sábado, agosto 14, 2010

QUATRO ANOS JÁ SE PASSARAM

QUATRO ANOS JÁ SE PASSARAM

Numa segunda feira de tarde, no dia 14 de agosto de 2006, eu iniciei a jornada com o Compartilhando Palavras. Eu não tinha computador, dependia de lans houses e do laboratório de informática da universidade onde estava fazendo o curso de turismo. Quando aparecia um idéia, ela era registrada e folhas de papel, pare ser digitada e publicada na primeira oportunidade. Eu pensava: será que vou ter assunto para manter este blog? Hoje, 437 postagens depois, eis-me aqui escrevendo a de número 438.

O primeiro semestre de 2010 foi complicado no que se refere ao acesso à internet, somente no final do mês de julho é que eu consegui resolver este problema. Isto se refletiu na quantidade de postagens, que diminuiu muito. Outro fator que afetou a minha produção textual, foi a distância ente a minha casa e o trabalho e o tempo gasto para fazer o caminho de ida e volta. Quatro horas diárias dentro de um meio de transporte suga a energia criativa de uma pessoa e, se eu não tomar cuidado, começo a fazer tudo automáticamente.

O exercício de escrever me permite desabafar, colocar as idéias e ordem e enxergar o caos que reina neste mundo com mais esperança. Quando escrevo, dou asas à imaginação, dou forma aos sonhos e os preparo para que virem realidade. Escrevendo, consegui resolver um problema de minha casa, que se arrastava há algumas semanas e oferecia risco às pessoas. Vejam o artigo: LUTANDO POR UM DIREITO .

O tempo passa rápido e, quando eu menos esperar, já estará na hora de escrever a mensagem do quinto ano. Não quero perder de vista o objetivo de sempre levar uma palavra de ânimo ao que está cansado e de restauração para os que perderam a esperança.

Que a força das palavras aplicadas neste espaço nos leve a conhecer mais a Jesus Cristo, o seu ministério de amor e nos encha de indignação para levantar a nossa voz, profeticamente, denunciando o pecado, o mal e a opressão, que insistem em ofuscar o brilho da luz de Jesus na sociedade em que vivemos.

Mais uma vez, obrigado por nos acompanhar.

sexta-feira, agosto 13, 2010

OCUPAÇÃO ISRAELENSE E REFLEXÕES TEOLÓGICAS - Naim Ateek

Autor da Foto: José Cláudio Turolla

OCUPAÇÃO ISRAELENSE E REFLEXÕES TEOLÓGICAS

Naim Ateek

Contexto político e religioso

O conflito na Palestina pode ser descrito como uma tragédia grega composta de dois Atos. O Primeiro Ato aconteceu em 1948 quando cerca de três quartos da terra foram perdidos e cerca de 750,000 palestinos (muçulmanos e cristãos) foram etnicamente eliminados. Na realidade, 60% da comunidade cristã foi deslocada. Eles foram dispersos pelo Oriente Médio e por diferentes partes do mundo. O Segundo Ato aconteceu em 1967 quando o resto da Palestina foi ocupada pelo exército israelense e centenas de milhares de palestinos foram deslocados (muçulmanos e cristãos). Quando o Segundo Ato terminou, a catástrofe na Palestina tinha se tornado completa.

Neste artigo, eu vou focar brevemente no efeito da ocupação israelense sobre a comunidade cristã e a resposta dos cristãos palestinos.

A perda da Palestina e a dispersão da comunidade cristã palestina através do mundo criaram uma tragédia física e espiritual. Na verdade, o impacto espiritual tem sido menos traumático que a erradicação física. Para muçulmanos e cristãos, a perda da Palestina em 1948 foi o resultado da interação entre os poderes ocidentais na política mundial, entre os aliados vitoriosos da Segunda Guerra Mundial. Embora, na época, o Sionismo já existisse por cerca de 50 anos e o Governo Britânico já estivesse condicionado e influenciado pela ideologia do Sionismo, foi o impacto do holocausto que facilitou e acelerou a criação do Estado “judaico”.

Dilema e contexto religiosos

Da perspectiva da maioria dos palestinos, que eram totalmente inconscientes do que pensavam os cristãos ocidentais, a perda da Palestina parecia um ato injusto e imoral que foi inspirado e guiado por um espírito colonial e interesses políticos ocidentais. Ao mesmo tempo, a perspectiva de alguns cristãos fundamentalistas ocidentais em relação ao que aconteceu era crer que foi um ato divino e guiado por Deus. Para estes cristãos, a criação de Israel era o cumprimento da profecia bíblica. Deus estava ativo através de seus líderes políticos para realizar seus propósitos para o povo judeu a fim de preparar a Segunda Vinda de Cristo e o Fim do mundo. Dito sarcasticamente, tal evento transcendental era mais importante para Deus que se preocupar com os direitos e interesses de 1,3 milhão de palestinos que eram o povo nativo do lugar.

Devo enfatizar que a maioria dos palestinos não tem a menor ideia sobre a importância religiosa do retorno dos judeus. Alguns devem ter um consciência rudimentar do sofrimento de judeus europeus sob os nazistas mas tal conhecimento não tem nenhuma relevância para sua vida cotidiana. A lógica simples declarada pelo palestino médio é de que o colonialismo britânico foi sendo substituído por uma forma de colonialismo judaico. Do ângulo de qualquer um, não havia nada novo em tudo isto. Afinal, a Palestina tinha sido ocupada e governada por poderes externos por milhares de anos. Não estava diretamente relacionado à religião. Tinha que ver simplesmente com política, poder militar e interesse político.

Quanto aos cristãos palestinos, com sua fé honesta e simples, continuavam a confiar em Deus e orar por sua misericórdia e proteção. Eles oravam por justiça que os permitiria retornar para suas casas e negócios. Basicamente, esperavam em Deus com esperança. Outros, especialmente os jovens, queriam fazer alguma coisa a respeito. Eles se juntaram a grupos de resistência que estavam ansiosos para reverter a injustiça e salvar a Palestina daqueles que a capturaram.

