões, o BNDES já reconhece R$ 26 bilhões. Duvido que fique na casa dos trinta. A usina de Simplício, no rio Paraíba do Sul, entre os municípios de Chiador, MG, e Sapucai, RJ, custou o dobro do estimado. Imagine-se uma obra das proporções de Belo Monte, lá no Xingu. Et pour cause.

A eficiência energética não supera a necessidade de expandir a capacidade instalada, mas reduz a urgência na instalação de novas usinas e garante melhor aproveitamento dos MW já gerados e dos novos que entrarão no sistema. Reduz custo e preço. É o melhor investimento que se pode fazer. Tecnicamente falando, claro. Mas é um péssimo investimento político: invisível, não dá inauguração, não gera grandes contratos com empreiteiras. Não dá para fazer. Energia eólica e solar fotovoltaica, a começar pelo Nordeste, são uma óbvia opção brasileira. Precisa subsidiar? Precisa. Mas o governo subsidia hidrelétricas e, pior, termelétricas a carvão e óleo. Pagamos caro pela energia do passado, como disse Barack Obama no discurso “Estado da Nação” ao Congresso do EUA. Por que não subsidiar a energia do futuro? O atendimento de populações de mais baixa renda e longe dos grandes centros, pode ser feito com pequenas usinas, biomassa, turbinas eólicas. Cidades inteiras podem gerar boa parte de sua energia usando lixo, biomassa, eólica e solar.

Alternativa tem. Os lobbies e as forças que controlam a política energética é que não querem admitir.

http://www.ecopolitica.com.br/2011/02/04/termeletricas-e-usinas-nucleares-no-nordeste-terra-de-vento-e-sol/ acesso em: 04/11/2011.

POR QUE TEMER O ESPÍRITO REVOLUCIONÁRIO ÁRABE?

Foto: Revista Exame - Acesso em: 04/02/2011

POR QUE TEMER O ESPÍRITO REVOLUCIONÁRIO ÁRABE?

A reação ocidental aos levantes no Egito e na Tunísia frequentemente demonstra hipocrisia e cinismo. A hipocrisia dos liberais ocidentais é de tirar o fôlego: eles publicamente defendem a democracia e agora, quando o povo se rebela contra os tiranos em nome de liberdade e justiça seculares, não em nome da religião, eles estão todos profundamente preocupados. Por que aflição, por que não alegria pelo fato de que se está dando uma chance à liberdade? Hoje, mais do que nunca, o antigo lema de Mao Tsé-Tung é pertinente: "Existe um grande caos abaixo do céu - a situação é excelente". O artigo é de Slavoj Zizek.
O que não pode deixar de saltar aos olhos nas revoltas Tunísia e Egito é a notável ausência do fundamentalismo islâmico. Na melhor tradição democrática secular, as pessoas simplesmente se revoltaram contra um regime opressivo, sua corrupção e pobreza, e demandaram liberdade e esperança econômica. A sabedoria cínica dos liberais ocidentais - de acordo com os quais, nos países árabes, o genuíno senso democrático é limitado a estreitas elites liberais enquanto que a vasta maioria só pode ser mobilizada através do fundamentalismo religioso ou do nacionalismo - se provou errada.

Quando um novo governo provisório foi nomeado na Tunísia, ele excluiu os islâmicos e a esquerda mais radical. A reação dos liberais presunçosos foi: bom, eles são basicamente a mesma coisa; dois extremos totalitários - mas as coisas são simples assim? O verdadeiro antagonismo de longa data não é precisamente entre islâmicos e a esquerda? Ainda que eles estejam momentaneamente unidos contra o regime, uma vez que se aproximam da vitória, a sua unidade se parte e eles se engajam numa luta mortal, frequentemente mais cruel do que aquela travada contra o inimigo comum.

Nós não testemunhamos precisamente tal luta depois das eleições no Irã? As centenas de milhares de apoiadores de Mousavi lutavam pelo sonho popular que sustentou a revolução de Khomeini: liberdade e justiça. Ainda que esse sonho tenha sido utópico, ele levou a uma explosão de criatividade política e social de tirar o fôlego, experiências de organização e debates entre estudantes e pessoas comuns. Essa abertura genuína, que liberou forças de transformação social então desconhecidas, um momento no qual tudo pareceu possível, foi então gradualmente sufocada pela dominação do controle político e do establishment islâmico.

