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terça-feira, fevereiro 08, 2011

DEUS NOS LIVRE DE UM BRASIL EVANGÉLICO

DEUS NOS LIVRE DE UM BRASIL EVANGÉLICO

Ricardo Gondim

Começo este texto com uns 15 anos de atraso. Eu explico. Nos tempos em que outdoors eram permitidos em São Paulo, alguém pagou uma fortuna para espalhar vários deles, em avenidas, com a mensagem: “São Paulo é do Senhor Jesus. Povo de Deus, declare isso”.

Rumino o recado desde então. Represei qualquer reação, mas hoje, por algum motivo, abriu-se uma fresta em uma comporta de minha alma. Preciso escrever sobre o meu pavor de ver o Brasil tornar-se evangélico. A mensagem subliminar da grande placa, para quem conhece a cultura do movimento, era de que os evangélicos sonham com o dia quando a cidade, o estado, o país se converterem em massa e a terra dos tupiniquins virar num país legitimamente evangélico.

Quando afirmo que o sonho é que impere o movimento evangélico, não me refiro ao cristianismo, mas a esse subgrupo do cristianismo e do protestantismo conhecido como Movimento Evangélico. E a esse movimento não interessa que haja um veloz crescimento entre católicos ou que ortodoxos se alastrem. Para “ser do Senhor Jesus”, o Brasil tem que virar "crente", com a cara dos evangélicos. (acabo de bater três vezes na madeira).

Avanços numéricos de evangélicos em algumas áreas já dão uma boa ideia de como seria desastroso se acontecesse essa tal levedação radical do Brasil.

Imagino uma Genebra brasileira e tremo. Sei de grupos que anseiam por um puritanismo moreno. Mas, como os novos puritanos tratariam Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Maria Gadu? Não gosto de pensar no destino de poesias sensuais como “Carinhoso” do Pixinguinha ou “Tatuagem” do Chico. Será que prevaleceriam as paupérrimas poesias do cancioneiro gospel? As rádios tocariam sem parar “Vou buscar o que é meu”, “Rompendo em Fé”?

Uma história minimamente parecida com a dos puritanos provocaria, estou certo, um cerco aos boêmios. Novos Torquemadas seriam implacáveis e perderíamos todo o acervo do Vinicius de Moraes. Quem, entre puritanos, carimbaria a poesia de um ateu como Carlos Drummond de Andrade?

Como ficaria a Universidade em um Brasil dominado por evangélicos? Os chanceleres denominacionais cresceriam, como verdadeiros fiscais, para que se desqualificasse o alucinado Charles Darwin. Facilmente se restabeleceria o criacionismo como disciplina obrigatória em faculdades de medicina, biologia, veterinária. Nietzsche jazeria na categoria dos hereges loucos e Derridá nunca teria uma tradução para o português.

Mozart, Gauguin, Michelangelo, Picasso? No máximo, pesquisados como desajustados para ganharem o rótulo de loucos, pederastas, hereges.

Um Brasil evangélico não teria folclore. Acabaria o Bumba-meu-boi, o Frevo, o Vatapá. As churrascarias não seriam barulhentas. O futebol morreria. Todos seriam proibidos de ir ao estádio ou de ligar a televisão no domingo. E o racha, a famosa pelada, de várzea aconteceria quando?

Um Brasil evangélico significaria que o fisiologismo político prevaleceu; basta uma espiada no histórico de Suas Excelências nas Câmaras, Assembleias e Gabinetes para saber que isso aconteceria.

Um Brasil evangélico significaria o triunfo do “american way of life”, já que muito do que se entende por espiritualidade e moralidade não passa de cópia malfeita da cultura do Norte. Um Brasil evangélico acirraria o preconceito contra a Igreja Católica e viria a criar uma elite religiosa, os ungidos, mais perversa que a dos aiatolás iranianos.

Cada vez que um evangélico critica a Rede Globo eu me flagro a perguntar: Como seria uma emissora liderada por eles? Adianto a resposta: insípida, brega, chata, horrorosa, irritante.

Prefiro, sem pestanejar, textos do Gabriel Garcia Márquez, do Mia Couto, do Victor Hugo, do Fernando Moraes, do João Ubaldo Ribeiro, do Jorge Amado a qualquer livro da série “Deixados para Trás” ou do Max Lucado.

Toda a teocracia se tornará totalitária, toda a tentativa de homogeneizar a cultura, obscurantista e todo o esforço de higienizar os costumes, moralista.

O projeto cristão visa preparar para a vida. Cristo não pretendeu anular os costumes dos povos não-judeus. Daí ele dizer que a fé de um centurião adorador de ídolos era singular; e entre seus criteriosos pares ninguém tinha uma espiritualidade digna de elogio como aquele soldado que cuidou do escravo.