Para aqueles cristãos que conheciam bem sua Bíblia, era o tempo mais confuso que já existira. Eles estavam chocados com o que tinha acontecido. Questões religiosas e teológicas proliferaram. Eram as velhas questões recorrentes que tinham sido repetidas milhões de vezes pelos povos oprimidos através dos séculos. A nova situação na Palestina, agora em grande parte Israel, levantou questões e demandou respostas. De fato, demandou uma nova teologia porque a velha teologia não funcionava mais para os cristãos palestinos. À luz do estabelecimento do novo estado, a palavra “Israel” mesma precisava de uma nova definição. O novo Israel é uma extensão do Israel bíblico? O novo estado é realmente o cumprimento da profecia bíblica? A Bíblia tem alguma coisa a dizer sobre o que está acontecendo? Onde está Deus nisso tudo? Deus condena o que aconteceu? Como se pode reconciliar o que está acontecendo com a justiça e a bondade de Deus? Muitas questões eram feitas mas as respostas eram poucas e insatisfatórias.

Depois da ocupação do resto da Palestina em 1967, algumas destas perguntas teológicas se agravaram. Como o exército israelense tomava medidas duras com punho de ferro e a ocupação se tornava mais consolidada, o confisco da terra palestina se espalhou, os assentamentos ilegais se multiplicaram, os assentados se tornaram difíceis de controlar e violentos, a opressão dos palestinos perceptivelmente clara, a situação desesperadora e impotente e a comunidade internacional, incluindo os Estados Unidos, foi incapaz de pressionar o governo israelense a respeitar e implementar a lei internacional. Novamente, as perguntas eram abundantes.

Como Deus vê a opressão dos palestinos? Dado que a religião tem sido sequestrada pelos extremistas, o que se pode fazer? Estamos testemunhando não apenas a corrupção da fé, mas talvez o fim da fé como a conhecemos? E o Sionismo cristão, que parece estar totalmente cego para o que o governo de Israel e sua população assentada estão fazendo? Estariam também se tornando totalmente absorvidos por uma ética de guerra vetero-testamentária que tem perdido o espírito, amor e a paz que Jesus defendeu?

A voz da igreja durante a maior parte desse período foi fraca. Na verdade, houve vozes individuais contra a injustiça e a opressão mas a voz coletiva foi fraca. Percebe-se que a maioria das igrejas da Palestina parecia estar satisfeita com as celebrações de suas liturgias e cultos de domingo. Entretanto, os sermões que eram pregados, na maior parte do tempo não tinham nenhuma relevância para o cotidiano das pessoas. Os estudos bíblicos que eram dados, geralmente, enfatizaram a fé espiritual privada mas raramente havia qualquer discussão sobre questões de justiça e paz. Não havia qualquer palavra sobre o que significa ser um pacificador hoje; ou o que a igreja poderia fazer para resistir à violência da ocupação e assumir uma posição mais firme contra a injustiça. Na verdade, os rituais e cerimônias da igreja continuaram como sempre, mas a palavra profética está ausente? Negligenciamos “os preceitos mais importantes da lei” como Jesus criticou os líderes religiosos dos seus dias, “a justiça, a misericórdia e a fidelidade”?

Os anos têm passado rapidamente, a ocupação está mais entrincheirada e a igreja está escondida atrás de sua liturgia e permanece letargicamente silenciosa. A análise acima tem descrito a situação da igreja para a maior parte dos anos recentes. É importante, entretanto, afirmar que desde a primeira Intifada, três importantes desenvolvimentos têm acontecido dentro da comunidade cristã da Palestina.

PRIMEIRO: O surgimento da teologia da libertação palestina. O fenômeno tomou diferentes formas. O clero palestino de Israel e Cisjordânia — ortodoxo, católico e protestante — começou a articular teologias contextuais que tratava da situação religiosa, social e política no país a partir de sua fé. Estes teólogos enfatizavam a justiça de Deus assim como o amor inclusivo de Deus por todos os povos. Eles condenavam tanto a violência da ocupação como a violência dos grupos palestinos extremistas. Ao mesmo tempo, eles enfatizavam a importância da não-violência na resistência à ocupação ilegal.

Através de livros e publicações, estes teólogos têm sido capazes de influenciar o pensamento e a teologia de muitas pessoas no mundo em relação ao dilema dos palestinos. Além disso, através da exegese de textos bíblicos tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, eles têm sido capazes de criticar a ideologia exclusivista e a teologia do governo de Israel e de sua população religiosa assentada assim como do Sionismo cristão.

Estes teólogos continuam a sustentar uma visão de paz e reconciliação baseada na fé num Deus que ama todos os povos igualmente e que deseja que todos os povos da terra vivam juntos em paz e harmonia.

SEGUNDO: Havia uma voz pela paz e a justiça que foi ouvida intermitentemente no país que vinha de alguns bispos. Não era, entretanto, uma voz conjunta de todos os patriarcas e bispos. Nem os cristãos nem o governo israelense ouviram uma voz clara, alta e conjunta sobre a opressão dos palestinos e a necessidade de pará-la. Por várias razões, certas ou erradas, os líderes eclesiais falharam em protestar unanimemente contra a injustiça e a opressão dos palestinos. Quando eles falaram, não foram nunca sinceros e diretos.

TERCEIRO: Recentemente, outra voz da comunidade cristã da Palestina está sendo ouvida. É a voz do documento Kairós Palestina. No meio da situação de opressão, a comunidade cristã foi capaz de produzir um documento valentemente chamado “A Hora da Verdade”. É um documento que se dirige principalmente para a comunidade cristã da Palestina. Também se dirige aos cristãos e igrejas no exterior. Ao mesmo tempo, se dirige às pessoas de outras tradições religiosas assim como à situação política no país e mais especificamente ao governo israelense. O documento considera a ocupação um pecado e convoca a resistir através do uso de métodos não-violentos.

Uma das coisas mais significativas deste documento é sua natureza ecumênica já que aqueles que trabalharam nele pertencem às várias igrejas da Palestina. Assim, é uma voz cristã palestina que busca falar a verdade ao poder e testemunhar da possibilidade da paz com justiça.

Conclusão

Olhando para os últimos 62 anos desde a criação do Estado de Israel, pode-se dizer que a comunidade cristã foi vagarosa em tratar das questões pertinentes que se levantaram das consequências da perda da Palestina. Mas muitos de nós somos gratos a Deus que, a despeito do começo lento, a fé e a resiliência dos cristãos os têm movido a levantar sua voz e dar um importante testemunho ao mundo inteiro. Através desse documento, eles levantam a bandeira da paz e da reconciliação e, de boa vontade, aceitam o chamado de Cristo para serem pacificadores e se comprometerem a testemunhar do amor e da justiça de Deus.