Mesmo no caso de movimentos claramente fundamentalistas, é preciso ser cuidadoso para não perder de vista o componente social. O Talibã é usualmente apresentado como um grupo fundamentalista islâmico que impõe suas leis pelo terror. No entanto, quando, na primavera de 2009, eles tomaram o Vale de Swat no Paquistão, o The New York Times noticiou que eles arquitetaram "uma revolta de classe que explora profundas fissuras entre um pequeno grupo de ricos donos de terra e seus inquilinos desprovidos de um chão". Se, ao "se aproveitar" dos apuros dos agricultores, o Talibã estava criando, nas palavras do New York Times, "um alerta sobre os riscos ao Paquistão, que permanece sendo largamente feudal", o quê impediu os democratas liberais do Paquistão e dos Estados Unidos de, da mesma forma, "se aproveitarem" desses apuros e de tentarem ajudar os agricultores sem terra? Ocorre de as forças feudais no Paquistão serem aliados naturais da democracia liberal?

A conclusão inevitável a ser delineada é que a ascensão do islamismo radical sempre foi o outro lado do desaparecimento da esquerda secular nos países muçulmanos. Quando o Afeganistão é retratado como sendo o exemplo máximo de um país fundamentalista islâmico, quem ainda se lembra que, há quarenta anos atrás, ele era um país com uma forte tradição secular, incluindo um poderoso partido comunista que havia tomado o poder lá sem dependência da União Soviética? Para onde essa tradição secular foi?

É crucial analisar os eventos em andamento na Tunísia e no Egito (e no Iémen e ... talvez, com esperança, até na Arábia Saudita) em contraste com esse pano de fundo. Se a situação for eventualmente estabilizada de modo ao antigo regime sobreviver, apenas passando por alguma cirurgia cosmética liberal, isso irá gerar um intransponível retrocesso fundamentalista. Para que o legado chave do liberalismo sobreviva, os liberais precisam da ajuda fraternal da esquerda radical. De volta ao Egito, a mais vergonhosa e perigosamente oportunista reação foi aquela de Tony Blair noticiada na CNN: mudança se necessário, mas deverá ser uma mudança estável. Mudança estável no Egito, hoje, só pode significar um compromisso com as forças de Mubarak na forma de ligeiramente alargar o círculo do poder. Este é o motivo pelo qual é uma obscenidade falar em transição pacífica agora: pelo esmagamento da oposição, o próprio Mubarak tornou isso impossível. Depois de Mubarak enviar o exército contra os protestantes, a escolha se tornou clara: ou uma mudança cosmética na qual alguma coisa muda para que tudo continue na mesma, ou uma verdadeira ruptura.

Aqui, portanto, é o momento da verdade: ninguém pode arguir, como no caso da Argélia uma década atrás, que permitir eleições verdadeiramente livres equivale a entregar o poder para fundamentalistas islâmicos. Outra preocupação liberal é de que não existe poder político organizado para tomar o poder caso Mubarak parta. É claro que não existe; Mubarak se assegurou disso ao reduzir a oposição a ornamentos marginais, de forma que o resultado acaba sendo como o título do famoso romance de Agatha Christie, "E Então Não Havia Ninguém". O argumento de Mubarak - é ele ou o caos - é um argumento contra ele.

A hipocrisia dos liberais ocidentais é de tirar o fôlego: eles publicamente defendem a democracia e agora, quando o povo se rebela contra os tiranos em nome de liberdade e justiça seculares, não em nome da religião, eles estão todos profundamente preocupados. Por que aflição, por que não alegria pelo fato de que se está dando uma chance à liberdade? Hoje, mais do que nunca, o antigo lema de Mao Tsé-Tung é pertinente: "Existe um grande caos abaixo do céu - a situação é excelente".