Levar a boa notícia não significa exportar uma cultura, criar um dialeto, forçar uma ética. Evangelizar é anunciar que todos podem continuar a costurar, compor, escrever, brincar, encenar, praticar a justiça e criar meios de solidariedade; Deus não é rival da liberdade humana, mas seu maior incentivador.

Portanto, Deus nos livre de um Brasil evangélico.

Soli Deo Gloria
7-02-11

Fonte: http://www.ricardogondim.com.br

sábado, outubro 24, 2009

OS MUITOS EUS - Ricardo Gondim


OS MUITOS EUS

Ricardo Gondim

De tempo em tempo escrevo experiências já vividas; antecipo-me à perda da memória. Nesses passeios ao passado, desisti de voltar aos lugares que me marcaram. Meu mundo adulto encolheu; o vasto universo infantil desaparece aos poucos. Mas não consigo me desvencilhar das personagens que me impressionaram. Vez por outra elas me desobedecem e saem das sombras; nem todos me alegram, alguns insistem em me atormentar.

De Londrina não revejo apenas o pó vermelho que encardia os pés e tingia o céu em tardes de temporal – Como dava medo! Ressuscito vultos; amigos que me ensinaram a nadar em ribeiros e represas. Da velha catedral londrinense, não esqueço o rosto do padre que me estendeu o primeiro sacramento.

Meu passado não foi perfeito. Cedo, conheci pessoas ruins, tipos esquisitos que me mostraram um mundo perigoso.

Papai estava preso e permanecia incomunicável em alguma base militar do Brasil. Logo antes do golpe, ele pedira transferência de Londrina para outro destacamento aéreo, mas antes do despacho oficial, o governo capitulou. Mamãe, grávida de gêmeos e mais cinco filhos, viu-se no meio da tormenta. A situação se agravava a cada momento. Sem eira nem beira, não tínhamos para onde voltar e não sabíamos para onde ir. Acabamos na apertada casa de vila dos meus avós em Fortaleza. Precisando estudar, fui matriculado em um Grupo Escolar.

O prédio era mal cuidado; as carteiras, pensas, pareciam prestes a desabar. A lousa guardava um verde desbotado. Na primeira semana de aula eu e meu irmão chamávamos a atenção devido ao sotaque paranaense. A choça dizia que soava afeminado. Nunca hei de esquecer a manhã quando ouvi: “Veado!”. Fui na direção da voz, disposto a brigar. Não dei três passos e seis formaram uma parede humana; todos mais fortes e mais velhos do que eu. Um deu um passo à frente para me afrontar. Mas não ousei nenhum gesto. Ele então escarrou e cuspiu no meu rosto.

Ódio, raiva, ira, furor, acenderam uma febre súbita por todo o meu corpo. Rompeu-se a indignação que eu represava pela prisão do papai, de não ter casa ou quarto de dormir, de pressentir que jamais voltaria a me deitar no colo da mamãe, como em Londrina, de frequentar uma escola vagabunda, de ter perdido antigos amigos. Tentei não chorar, e dei as costas para o grupo. Enxuguei o cuspe, mas o ódio permaneceu. Por anos, procurei guardar aquela fisionomia para matá-lo.

Pergunto-me se já consegui esquecer a afronta. Acho que sim. Cheguei a esforçar-me para redesenhar sua expressão odiosa, mas ele sumiu nos anos que se passaram. Sem um rosto o ódio não consegue se adensar. Embora a memória daquele dia continue vívida a raiva passou. Escrevo procurando resignificar aquele passado. A maldade só é destruída quando a bondade anula a ferocidade do rancor.

Outras decepções me marcaram desde então. Não esqueço: namoradas me traíram; amigos que me consideraram pobre (eu não tinha dinheiro para comprar um mísero refrigerante na praia) seguiram por outras trilhas.

Perguntam-me sobre a minha tristeza. Respondo: ela é filha das decepções, mas a mãe dos vários eus que convivem dentro de mim. Sou filho das dores e alegrias que me sobrevieram ao longo dos anos. Viver é isso: não deixar que as alegrias me deixem superficial ou que as dores me desfigurem pelo ódio. Lembro de Mia Couto: “Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Porque dentro de mim, não sou sozinho. Sou muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um. Aí, o problema. Por isso, quando conto a minha história me misturo, mulato não de raças, mas de existências”.

Nas existências que vivo, aprendo resiliência, perseverança e santa teimosia que, juntas, me animam ao imperativo de amar.

Soli Deo Gloria

FONTE: http://www.ricardogondim.com.br/Artigos/artigos.info.asp?tp=66&sg=0&id=2292