Naim Ateek é pastor anglicano e cidadão árabe de Israel. É o presidente e diretor de Sabeel, um centro teológico ecumênico em Jerusalém. É doutor em Teologia pelo Seminário Teológico de São Francisco e autor de Justice and Only Justice: a Palestinian Theology of Liberation (Orbis, 1989) e A Palestinian Christian Cry for Reconciliation (Orbis, 2008).

quinta-feira, agosto 12, 2010

O Desafio de ser Igreja - Pr Henrique Vieira

O Desafio de ser Igreja - Pr Henrique Vieira (Parte 1)



O Desafio de ser Igreja - Pr Henrique Vieira (Parte 2)



O Desafio de ser Igreja - Pr Henrique Vieira (Parte 3)



O Desafio de ser Igreja - Pr Henrique Vieira (Parte 4)



O Desafio de ser Igreja - Pr Henrique Vieira (Parte 5)



O Desafio de ser Igreja - Pr Henrique Vieira (Parte 6)



O Desafio de ser Igreja - Pr Henrique Vieira (Parte 7)

quarta-feira, agosto 11, 2010

RESGATANDO A RADICALIDADE CRISTÃ - Henrique Vieira

RESGATANDO A RADICALIDADE CRISTÃ

Henrique Vieira

É muito triste quando as realidades lamentáveis que assolam o povo não mais nos comovem ou despertam nossa compaixão. É sinal de desumanidade quando em nosso coração não cabem mais as dores do mundo. É decepcionante quando nossa fé é meramente utilitarista e voltada exclusivamente para nossos interesses. É frustrante quando nossa experiência com Deus nos torna alienados e despreocupados com o mundo. É contraditório nós esperarmos o novo mundo e não nos engajarmos na luta de um mundo novo.

Vivemos em uma sociedade frenética, globalizada, interativa e com um fluxo enorme de informações variadas. Pensamos sobre tudo e refletimos sobre nada. Estamos inseridos em um tempo de profunda competitividade que acentua não a individualidade, mas o individualismo. Enquadramo-nos em uma lógica que desvaloriza o bem comum, desacredita dos projetos coletivos e reduz a percepção do outro. Ficamos facilmente egoístas e insensíveis, pelo menos em termos práticos. Cada vez mais absurdos tais como: violência, preconceito, intolerância, fome, miséria, falta de habitação e de direitos, destruição do meio ambiente e da biodiversidade não mais nos chamam atenção. Há um infeliz processo de naturalização do absurdo e conformismo com o caos. Então surge uma pergunta: que diferença faz nossa fé em Jesus?

Creio que inspirados pela vida de Jesus somos convidados a um profundo lamento diante de toda realidade que mortifica a vida. Creio que inspirados pela vida de Jesus nosso coração acolhe os sentimentos, pensamentos e sonhos de Deus. Tornamo-nos mais vivos e apaixonados pela vida, mais intensos e desapegados, mais desprendidos e despojados; mais conscientes e ao mesmo tempo esperançosos.

Jesus amou em palavras e atitudes. Quebrou preconceitos, acolheu os excluídos, denunciou as estruturas de exploração, dividiu o pão, democratizou o banquete, levantou a voz contra os opressores, ensinou a viver com humildade, deu atenção aos solitários, prestou atenção na natureza (aves do céu e lírios do campo) amou os inimigos, não abandonou os amigos, não se rendeu a fama, semeou paz, abominou o amor ao dinheiro, espalhou esperança, enfim, fez o futuro Reino de Deus se tornar presente em sua própria vida.

Este é o nosso parâmetro, o autor e o alvo da nossa fé, o motivo das nossas canções e a razão da nossa vida. Então somos desafiados a dar continuidade à lógica da vida de Jesus em nossas vidas e para isso contamos com a própria presença de Deus em nós. Não nos rendamos aos encantos desencantados deste mundo e que nosso parâmetro de sucesso e realização emane da vida de Jesus. Isso nos colocará inadequados ao mundo e vai requerer de nós comprometimento e convicção. Mas precisamos resgatar a radicalidade graciosa da experiência cristã. Que Deus nos fale e nos encha de amor. Vamos olhar para vida de Jesus e ter coragem!

Fé Cega, Faca Amolada por Baixo e Voz

Por que Persiste a Igreja-Poder? Leonardo Boff

Por que Persiste a Igreja-Poder?

Leonardo Boff

Vou abordar um tema incômodo mas incontornável: como pode a instituição-Igreja, como a descrevi num artigo anterior, com características autoritárias, absolutistas e excludentes se perpetuar na história? A ideologia dominante responde: “só porque é divina”. Na verdade, este exercício de poder não tem nada de divino. Era o que Jesus exatamente não queria. Ele queria a hierodulia (sagrado serviço) e não a hierarquia (sagrado poder). Mas esta se impôs através dos tempos.

Instituições autoritárias possuem uma mesma lógica de autorreprodução. Não é diferente com a Igreja-instituição. Em primeiro lugar, ela se julga a única verdadeira e tira o título de “igreja” a todas as demais. Em seguida cria-se um rigoroso enquadramento: um pensamento único, uma única dogmática, um único catecismo, um único direito canônico, uma única forma de liturgia. Não se tolera a crítica nem a criatividade, vistas como negação ou denunciadas como criadoras de uma Igreja paralela ou de um outro magistério.

Em segundo lugar, se usa a violência simbólica do controle, da repressão e da punição, não raro à custa dos direitos humanos. Facilmente o questionador é marginalizado, nega-se-lhe o direito de pregar, de escrever e de atuar na comunidade. O então cardeal Joseph Ratzinger, presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, em seu mandato, puniu mais de cem teólogos. Nesta mesma lógica, pecados e crimes dos sacerdotes pedófilos ou outros delitos, como os financeiros, são mantidos ocultos para não prejudicar o bom nome da Igreja, sem o menor sentido de justiça para com as vítimas inocentes.

Em terceiro lugar, mitificam-se e quase idolatram-se as autoridades eclesiásticas principalmente o Papa que é o “doce Cristo na Terra”. Penso eu lá com meus botões: que doce Cristo representava o Papa Sérgio (904), assassino de seus dois predecessores ou o Papa João XII (955), eleito com a idade de 20 anos, adúltero e morto pelo marido traido ou, pior, o Papa Bento IX (1033), eleito com 15 anos de idade, um dos mais criminosos e indignos da história do papado, chegando a vender a dignidade papal por 1000 liras de prata?

Em quarto lugar, canonizam-se figuras cujas virtudes se enquadram no sistema, como a obediência cega, a contínua exaltação das autoridades e o “sentir com a Igreja (hierarquia)”, bem no estilo fascista segundo o qual “o chefe (o ducce, o Führer) sempre tem razão”.