Para onde, então, Mubarak deve ir? Aqui, a resposta também é clara: para Haia. Se existe um líder que merece sentar lá, é ele.

(*) Nota do Tradutor: o título original do livro de Agatha Christie é "And Then There Were None", conhecido aqui no Brasil como "O Caso dos Dez Negrinhos".

REFERÊNCIAS FEITAS PELO AUTOR:

http://www.guardian.co.uk/world/2010/feb/02/iran-mousavi-dictatorship-khameini-protests
http://www.nytimes.com/2009/04/17/world/asia/17pstan.html?_r=1
Fonte: http://www.guardian.co.uk
Traduzido por Henrique Abel para o Diário Liberdade.
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17357

sexta-feira, janeiro 28, 2011

O FIM DO PERDÃO

O FIM DO PERDÃO

"Dias virão - oráculo do Senhor Javé - em que vou mandar a fome sobre o país: não será fome de pão, nem sede de água, e sim fome de ouvir a palavra de Javé”. Amós 8.11

Fome e sede são sentimentos básicos. O pão e a água permitem que o corpo mantenha as funções vitais, mas a simples sobrevivência não é suficiente para trazer sentido à vida.

Para ser feliz, o ser humano precisa de algo que faça o seu trabalho valer a pena. O homem é capaz de grandes renúncias, ele pode se dedicar a tarefas extenuantes, desde que receba uma recompensa pelo esforço feito. Definitivamente, não havia recompensas na terra do profeta Amós.

A distância entre as classes sociais aprofundava a opressão Enquanto os ricos viviam nos palácios comendo o que havia de melhor e fazendo do desperdício o seu estilo de vida, os pobres eram vendidos como escravos para pagar as suas dívidas. "Para comprar os fracos por dinheiro, o necessitado por um par de sandálias, e vender o refugo do trigo?” (v.6)

A cesta de frutos apresentada ao profeta representava o fim da tolerância divina com os desmandos da classe dominante "Isto me mostrou o Senhor Javé: Vi uma cesta de frutas maduras” (v.1). A partir daquele momento, os profetas iriam se calar e não clamariam mais pelo arrependimento, pois a chance do perdão havia chegado ao fim. "E Javé me perguntou:” O que é que você está vendo, Amós?”Eu respondi:” Uma cesta de frutas maduras “. Ele me disse:” Está maduro o fim para o meu povo Israel; não o perdoarei mais “(v.2)”.

A invasão daquela terra conquistada após tanta luta, a captura do povo, que seria levado ao exílio para ser escravizado, interromperá o sono de soberania acalentado no coração de cada israelita.

De que adianta ter todo o dinheiro do mundo, se não há onde gastá-lo, se não há amigos com quem celebrar as conquistas, se o país está devastado? É neste momento que a palavra de deus faz a diferença. Ela toca o coração e fortalece o espírito cansado.

O pecado de Israel consistia em abandonar a misericórdia, transformar as pessoas em mercadorias e fazer planos para enriquecer fraudulentamente: "Escutem aqui, exploradores do necessitado, opressores dos pobres do país! Vocês ficam maquinando: Quando vai passar a festa da lua nova, para podermos pôr à venda o nosso trigo? Quando vai passar o sábado, para abrirmos o armazém, para diminuir as medidas, aumentar o peso e viciar a balança?” (v.4-5).

O castigo não seria o exílio, ou a escravidão, a verdadeira punição consistia em desejar encontrar a Deus e não conseguir, ter fome e sede da palavra e não poder saciá-las. "Irão cambaleando de um mar a outro, irão sem rumo do Norte para o Oriente, à procura da palavra de Javé, e não a encontrarão. Nesse dia, vão desmaiar de sede as jovens mais belas, e também os rapazes”.(v.12-13).

A fartura econômica que se apóia na exploração dos humildes ofende a Deus e precisa ser abandonada. O pouco produzido com justiça, será multiplicado e os que confiam no Senhor vão prosperar e viver em paz.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

DEUS, JUSTIÇA E PAZ

DEUS, JUSTIÇA E PAZ.

