Mostrando postagens com marcador Justiça Social. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Justiça Social. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, maio 24, 2012

ELISEU: PROFECIA É AÇÃO SOLIDÁRIA - Ruben Marcelino



ELISEU: PROFECIA É AÇÃO SOLIDÁRIA

Ruben Marcelino

INTRODUÇÃO

Quero pensar sobre 2Rs 6.8-23. Trata-se de uma história do profeta Eliseu. Uma história impressionante de solidariedade em pleno contexto de uma guerra entre a Síria e Israel. Nela, quero destacar três dimensões da ação profética de Eliseu relacionadas à solidariedade.

1) ELISEU MOSTRA-SE SOLIDÁRIO PARA COM A SUA COMUNIDADE

Percebemos que a ação profética de Eliseu é dirigida inicialmente à proteção do seu povo contra a ameaça dos sírios. Eliseu entende que a sua atividade de profeta está inserida no quadro maior da aliança do SENHOR com Israel e deve servir à promoção dessa aliança. Embora críticos ferozes de Israel em vários momentos, os profetas, como é o caso de Eliseu aqui, também põem-se ao lado do seu povo para solidarizarem-se com eles em momentos de crise.
É curioso que, em todo o ciclo de Eliseu (2Rs 2 - 13), haja várias histórias de milagres desse profeta em que grupos mais amplos de pessoas são beneficiados. Eliseu mostra que o SENHOR em nome de quem ele profetiza está presente quando há ações concretas de solidariedade do homem e da mulher de fé, ao mesmo tempo, em favor da comunidade de fé e também da comunidade secular. Digo isso porque a crise que Israel enfrentava era também uma crise política. Do mesmo modo, não somos somente pessoas vinculadas a um grupo religioso, mas igualmente cidadãos. Não basta dizer o que é que Deus quer para a igreja, o bairro, o município, a cidade, o país ou o mundo, seja consolo, justiça, recursos ou caridade. É preciso pessoalmente empenhar-se para que essas coisas aconteçam. O SENHOR dissera a Eliseu quais eram as pretensões dos sírios em relação a Israel. Mas Israel só foi salvo porque o profeta comunicou o que sabia ao rei.
Gostaria de sugerir que você pensasse modos pelos quais pode mostrar-se solidário em favor desta comunidade cristã da qual faz parte e em favor de outros grupos sociais nos quais você está inserido(a): Há atividades aqui na igreja em que você poderia ajudar? Há alguma coisa que você possa fazer para melhorar as condições de vida no seu bairro? Há pessoas e animais aos quais você poderia prestar assistência?

2) ELISEU MOSTRA-SE SOLIDÁRIO PARA COM O SEU COMPANHEIRO MAIS PRÓXIMO

Na angústia do seu moço por causa do cerco dos sírios a Dotã, Eliseu amparou-o. O texto deixa claro que o profeta era o principal implicado naquela ameaça. Entretanto, Eliseu deixou a si mesmo de lado por um momento e foi cuidar do seu companheiro aflito.
O milagre fora incrível, sem dúvida! Imagine olhar as montanhas e vê-las tomadas por cavalos e carros de fogo! E mais, um exército tão surreal que está a nosso favor! O moço de Eliseu certamente foi confortado diante da ameaça do cerco das tropas dos sírios. Só que ele só pode ver o que viu porque Eliseu, o profeta, encorajou-o e, em seguida, pediu ao SENHOR por ele. A solidariedade de Eliseu "abriu os olhos" do seu moço para ver mais amplamente e, assim, devolveu-lhe a esperança. Eliseu ajudou seu moço a lidar com aquela situação de tensão e tranquilizou-o.
Há muitos, é verdade, que precisam de nossa solidariedade. E quanto àqueles que estão mais próximos de nós? São mães, pais, esposas, esposos, filhas, filhos, parentes, amigos, pessoas de nossa intimidade, animais de estimação que podem estar sofrendo sem que a gente dê pela coisa. Podemos achar que é suficiente dizer que precisam fazer isso ou aquilo para melhorar. Mas a solidariedade parece exigir que apoiemos esses nossos próximos fazendo tudo o que pudermos e, ainda, permaneçamos ao lado deles(as) mesmo que, no momento, não saibam, ou não consigam, ou não queiram fazer o necessário para melhorarem. Eliseu disse ao seu moço: Não temas, ou seja, tranquilize-se! Também disse: Você não está sozinho, eu estou do seu lado e há muito outros por nós! Depois, o próprio Eliseu faz algo em favor do rapaz: uma oração ao SENHOR. Em sua ação solidária, Eliseu move-se do seu moço para si. O companheiro do profeta não resolveria sua crise sozinho. Eliseu assegurou-lhe que havia três envolvidos na solução do problema: o moço, o SENHOR e o próprio profeta.
"Abrir os olhos" de nosso mais próximo aflito não é algo com que lidar como se fosse coisa qualquer, que não nos diz respeito. Envolve ser os olhos do outro enquanto este os tem (ou mantém) fechados.