Em quinto lugar, há pessoas e cristãos com natureza autoritária, que acima de tudo apreciam a ordem, a lei e o princípio de autoridade em detrimento da lógica complexa da vida que tem surpresas e exige tolerância e adaptações. Estes secundam esse tipo de Igreja bem como regimes políticos autoritários e ditatoriais. Aliás, há uma estreita afinidade entre os regimes ditatoriais e a Igreja-poder como se viu com os ditadores Franco, Salazar, Mussolini, Pinochet e outros. Padres conservadores são facilmente feitos bispos e bispos fidelissimos a Roma são promovidos, fomentando a subserviência. Esse bloco histórico-social-religioso se cristalizou e garantiu a continuidade a este tipo de Igreja.

Em sexto lugar, a Igreja-poder sabe do valor dos ritos e símbolos pois reforçam identidades conservadoras, pouco zelando por seus conteúdos, contanto que sejam mantidos inalteráveis e estritamente observados.

Em razão desta rigidez dogmática e canônica, a Igreja-instituição não é vivida como lar espiritual. Muitos emigram. Dizem sim ao cristianismo e não à Igreja-poder com a qual não se identificam. Dão-se conta das distorções feitas à herança de Jesus que pregou a liberdade e exaltou o amor incondicional.

Não obstante estas patologias, possuimos figuras como o Papa João XXIII, Dom Helder Câmara, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Luiz Flávio Cappio e outros que não reproduzem o estilo autoritário, nem apresentam-se como autoridades eclesiásticas mas como pastores no meio do Povo de Deus. Apesar destas contradições, há um mérito que importa reconhecer: esse tipo autoritário de Igreja nunca deixou de nos legar os evangelhos, mesmo negando-os na prática, e assim permitindo-nos o acesso à mensagem revolucionária do Nazareno. Ela prega a libertação mas geralmente são outros que libertam.

Leonardo Boff é teólogo e escritor

terça-feira, agosto 10, 2010

COMENTÁRIOS SOBRE A REPORTAGEM DA REVISTA ÉPOCA

COMENTÁRIOS SOBRE A REPORTAGEM DA REVISTA ÉPOCA

Foi com alegria e surpresa que li a matéria "A Nova Reforma Protestante" publicada na "Revista Época" desta semana (09/08/2010) expondo o pensamento dos evangélicos que discordam das práticas neo pentecostais e da teologia da prosperidade.

É importante que um veículo secular ecoe, para a sociedade, o som das vozes que vêm gritando há muito tempo entre as quatro paredes dos templos afirmando que o evangelho não é esta busca desenfreada por dinheiro e poder que os teleevangelistas exibem em seus programas. Creio que isto é o início de uma resposta às nossas orações.

O Repórter Ricardo Alexandre fez uma pesquisa cuidadosa do universo protestante e soube expor de forma isenta os pontos principais de nossos questionamentos ao cenário atual da igreja evangélica brasileira. Obviamente que muito ainda precisa ser dito, mas já é o início de um bom debate.

Precisamos aproveitar este momento para nos posicionarmos diante da sociedade, do bairro onde vivemos e lhes mostrar que o evangelho é uma mensagem de amor, de conscientização e de libertação, e não este instrumento alienante que tem sido apresentado ao longo das últimas duas décadas em nosso país.

Os neopentecostais sentiram o golpe, tanto que os representantes da Universal preferiram se calar e a Renascer apelou para o jargão de que "O que não é de Deus vai desaparecer". Quem tiver paciência para assistir os programas destas igrejas deve ouvir alguns discursos inflamados em defesa da teologia da prosperidade.

O Sociólogo Ricardo Mariano analisou com ceticismo este movimento, considerando-o como mais uma divisão, entre tantas outras, que acometem os evangélicos de tempos em tempos. A verdade é que não podemos deixar que esta luta se transforme numa simples moda passageira, que logo será esquecida.

Quando eu comecei a estudar teologia, na década de 90, tive esta percepção, citada pelo Ricardo Agreste, de que a igreja pensava que ainda vivia no ambiente rural, onde ela havia sido fundada, e não apresentava respostas convincentes ás perguntas feitas pela sociedade urbana e vibrante, na qual ela estava inserida.

Vamos usar o princípio do sal da terra, pregado por Jesus, e nos misturar com a nossa comunidade, conhecer as suas dores e alegrias, descobrir quais são os seus questionamentos e construir junto com eles cada resposta, baseada na bíblia e em nossa experiência cristã.

O lado positivo deste cenário adverso pelo qual a igreja está passando é que ele estimula a maturidade dos fiéis, que se expressa na capacidade de se auto criticar e buscar novos caminhos para se reaproximar do evangelho. Que Deus nos abençoe e nos ajude a tornar este momento significativo e abençoador para a nossa fé e para a igreja de Cristo no Brasil e no mundo.

segunda-feira, agosto 09, 2010

PEQUENA LUZ - As crianças do Caminho

sábado, julho 24, 2010

A Hora e a Vez de José

A Hora e a Vez de José
O teólogo brasileiro José Comblin não é brasileiro, não é teólogo, não é José. Nasceu na Bélgica, provavelmente como Joseph, e muito mais do que um pensador do sagrado, é um crítico da vida em sua totalidade. Desses intelectuais tão vorazes que resistem a reduções e classificações, e desses seres humanos que conquistam o direito de ser “a maioria moral de um homem só”, para lembrar Thoreau e Gandhi.

O povo o transformou em “Padre Zé” porque, junto aos pobres, assumiu a sua agenda de libertação e optou por caminhar distante das estradas autorizadas oficiais. Um belga que conseguiu ser expulso do Brasil e do Chile porque as ditaduras o consideravam “demasiadamente inteligente”, como teria comentado Pinochet; e hoje, com mais de oitenta anos de vida, continua a usar a sua sabedoria acumulada criticando as estruturas e a facilidade das instituições, incluindo as eclesiásticas, de caminhar lado a lado com o poder.

Vive o evangelho da simplicidade, um “Padre Zé”, convivendo lado a lado com os josés e marias das periferias, urbanas ou rurais. Ele mesmo um teólogo de periferia, na contramão institucional, optando sempre por formações alternativas, acompanhando leigos engajados na vida e nas lutas sociais, ajudando-os a construir instrumentos sociológicos e teológicos de análise, animando-os em suas opções por mais justiça e liberdade.