“E Javé me disse:” O que é que você está vendo, Amós? ‘Eu respondi: Um prumo’. E ele me disse: Vou tirar o nível do meu povo Israel. Não o perdoarei mais.”Amós 7.8”.


Após vários anos de aparente descontrole, Israel está prestes a encarar o juízo contra a iniquidade que se disseminou em seu estilo de vida. O prumo exibe a medida certa em que determinada construção deve estar. Tudo o que está fora, precisa ser derrubado e refeito.

Em sua indignação, Deus profere pesados juízos contra os Hebreus. Amós escuta consternado e, antes de transmiti-los, decide interceder pelo seu povo: “Por favor, Javé, perdoa! Jacó é tão pequeno! Como poderá resistir?” (v.2).

Por duas vezes ele tem as suas orações atendidas, e o Senhor desiste de enviar o mal que havia prometido. "Então Javé se compadeceu, e disse: ’Isso não vai acontecer, - diz Javé" (v.3). As profecias de Amós tinham o objetivo de abrir os olhos da população contra a exploração política, econômica e religiosa, que se institucionalizara como parte do cotidiano.

Este fervor religioso desagradava às altas esferas do governo. Os poderosos precisavam saber que o juízo viria. Eles insistiam em dizer que tudo estava bem; e a prosperidade daquele momento trazia a falsa impressão de que nada poderia dar errado. A religião, em aliança com o governo, tratava de acalmar o povo, para deixar tudo como estava.

Desejando defender o seu cargo, Amasias fazia intrigas, diante do rei. "Amasias, sacerdote de Betel, mandou falar assim a Jeroboão, rei de Israel: 'Amós está tramando contra Vossa Majestade, dentro do reino de Israel. O país não pode tolerar mais as suas palavras, pois Amós está dizendo que Jeroboão deverá ser morto pela espada e que Israel deverá ir para o exílio, para longe do seu país'”. (v.10-11)

Depois desta audiência com Jeroboão, o sacerdote foi falar diretamente com Amós, para sugerir-lhe que voltasse para a sua terra, onde atrapalharia menos. “Vidente, vá embora daqui. Retire-se para a terra de Judá. Vá ganhar a sua vida fazendo lá suas profecias. Não me venha mais fazer profecias em Betel, pois isto aqui é o santuário do rei, e é templo do reino”.(v.12-13).

Amós não era um profeta profissional, figura muito comum naquela época, desta forma, ele estava livre para propagar a sua mensagem, ainda que ela desagradasse ao às autoridades: "Amós respondeu a Amasias: ‘Eu não sou profeta, nem discípulo de profeta. Eu sou criador de gado e cultivador de sicômoros. Foi Javé quem me tirou de trás do rebanho, e me ordenou: ‘Vá profetizar ao meu povo Israel’". (v.14-15).

Quando a religião se contamina com o poder, ela se torna alérgica à palavra de Deus. O que movia o ministério de Amós não eram os compromissos políticos, mas o ideal de ver o seu povo servindo fielmente a Deus.

O juízo contra os sacerdotes corruptos seria pesado: "Pois bem, escute agora a palavra de Javé! Você está dizendo: ‘Não profetize contra Israel, não despeje suas palavras contra a casa de Isaac’. Pois bem, assim diz Javé: ‘A sua mulher vai se tornar a prostituta da cidade; seus filhos e suas filhas vão morrer a golpe de espada; sua terra será repartida na corda, e você mesmo irá morrer em terra estrangeira. E Israel será levado para o exílio, longe de sua terra’ ”.(v.16). O temido exílio virá para derrotar aqueles que pensavam ser possível ignorar a justiça e escapar impunes.

sábado, janeiro 22, 2011

O PREÇO DE NÃO ESCUTAR A NATUREZA - Leonardo Boff


O PREÇO DE NÃO ESCUTAR A NATUREZA

Leonardo Boff

O cataclisma ambiental, social e humano que se abateu sobre as três cidades serranas do Estado do Rio de Janeiro, Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo, na segunda semana de janeiro, com centenas de mortos, destruição de regiões inteiras e um incomensurável sofrimento dos que perderam familiares, casas e todos os haveres tem como causa mais imediata as chuvas torrenciais, próprias do verão, a configuração geofísica das montanhas, com pouca capa de solo sobre o qual cresce exuberante floresta subtropical, assentada sobre imensas rochas lisas que por causa da infiltração das águas e o peso da vegetação provocam frequentemente deslizamentos fatais.