3) ELISEU MOSTRA-SE SOLIDÁRIO PARA COM AQUELES QUE LHE QUERIAM MAL

Os sírios haviam cercado Dotã para prender Eliseu. Diante daquele exército hostil, o profeta age em três etapas:
a) Fechando os olhos sírios: A primeira oração de Eliseu ao SENHOR em relação aos sírios, bastante específica, desencadeia uma cegueira nos seus adversários. É como se a atitude de Eliseu fizesse com que os sírios se deparassem com o que estava envolvido em sua ação agressiva. A hostilidade prejudica não apenas quem é hostilizado, mas também quem hostiliza. Isso desnorteia a pessoa, pois ela já não é capaz de enxergar mais nada além do mal que quer causar, acabando, no final, por ser atingida por suas próprias ações.
b) Conduzindo os sírios enquanto cegos: Eliseu leva os sírios cegos para dentro da Samaria, capital de Israel, seus adversários. O profeta procura, ironicamente, conduzi-los a "olhar mais de perto" a condição em que sua hostilidade os coloca. Isto é, através de Eliseu, os sírios percebem aonde sua agressividade vai levá-los: a mais agressividade por parte daqueles a quem têm por inimigos. Notem que o rei de Israel, logo que vê os sírios em seu poder, já quer matá-los!
c) Abrindo os olhos dos sírios (e de Israel) para que entendessem que, ao mal, responde-se com o bem: Os sírios se deram conta da enrascada em que se meteram. Foram atrás de Eliseu e caíram nas mãos de Israel. O ansioso rei de Israel, por sua vez, não podia esperar por chance melhor de acabar com a raça dos inimigos. Entre os dois lados, estava Eliseu. O profeta, porém, faz algo que surpreende os sírios e Israel. O rei de Israel, diz Eliseu, se quisesse, que matasse aqueles a quem ele próprio capturasse. Os cativos trazidos pelo profeta, entretanto, seriam alimentados e libertados. Os sírios e Israel vinham uns de encontro ao outro com ódio. Eliseu veio ao encontro de ambos com solidariedade. O último versículo do texto diz que "da parte da Síria não houve mais investidas na terra de Israel".
Solidariedade não se pratica por merecimento, mas humanidade. Não para ganhar alguma coisa, mas dar o que o outro precisa. E, mesmo que haja ódio do outro lado, os efeitos do gesto solidário podem ser incríveis.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Alguns estudiosos do Novo Testamento já disseram que Jesus, conforme descrito nos Evangelhos Sinóticos (Marcos, Mateus e Lucas), aproxima-se muito do estilo de Elias e Eliseu. Os três notabilizam-se pelos milagres que fazem, sim, mas também por aquilo que está envolvido em tais milagres: a solidariedade para com as pessoas. Pode-se dizer que, em certo sentido, Jesus foi discípulo de Eliseu. Como Eliseu, Jesus preocupava-se com seu povo e assistiu muitas pessoas. Como Eliseu, Jesus cuidava dos seus próximos: ele alimentou seus discípulos, ensinou-os e defendeu-os, procurando, inclusive, por aqueles que o haviam abandonado quando fora preso. Como Eliseu, Jesus não negou ajuda a pessoas consideradas indignas ou inimigas, além de não ameaçar ou reagir com violência contra aqueles que o torturavam. Jesus andou nos passos de Eliseu. Vamos junto com ele?

Prédica proferida na Igreja Batista Central de Novo Hamburgo em 11 de março de 2012.

terça-feira, abril 24, 2012

IGREJA, VISÃO E MISSÃO



igreja, VISÃO E MISSÃO.