O Nordeste do Brasil pode mostrar as marcas da peregrinação de Padre Zé por cidades pequenas, mosteiros e movimentos diferentes, através de construções concretas e de árvores plantadas por ele mesmo. Mas a sua maior contribuição tem sido e continua sendo a marca que consegue imprimir na vida e nas escolhas de pessoas. São muitas as pessoas simples que conheço que fizeram opções e assumiram compromissos sérios, sob a influência de sua palavra e de seu exemplo. A Teologia da Enxada e vários movimentos missionários de leigos são resultados de suas iniciativas.

Depois de muitos anos morando na Paraíba, resolveu morar na Barra, no estado da Bahia, junto a Dom Luiz de Cappio, o bispo que luta pelo Rio São Francisco e seu povo. É uma nova hora e uma nova vez para José Comblin, e uma nova esperança para todos os josés. Sendo belga, é verdadeiramente o mais brasileiro dos brasileiros e é teólogo do povo, orgulho de toda Maria e de todo Zé.

Fonte: http://www.novosdialogos.com/artigo.asp?id=192

Segredos - Frejat

INSTANTÂNEOS DE DEUS

INSTANTÂNEOS DE DEUS

A fé é um modo de possuir aquilo que se espera, é um meio de conhecer realidades que não se vêem. Hebreus 11.1

Fotografar é um dos meus hobbies preferidos. Para cada lugar que eu vou carrego a minha câmera e registro muitas imagens. A fotografia congela um momento e, de certa forma, eterniza situações agradáveis que vivemos, permitindo-nos reviver as emoções cada vez que contemplamos os álbuns que colecionam imagens importantes da vida.

Quero tomar a liberdade de fazer uma analogia entre a fé citada no texto de Hebreus 11 e a arte de fotografar. Esta fé que transforma vidas e fica marcada na história não se constrói da noite para o dia, ela é o resultado do acúmulo das nossas experiências com Deus, que forjam o caráter e tranquilizam a alma pela certeza de que veremos a atuação de Deus, mesmo quando ela parece improvável.

Cada experiência que fortalece a fé pode ser considerada como uma foto, um instantâneo da atuação de Deus em nossa vida. Quando aparece uma necessidade, abrimos o álbum de nossa fé e recordamos os momentos em que Deus fez algo que nos marcou e fortalecemos a esperança de que o Deus que nos livrou no passado, continuará tomando conta da nossa vida dali para frente. O grande problema acontece quando o álbum de nossa vida com Deus tem poucas fotos e as que estão ali são tão antigas que já não causam nenhum impacto.

Não podemos confundir o conceito dos instantâneos de Deus, que são fundamentais para a cnstrução de uma espiritualidade saudável, com a idéia nociva da espiritualidade instantânea.

Estes são tempos em que ninguém gosta de esperar. Tudo tem que ser feito na hora. O leite em pó e o achocolatado instantâneos são os preferidos, porque não demoram a dissolver seja na água quente ou na fria. Se um computador leva mais de 30 segundos para carregar uma página, produz grande irritação. Se um aparelho quebra, comprar outro é a melhor opção para resolver o problema rapidamente.

A fé instantânea cobra respostas imediatas, estabelece um relacionamento comercial onde um paga e Deus entrega as soluções. Esta fé não produz intimidade ou acolhimento, ela se alimenta do sucesso e não abre espaço para o fracasso. Se você não alcançou o objetivo proposto, precisa ser escondido, para não desacreditar toda a pregação.

A fé bíblica fundamentada nas experiências com Deus não desanima diante do insucesso. Ela se torna um modo de possuir aquilo que se espera, porque é capaz de enxergar além daquilo que o olho pode ver. No meio do caos a fé cria a beleza e a ordem. No fracasso a fé constrói o trampolim para a vitória. Como anda o álbum de fotos de sua fé? Está repleto de imagens que recordam atos transformadores de Deus em sua vida, ou anda vazio com poucas e antigas fotos?

Precisamos aprender ou reaprender a colecionar experiências com Deus fundamentadas pela oração, pela leitura da bíblia e pelo exercício da contemplação dos atos de Deus que acontecem cotidianaente. Quantas alegrias perdemos simplesmente por não perceber as intervenções divinas no meio de um dia agitado?

Homens e mulheres fizeram a diferença na história porque superaram as limitações impostas pelos seus opressores e avançaram para conquistar o seu prêmio. Alguns morreram sem ver a sua esperança concretizada, mas nem por isso duvidaram de que Deus era poderoso para realizar os seus sonhos.

sábado, julho 17, 2010

CAMINHO - Daniel Cahon



Ficha técnica:

Produção Musical e Arranjos: Daniel Cahon
Mixagem e Masterização: Daniel Cahon
Bateria: Di Stéffano
Contrabaixo e Violão: Daniel Cahon
Flauta Transversa: Milher Moraes
Guitarras: Cilênio Peres
Percussão: Danilo Torres, Felipe Mercandelli e Julia Ramalho
Pianos: Hélio Júnior
Sax Tenor: AC
Trombone: Téo Marco
Trompete: Luther Garcia
Voz: Júlia Silveira

Voz e Violão - Daniel Cahon



Ficha técnica:

Produção Musical e Arranjos: Daniel Cahon
Mixagem e Masterização: Daniel Cahon
Bateria: Di Stéffano
Contrabaixo e Violão: Daniel Cahon
Flauta Transversa: Milher Moraes
Guitarras: Cilênio Peres
Percussão: Danilo Torres, Felipe Mercandelli e Julia Ramalho
Pianos: Hélio Júnior
Sax Tenor: AC
Trombone: Téo Marco
Trompete: Luther Garcia
Voz: Júlia Silveira

A Oração das Orações - Henrique Vieira (1)

A Oração das Orações - Henrique Vieira (2)

Acordo (Stenio Marcius) - Por Gidel Costa

FRENTE DE RESGATE DA IDENTIDADE BATISTA CARIOCA

sexta-feira, junho 11, 2010

PÃO DE AÇÚCAR - PARTE 1

PÃO DE AÇÚCAR - PARTE 2

quarta-feira, junho 02, 2010

Uma Silva sucessora de um Silva? Leonardo Boff

UMA SILVA SUCESSORA DE UM SILVA?

Leonardo Boff*, Jornal do Brasil

RIO - Não estou ligado a nenhum partido, pois para mim partido é parte. Eu como intelectual me interesso pelo todo embora, concretamente, saiba que o todo passa pela parte. Tal posição me confere a liberdade de emitir opiniões pessoais e descompromissadas com os partidos.

De forma antecipada se lançou a disputa: Quem será o sucessor do carismático presidente Luiz Inácio Lula da Silva?