Culpam-se pessoas que ocuparam áreas de risco, incriminam-se políticos corruptos que destribuíram terrenos perigosos a pobres, critica-se o poder público que se mostrou leniente e não fez obras de prevenção, por não serem visíveis e não angariarem votos. Nisso tudo há muita verdade. Mas nisso não reside a causa principal desta tragédia avassaladora.

A causa principal deriva do modo como costumamos tratar a natureza. Ela é generosa para conosco pois nos oferece tudo o que precisamos para viver. Mas nós, em contrapartida, a consideramos como um objeto qualquer, entregue ao nosso bel-prazer, sem nenhum sentido de responsabilidade pela sua preservação nem lhe damos alguma retribuição. Ao contrário, tratamo-la com violência, depredamo-la, arrancando tudo o que podemos dela para nosso benefício. E ainda a transformamos numa imensa lixeira de nossos dejetos.

Pior ainda: nós não conhecemos sua natureza e sua história. Somos analfabetos e ignorantes da história que se realizou nos nossos lugares no percurso de milhares e milhares de anos. Não nos preocupamos em conhecer a flora e a fauna, as montanhas, os rios, as paisagens, as pessoas significativas que ai viveram, artistas, poetas, governantes, sábios e construtores.

Somos, em grande parte, ainda devedores do espírito científico moderno que identifica a realidade com seus aspectos meramente materiais e mecanicistas sem incluir nela, a vida, a consciência e a comunhão íntima com as coisas que os poetas, músicos e artistas nos evocam em suas magníficas obras. O universo e a natureza possuem história. Ela está sendo contada pelas estrelas, pela Terra, pelo afloramento e elevação das montanhas, pelos animais, pelas florestas e pelos rios. Nossa tarefa é saber escutar e interpretar as mensagens que eles nos mandam.

Os povos originários sabiam captar cada movimento das nuvens, o sentido dos ventos e sabiam quando vinham ou não trombas d’água. Chico Mendes com quem participei de longas penetrações na floresta amazônica do Acre sabia interpretar cada ruído da selva, ler sinais da passagem de onças nas folhas do chão e, com o ouvido colado ao chão, sabia a direção em que ia a manada de perigosos porcos selvagens. Nós desaprendemos tudo isso. Com o recurso das ciências lemos a história inscrita nas camadas de cada ser. Mas esse conhecimento não entrou nos currículos escolares nem se transformou em cultura geral. Antes, virou técnica para dominar a natureza e acumular.

No caso das cidades serranas: é natural que haja chuvas torrenciais no verão. Sempre podem ocorrer desmoronamentos de encostas. Sabemos que já se instalou o aquecimento global que torna os eventos extremos mais freqüentes e mais densos. Conhecemos os vales profundos e os riachos que correm neles. Mas não escutamos a mensagem que eles nos enviam que é: não construir casas nas encostas; não morar perto do rio e preservar zelosamente a mata ciliar. O rio possui dois leitos: um normal, menor, pelo qual fluem as águas correntes e outro maior que dá vazão às grandes águas das chuvas torrenciais. Nesta parte não se pode construir e morar.

Estamos pagando alto preço pelo nosso descaso e pela dizimação da mata atlântica que equilibrava o regime das chuvas. O que se impõe agora é escutar a natureza e fazer obras preventivas que respeitem o modo de ser de cada encosta, de cada vale e de cada rio.

Só controlamos a natureza na medida em que lhe obedecemos e soubermos escutar suas mensagens e ler seus sinais. Caso contrário teremos que contar com tragédias fatais evitáveis.

Fonte: http://vidaemeioambiente.wordpress.com/2011/01/18/o-preco-de-nao-escutar-a-natureza/ - Acesso em: 22/01/2011