"Então Jesus disse-lhes: Vão pelo mundo inteiro e anunciem a boa notícia para toda a humanidade. Quem acreditar e for batizado, será salvo. Quem não acreditar, será condenado. Os sinais que acompanharão aqueles que acreditarem são estes: expulsarão demônios em meu nome, falarão novas línguas; se pegarem cobras ou beberem algum veneno, não sofrerão nenhum mal; quando colocarem as mãos sobre os doentes, estes ficarão curados”. Marcos 16.15-18

O evangelho é a proposta divina para o mundo que está em crise. O novo testamento apresenta a preocupação de Jesus em orientar os discípulos para um futuro em que eles não contariam mais com a sua presença física para apoiá-los.

Os textos conhecidos como “a grande comissão” enfatizam os eixos nos quais a missão eclesiástica precisa se basear, para tornar-se uma agência propagadora do Reino. Estes eixos são: ir, anunciar, ensinar, curar e libertar.

A observância atenta destes princípios permite que a igreja se articule num relacionamento harmonioso com o céu e com a terra, cuidando da alma perdida, sem se esquecer de tratar o corpo que sofre.

Ir, o primeiro eixo da missão, caracteriza a mobilidade que a igreja deve ter para estar nos lugares onde o evangelho precisa ser ouvido. “Vão pelo mundo inteiro”. O verbo ir luta contra a tendência natural que o ser humano tem de ficar no mesmo lugar por toda a vida.

Quando se espalha, a igreja amplia a sua influência e coloca o outro em seu raio de ação, mas quando se torna estática, ela se transforma num clube, que cresce pensando apenas em si e no que lhe é mais conveniente.

O segundo eixo, anunciar, ressalta a importância de se proclamar a mensagem a todos quantos puderem ouvir. “Anunciem a boa notícia”. A esperança que recebemos de Deus é um tesouro que não pode ficar guardado a sete chaves, porque evapora e se perde. Ele precisa ser compartilhado para multiplicar-se e cumprir o seu propósito restaurador.

O evangelho amplia o entendimento. Após ouvi-lo a pessoa se torna consciente de seu valor diante de Deus e da humanidade, passando a lutar pelos seus direitos e por aqueles que não possuem meios para se defender quando sofrem injustiças.

Ensinar, o terceiro eixo, destaca a centralidade do ensino bíblico para a construção de um modelo de missão saudável para a igreja. “Portanto, vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos”. Mateus 28.18.

É no processo de discipulado que se criam os vínculos que vão manter as pessoas na congregação. Estas amizades se tornam preciosas nos momentos importantes da vida, sejam eles as crises ou as comemorações.
Os irmãos na fé nos convencem de que somos amados por Deus caminhando ao nosso lado, para não nos deixar solitários, ouvindo-nos atentamente durante horas, ou simplesmente caindo na gargalhada, quando contamos uma piada sem graça.

O ato de ensinar forja a unidade espiritual no caráter da igreja, pois o discipulador transmite os seus conhecimentos bíblicos e aprende com as experiências de seu discípulo. Nesta prática é possível descobrir que, no reino de Deus não existe pobre ou rico, erudito ou analfabeto.  Somos todos necessitados e dependentes uns dos outros, quando o assunto é a graça de Deus.

O quarto eixo da missão, curar, enfatiza o cuidado que se deve ter com o próximo. Jesus sempre acolheu os doentes que lhe solicitaram ajuda demonstrando amor ao curar as suas enfermidades. Deus pode operar curas sobrenaturais, mas o maior milagre acontecerá quando os cristãos se envolverem apaixonada e responsavelmente no enfrentamento dos sérios problemas estruturais que afetam comunidade onde eles vivem.

Num país em que os hospitais e as políticas públicas tratam de forma desumana as multidões que não têm condições de pagar por um atendimento melhor, a igreja não pode ficar indiferente cultuando em templos confortáveis, como se nada estivesse acontecendo.

Em busca de uma inserção eficaz, a igreja pode colocar-se como mediadora entre o poder público e as autoridades na busca de alternativas que atendam às demandas da sociedade da qual ela faz parte.

Cuidado significa: solicitude, preocupação, responsabilidade, ele permite a comunhão entre as pessoas e o respeito. “O cuidado somente surge quando a existência de alguém tem importância para mim.” 1 A opressão produz doença, mas o cuidado viabiliza a cura.