De antemão afirmo que a eleição de Lula é uma conquista do povo brasileiro, principalmente daqueles que foram sempre colocados à margem do poder. Ele introduziu uma ruptura histórica como novo sujeito político, e isso parece ser sem retorno. Não conseguiu escapar da lógica macroeconômica que privilegia o capital e mantém as bases que permitem a acumulação das classes opulentas. Mas introduziu uma transição de um estado privatista e neoliberal para um governo republicano e social que confere centralidade à coisa pública (res publica), o que tem beneficiado vários milhões de pessoas. Tarefa primeira de um governante é cuidar da vida de seu povo, e isso Lula o fez sem nunca trair suas origens de sobrevivente da grande tribulação brasileira.

Depois de oito anos de governo se lança a questão que seguramente interessa à cidadania e não só ao PT: quem será seu sucessor? Para responder a esta questão precisamos ganhar altura e dar-nos conta das mudanças ocorridas no Brasil e no mundo. Em oito anos muita coisa mudou. O PT foi submetido a duras provas, e importa reconhecer que nem sempre esteve à altura do momento e das bases que o sustentam. Estamos ainda esperando uma vigorosa autocrítica interna a propósito de presumido “mensalação”. Nós, cidadãos, não perdoamos esta falta de transparência e de coragem cívica e ética.

Em grande parte, o PT virou um partido eleitoreiro, interessado em ganhar eleições em todos os níveis. Para isso se obrigou a fazer coligações muito questionáveis, em alguns casos, com a parte mais podre dos partidos, em nome da governabilidade que, não raro, se colocou acimaPublicar postagem da ética e dos propósitos fundadores do PT.

Há uma ilusão que o PT deve romper: imaginar-se a realização do sonho e da utopia do povo brasileiro. Seria rebaixar o povo, pois este não se contenta com pequenos sonhos e utopias de horizonte tacanho. Eu que circulo, em função de meu trabalho, pelas bases da sociedade vejo que se esvaziou a discussão sobre “que Brasil queremos”, discussão que animou por decênios o imaginário popular. Houve uma inegável despolitização em razão de o PT ter ocupado o poder. Fez o que pôde quando podia ter feito mais, especialmente com referência à reforma agrária e à inclusão estratégica (e não meramente pontual) da ecologia.

Quer dizer, o sucessor não pode se contentar de fazer mais do mesmo. Importa introduzir mudanças. E a grande mudança na realidade e na consciência da humanidade é o fato de que a Terra já mudou. A roda do aquecimento global não pode mais ser parada, apenas retardada em sua velocidade. A partir de 23 de setembro de 2008 sabemos que a Terra como conjunto de ecossistemas com seus recursos e serviços já se tornou insustentável porque o consumo humano, especialmente dos ricos que esbanjam, já passou em 40% de sua capacidade de reposição.

Esta conjuntura que, se não for tomada a sério, pode levar nos próximos decênios a uma tragédia ecológico-humanitária de proporções inimagináveis e, até pelo fim do século, ao desaparecimento da espécie humana. Cabe reconhecer que o PT não incorporou a dimensão ecológica no cerne de seu projeto político. E o Brasil será decisivo para o equilíbrio do planeta e para o futuro da vida.

Qual é a pessoa com carisma, com base popular, ligada aos fundamentos do PT e que se fez ícone da causa ecológica? É uma mulher, seringueira, da Igreja da libertação, amazônica. Ela também é uma Silva como Lula. Seu nome é Marina Osmarina Silva.

*Leonardo Boff é teólogo e autor do livro Que Brasil queremos?, Vozes, 2000.

terça-feira, maio 25, 2010

Justiça Social Também é Vida Devocional Parte 1

Justiça Social Também é Vida Devocional - Parte 2

Justiça Social Também é Vida Devocional Parte 3

Justiça Social Também é Vida Devocional Parte 4

sexta-feira, maio 21, 2010

CONSULTA TEOLOGICA - FTL BRASIL 2010

quinta-feira, maio 20, 2010

IV SIMPÓSIO DE TEOLOGIA E CIÊNCIAS DA RELIGIÃO

IV SIMPÓSIO DE TEOLOGIA E CIÊNCIAS DA RELIGIÃO

Outra descida do Espírito Santo?

Uma abordagem dos 100 anos do pentecostalismo no Brasil

Data e horários

Sexta-feira, 21 de maio de 2010 – 19 às 22 horas

Sábado, 22 de maio de 2010 – 9 às 17 horas

Conferencistas

Rev. Key Yuasa – Doutor em Teologia, Referência maior no estudo da igreja Congregação Cristã no Brasil. Pastor da Igreja Holiness, São Paulo.

Pr. Carlos César Novaes – Mestre em Teologia e professor de História do Cristianismo. Pastor da Igreja Batista Barão da Taquara, Rio de Janeiro

Local

FATERJ – Av. Meriti, 2460, Vila da Penha, Rio de Janeiro, RJ

Inscrições e informações: 3757-9906 - 2481-5811

ou através do site www.ibec-rio.com.br

Realização

Faculdade Teológica Evangélica do Rio de Janeiro

Instituto Brasileiro de Educação Superior Continuada

palestras●debates●comunicações●lançamentos bibliográficos●música●comunhão

quarta-feira, maio 19, 2010

EU VI A TORTURA


EU VI A TORTURA

Entrevista: Élber de Melo Henriques - Veja: 3/11/1999

Coronel que salvou a vida de preso político admite ter assistido a ações de tortura durante o regime militar

Consuelo Dieguez

"Perguntei a um oficial quem eram aqueles rapazes: 'São americanos que estão nos ensinando a torturar'" Paulo Jares

Durante trinta anos o coronel do Exército Élber de Mello Henriques manteve segredo das cenas bárbaras que presenciou no quartel da Polícia do Exército, PE, no Rio de Janeiro. O quartel da Rua Barão de Mesquita, como era conhecido, ficou macabramente famoso por ter sido um local onde se torturavam e matavam presos políticos. Agora, Henriques, de 82 anos, resolveu falar. "Pedi para ver um preso que eu teria de interrogar. O homem estava pendurado no pau-de-arara, totalmente destruído", afirma. O "homem" era Roberto Cieto, do grupo esquerdista Armada Revolucionária, que, segundo a versão oficial, se teria suicidado. É a primeira vez que um militar vem a público confirmando ter presenciado atos de tortura nos porões da ditadura militar. Incumbido pelo então I Exército (atual Comando Militar do Leste) de fazer o inquérito policial-militar, IPM, de alguns dos presos da PE, o coronel revoltou-se contra as atrocidades ali cometidas e as levou ao conhecimento de seus superiores. Exigiu a punição dos torturadores. No mesmo dia em que fez as denúncias, foi afastado da tarefa. No tempo em que ficou no quartel, contudo, ele mandou que as torturas fossem suspensas e salvou a vida do preso político Flávio Tavares – que reconheceu o gesto do coronel num livro lançado em outubro.