Libertar, o quinto eixo, assinala o envolvimento da igreja com as dores sociais e espirituais do mundo.  “Os sinais que acompanharão aqueles que acreditarem são estes: expulsarão demônios em meu nome”. Jesus não permitia que as pessoas vivessem possessas por maus espíritos. Por onde passava ele as libertava. Esta faceta de seu ministério era tão importante que os discípulos receberam a autoridade para enfrentar o poder das trevas.

De muitas maneiras o povo tem se deixado dominar espiritualmente por líderes manipuladores, que sob o pretexto da fé, aprisionam aqueles que os seguem e os utilizam para alcançar os seus objetivos pessoais. A missão da igreja é desmascarar estas armações e anunciar que um novo tempo de liberdade chegou.

Durante um discurso na sinagoga de Nazaré, Jesus anunciou o seu programa de atividades ministeriais e manifestou a sua preocupação com as questões sociais do seu tempo: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele (...) enviou-me para proclamar a libertação aos presos (...); para libertar os oprimidos, e para proclamar um ano de graça do Senhor”. Lucas 4.18.19.

Na Galileia ocupada, Jesus mencionou temas sensíveis para os ouvidos das tropas romanas, ávidas por encontrar os revolucionários de plantão. Apesar das restrições, ele não deixou de afirmar o quanto os oprimidos, os fracos e os desprezados são bem vindos, no reino de seu Pai.

Ir, anunciar, ensinar, curar e libertar resumem a razão que a igreja tem para existir. No texto das bem aventuranças Jesus incentiva os seus discípulos a mostrar ao mundo que eles desejam fazer diferença:

“Vocês são o sal da terra. Ora, se o sal perde o gosto, com que poderemos salgá-lo? Não serve para mais nada; serve só para ser jogado fora e ser pisado pelos homens. Vocês são a luz do mundo. Não pode ficar escondida uma cidade construída sobre um monte. Ninguém acende uma lâmpada para colocá-la debaixo de uma vasilha, e sim para colocá-la no candeeiro, onde ela brilha para todos os que estão em casa. Assim também: que a luz de vocês brilhe diante dos homens, para que eles vejam as boas obras que vocês fazem, e louvem o Pai de vocês que está no céu”.

Uma igreja que deseja ser relevante precisa ter a sensibilidade aguçada para perceber os assuntos que mexem com o coração de sua vizinhança. Enquanto permanecer isolada, ela não terá a chance de conhecer a sua comunidade e jamais conquistará o seu coração.

Mais do que um local para reunião e ensino de doutrina, a igreja realiza a sua função espiritual quando se transforma num lugar de amor, que acolhe os seus membros, trata as suas feridas e os encoraja a não desistir, apesar das dificuldades.

NOTA

1. BOFF, Leonardo. Saber Cuidar, p. 91

REFERÊNCIAS

BOFF, Leonardo, Saber Cuidar: ética do humano – compaixão pela terra – Vozes – Petrópolis – RJ – 1999.

BÍBLIA SAGRADA – Edição Pastoral – Tradução Ivo Storniolo, Euclides Martins Balancin – Paulus – SP – 1991. 

terça-feira, abril 03, 2012

V Congresso Brasileiro de Pesquisa Bíblica

Bíblia, violência e direitos humanos!
V Congresso Brasileiro de Pesquisa Bíblica
10 - 12 de Setembro de 2012 - UniBennett - Rio de Janeiro
Participe!


ABIB
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA
DE PESQUISA BÍBLICA

quinta-feira, setembro 22, 2011

MARANHÃO 66

Curta de Glauber Rocha, que originalmente fora encomendada por José Sarney em sua posse pelo governo do Estado do Maranhão em 66, que não foi utilizado para esse mesmo fim, por motivos óbvios.

quarta-feira, julho 27, 2011

BOLETIM DE ORAÇÃO DA REDE FALE


segunda-feira, abril 11, 2011

A tragédia na escola de Realengo: Há caminhos de esperança?

A tragédia na escola de Realengo: Há caminhos de esperança?

Por Clemir Fernandes
"Eu só queria que isso não acontecesse mais com pai nenhum", diz um dos pais de aluna morta no massacre da escola Tasso da Silveira (1).