Veja – O jornalista Flávio Tavares afirma que o senhor o salvou de morte por tortura quando ele estava preso no Rio de Janeiro, em 1969. Como foi seu encontro com ele?

Henriques – Fui designado pelo comando do então I Exército para fazer o IPM de alguns presos políticos que estavam no quartel da Polícia do Exército, no Rio de Janeiro. Assim que cheguei ao quartel pedi para ver o Flávio Tavares, que eu teria de interrogar. Levaram-me até a cela dele e o que vi me deixou chocado. Era um cubículo imundo, com um buraco no chão servindo de privada que exalava um cheiro horroroso. Flávio, de tão machucado pelas torturas, dormia profundamente num colchão de palha sem lençol colocado no chão da cela. Imaginei que aquele homem deveria estar muito debilitado para conseguir dormir naquela situação, com aquele forte cheiro de urina. Determinei, então, que no dia seguinte me levassem o preso limpo e apresentável para o interrogatório e que o colocassem numa cela limpa, que eu mesmo inspecionei.

Veja – E isso aconteceu?

Henriques – Sim. No dia seguinte levaram o Flávio à minha sala. Eu disse a ele que sabia de tudo o que lhe tinham feito, mas que, a partir daquele momento, só eu poderia interrogá-lo. E assim ocorreu. No livro que acaba de lançar ele lembra que eu chamei a sua atenção de pronto. O motivo é que eu usava um uniforme comum do Exército, calça militar e sapatos, mas não portava arma, ao contrário do major José Mayer Fontenelli (então chefe do setor de informações do DOI-Codi do Batalhão da Polícia do Exército no Rio), que, segundo os presos me contaram, comandava as sessões de tortura no quartel, e de outros militares que faziam os interrogatórios.

Veja – E por que o senhor não portava arma como os outros?

Henriques – Imagine eu ir interrogar um prisioneiro com uma pistola na cintura. Isso é até uma prova de covardia. É ameaçador. O indivíduo fica aterrorizado porque eu posso simplesmente matá-lo dependendo do que ele diga.

Veja – O senhor também ficou impressionado com a sujeira da cela e a falta de lençóis e travesseiros com fronha. Por que isso o incomodou tanto?

Henriques – Nunca na minha vida eu exerci, como oficial do Exército, nenhuma ação contra prisioneiros meus. Sempre exigi que fossem tratados com dignidade. Em 1968, eu ainda estava no comando do Segundo Grupo de Canhões Anti-Aéreos, em São Paulo, e me mandaram quinze estudantes presos. Coloquei-os num alojamento com roupas de cama limpas, travesseiros, água, banheiro para tomar banho e tudo aquilo que nós somos obrigados a dar ao prisioneiro. Porque eles merecem isso pela legislação e pela dignidade humana.

Veja – Quando o senhor viu que não havia nada daquilo no quartel da Rua Barão de Mesquita, não pediu providências?

Henriques – Logo no dia seguinte, após tomar o depoimento do Flávio e de ter conhecimento do que estava ocorrendo naquele quartel, fui falar com o comandante, o tenente-coronel José Nei Fernandes Antunes (já falecido). Eu disse a ele que exigia absoluto respeito à pessoa humana, ao prisioneiro.

Veja – E qual foi a reação dele?

Henriques – Ele me respondeu: "Olha, coronel, eu aceito a tortura até certo ponto. Mas a tortura brutal e grosseira, não". O fato é que encontrei no comando dele as mais violentas formas de tortura. Ele até podia não saber, como ele me deu a entender, mas o comandante é responsável pelo que acontece no seu comando. Quanto à falta de lençóis e de fronhas, ele me explicou que era para que os presos não se suicidassem. Mas que motivos eles teriam para se matar? Só se fosse pelo terror do dia seguinte. Pelo medo de sofrer novamente o que já tinham sofrido.

Veja – E o senhor achava aceitável a tortura "até certo ponto"?

Henriques – Não admito nenhuma forma de tortura. A tortura é um meio extremo de obter de determinada pessoa a informação que ela pode estar querendo ocultar, mas não necessariamente essa informação será a verdade. Um dia um parente meu disse que se o torturassem ele diria que matou até a mãe dele. Digo isso para mostrar o pavor que a tortura causa. Torcer o braço, apagar cigarro no peito, dar choques nos testículos e na vagina, dar batidas com a palma da mão aberta nos tímpanos. Tudo isso cria uma tal depressão e um terror no indivíduo que ele confessa até coisas que não sabe. Em termos de investigação, pode ser até contraproducente.

Veja – O senhor não imaginava que os presos estavam sendo submetidos a maus-tratos?

Henriques – Pensei que eu fosse encontrar no quartel uma situação de legalidade, de aplicação da lei. E era para isso que eu estava lá. Para agir com o rigor da lei. Isso significa respeitar a pessoa humana. Tratar o prisioneiro, não digo com bondade, mas com correção. Eu não previa as dificuldades que iria encontrar. Presos submetidos a torturas, celas imundas, uma indignidade.

Veja – O senhor assistiu a algum tipo de tortura no quartel da Barão de Mesquita?

Henriques – Presenciei muitas coisas que me desagradaram logo de início. Eu já havia tido aquela péssima impressão com o estado do Flávio. Em seguida, vi uns rapazes corpulentos que, pela cor da pele e pelo corte de cabelo, percebi serem estrangeiros. Eles estavam numa sala, cercados de militares brasileiros, mostrando instrumentos de tortura. Perguntei a um oficial o que era aquilo e ele me disse: "São os americanos que estão nos ensinando a torturar sem deixar vestígios". Foram eles que ensinaram as técnicas de choque elétrico nos testículos e na vagina. Era um aparelho que os presos políticos chamavam de "Dr. Volts". Esses americanos estavam aqui em missão oficial, não sei se chamados ou por oferecimento próprio. O interesse dos americanos era que nós déssemos informações a eles sobre as ligações dos comunistas brasileiros com os comunistas da União Soviética. Mas, para evitar denúncias de tortura, eles ensinavam técnicas que não deixassem cicatrizes, ossos quebrados, audição destruída.

Veja – Mas o senhor chegou a ver algum preso sendo torturado?

Henriques – Infelizmente, sim, mas não no início. O motivo é que eu chegava ao quartel por volta das 8 horas e saía às 17 horas. Mais tarde, soube que os presos eram torturados depois que eu deixava o quartel. Um dia pedi para ver um outro preso político que eu teria de interrogar. O nome dele era Roberto Cieto. O oficial do dia me levou até ele. Não esqueço até hoje o que vi. O homem estava pendurado num pau-de-arara, totalmente destruído. Era uma coisa de dar dó. Ele gemia, urinava, defecava. Não pude nem falar com ele porque estava fora de si. Isso foi numa sexta-feira de setembro de 1969. Pedi então que o tirassem dali, porque eu iria interrogá-lo na segunda-feira. Quando voltei ao quartel, na manhã de segunda-feira, mandei que trouxessem o preso. A resposta foi que ele havia se suicidado.

Veja – Qual foi a sua reação?

Henriques – Desconfiei da versão e pedi para ver o corpo. Então, me disseram que o preso já fora enterrado. Isso me revoltou. Saí do quartel e fui ao general Carlos Alberto Cabral Ribeiro (já falecido), que era chefe do Estado Maior do I Exército. Contei o que estava ocorrendo. Ele quis um documento escrito. Pedi um datilógrafo, sentei-me ao lado dele e ditei tudo o que tinha visto.

Veja – O que constava nesse documento?

Henriques – Contei o que vi e o que me falaram naqueles quase trinta dias em que fiquei lá. Dei o nome dos torturadores e exigi punição. Nenhum foi punido.

Veja – O senhor lembra quem eram os torturadores? Eram todos militares?

Henriques – Não lembro. Só me recordo do Fontenelli, que era um major pára-quedista. O Flávio até fala dele no livro. O resto está no relatório confidencial que entreguei ao general Carlos Alberto, do qual prefiro não falar exatamente por ser confidencial.

Veja – Mas o senhor citava quais presos políticos no relatório?

Henriques – Só o Flávio e o Cieto. Falava das torturas, do estado das celas, do tratamento para arrasar a personalidade dos presos. Deixavam os presos sem comer, sem beber água, sem tomar banho, em cubículos imundos.

Veja – E o que aconteceu depois que o senhor fez as denúncias?

Henriques – O general leu meu relatório e mandou que chamassem imediatamente o comandante da PE, o tenente-coronel Nei. Sentei-me numa poltrona ao lado do general e ele me perguntou: "Élber, o que você está fazendo aí?" Eu respondi: "Estou esperando o comandante da PE chegar para na frente dele confirmar as minhas denúncias". Ele disse: "Não, vá embora daqui porque eu não quero briga no meu gabinete". Nesse mesmo dia fui dispensado da função de interrogar os presos e não voltei mais ao quartel. Fiquei a vida inteira magoado com o general Carlos Alberto.

Veja – O senhor teve notícias do que aconteceu aos presos que ficaram lá?

Henriques – Não. Não pude mais voltar ao quartel. Não pude nem pedir para desenterrarem o corpo do Roberto Cieto para saber que tortura ele tinha recebido. Eu não posso garantir que ele morreu torturado, porque não vi o corpo. Mas, pelo estado em que ele estava quando o encontrei no pau-de-arara, desconfio que ele tenha sido assassinado.

Veja – Tinha algum médico assistindo às sessões de tortura?

Henriques – Toda unidade do Exército tinha um médico. Eles usavam o médico para evitar que o preso morresse. O médico pegava o estetoscópio, ouvia o coração do preso e dizia "pára, pára", caso houvesse risco de vida.

Veja – E quem era o médico que fazia isso no quartel da Polícia do Exército?

Henriques – Não sei quem era. O próprio Flávio contou que tinha um médico assistindo às sessões de tortura. Estou contando essas histórias com muita tristeza, porque acredito que 99% dos oficiais do Exército não aceitavam tortura. Mas em toda organização, ainda mais numa tão numerosa como é o Exército, existem sádicos. Esses facínoras aproveitaram a oportunidade para exercer seu sadismo cruel.

Veja – Mas isso só aconteceu porque os governos militares permitiram que acontecesse.

Henriques – O governo Castello Branco reprimiu a tortura. Os governos Geisel e Figueiredo, também. Mas Costa e Silva e Médici, que foram os presidentes que usaram o AI-5 com toda a força, não agiram contra a tortura. Quem abriu a porta para a tortura foi o AI-5, porque deixou o indivíduo livre para agir. Basta dizer que, naquela época, eu estava no aeroporto em Brasília e se aproximou de mim um senhor. Ele pedia minha interferência para embarcar para o Rio Grande do Sul porque estava sem documentos. Disse-me que o homem da companhia aérea informara que ele só embarcaria se um oficial do Exército autorizasse. Aí é que se vê o abuso. Se o cara da empresa de aviação disse isso a ele é porque estava atribuindo ao Exército uma autoridade acima da lei. O AI-5 foi uma desgraça.

Veja – Mas o AI-5 foi resultado da Revolução de 64. O senhor apoiou o golpe militar?

Henriques – Apoiei porque era contra o comunismo e contra a baderna que se estava instalando no país. Mas fui contra o AI-5, que considero um ato violentíssimo. Fiquei impressionado como nós podíamos fazer uma lei tão violenta como aquela que não respeitava nada nem ninguém. Quando o ato foi decretado eu me dei conta de que aquilo iria resultar na aparição de ditadores mirins pelo Brasil inteiro. Bastava que ele exercesse uma autoridade governamental qualquer para ter poderes praticamente ilimitados de destruir a personalidade humana. Costumo dizer que a desgraça do socialismo foi o comunismo. A desgraça do fascismo, o nazismo. E a da Revolução de 64 foi a tortura.

Veja – Por que o senhor não denunciou publicamente tudo o que sabia sobre as torturas dentro dos quartéis?

Henriques – Não contei na época porque o clima era de muito terror e não haveria espaço para divulgação, por causa da censura. Mas fiz o que tinha de ser feito: denunciei o que vi aos meus superiores no Exército.

Campanha pela Memória e pela Verdade - OAB/RJ - Fernanda Montenegro

Campanha pela Memória e pela Verdade - OAB/RJ - Eliane Giardini

Campanha pela Memória e pela Verdade - OAB/RJ - Gloria Pires

Campanha pela Memória e pela Verdade - OAB/RJ - Mauro Mendonça

Campanha pela Memória e pela Verdade - OAB/RJ - José M

Campanha pela Memória e pela Verdade - OAB/RJ - Osmar Prad