Em outras tragédias ocorridas no Rio de Janeiro envolvendo principalmente crianças, já ouvimos pais e mães se expressarem de maneira idêntica. Mas, lastimavelmente, isso teima em se repetir. Diante de uma brutalidade assim, as perguntas básicas que nos inquietam são: É possível mesmo fazer alguma coisa plausível que ajude a prevenir um ato como esse, classificado como "isolado" pelo secretário de segurança do Rio?! (2) Isso é, de fato, um fato isolado? O que pode e deve ser feito para se alcançar resultados mais positivos contra fatos assemelhados? Como e com quem se articular para ações proativas?

Acredito que um fato desses mereça sempre uma reflexão profunda por parte da sociedade, para além das tradicionais avaliações dos formadores de opinião e das pessoas em geral. E nessa tarefa, os meios de comunicação, as entidades religiosas, o poder público e outras organizações sociais podem e devem fazer muito na luta teimosa e esperançosa de se construir uma sociedade melhor e mais segura para todos, especialmente para as crianças.

Sem entrar em grandes avaliações e reflexões, que são necessárias e pertinentes, sugiro aqui, resumidamente, algumas ações que podem e devem ser aperfeiçoadas para sua possível realização e efetividade.

Solidariedade na morte e afirmação da vida

Um fato como esse exige da sociedade organizada um ritual de chorar com as famílias e amigos e reafirmar a sacralidade da vida. ONGs, poderes públicos, igrejas e outras tradições religiosas precisam marcar esse momento com uma cerimônia pública para ritualizar a morte e a vida. (No dia seguinte ao ocorrido a cidade mantivera sua rotina. Nem as escolas foram orientadas pela Secretaria de Educação a refletirem humana e pedagogicamente acerca do fato). Embora alguém possa objetar que atos assim sejam inócuos, é certamente importante tanto no sentido de não deixar cair no esquecimento coletivo quanto no processo de reafirmar os valores da defesa da vida e do apoio solidário e humano aos que sofrem pela perda de seus entes queridos.

Um vírus letal entre nós

É sabido que dentre tantas iniciativas para se conquistar uma sociedade mais pacífica faz-se necessário, por exemplo, desarmar os espíritos humanos. Além disso, também é urgente reduzir ou — numa utopia possível — retirar do ambiente social e individual o vetor que produz consequências funestas, como nessa tragédia: a arma de fogo. Esse vírus letal, absurdamente mais presente entre os civis que entre os aparelhos armados legítimos do Estado, tem matado diariamente cerca de uma centena de pessoas em nosso Brasil. É imperioso, portanto, discutir este problema e retomar as reflexões sobre o aperfeiçoamento e a aplicação do Estatuto do Desarmamento. Dados de pesquisas diversas apontam que, ao contrário do imaginado pelo senso comum, mais armas significa sempre mais insegurança, que resulta em mais violência e que produz mais mortes (3).

Uma premissa falsa causa ainda mais insegurança, pois as consequências são na direção oposta de seu objetivo.

Segurança nas escolas

A falta de segurança nas escolas é uma falha do poder público que precisa ser corrigida. Ou seja, as escolas precisam ter um sistema de controle de portarias e no ambiente da escola, inclusive com detectores de metais, se necessário, para ajudar na prevenção e inibir crimes assemelhados. Isso é uma tarefa mínima e, por demais óbvia, que já se faz tardia.

Capacitação específica dos professores e equipe multidisciplinar

Faz-se necessário também a capacitação dos professores para inclusão, de fato, dos diferentes e estigmatizados. Eles precisam de formação específica para saber identificar comportamentos tidos como estranhos ao nível básico das relações humanas. E saberem trabalhar com os “normais” que tantos problemas criam para os “diferentes”. Isso não pode ser visto como algo menor; é ainda mais importante que aprender sobre normas gramaticais, axiomas matemáticos ou leis científicas...

Por meios de métodos diversos, é imprescindível ajudar os professores a se capacitarem para cumprir além do currículo formal, o currículo sócio-afetivo-inclusivo que diz respeito à promoção de bem-estar, respeito, acolhimento e reconhecimento dos alunos, principalmente daqueles que podem ser alvo de preconceito, distanciamento, bullying e outros problemas de não-interação e não-reconhecimento social por parte do grupo. Esse é um assunto da maior importância no trabalho do professor. Alunos distantes dos demais e sem maior envolvimento social deve ser alvo preferencial dos professores, para, em diálogo com a escola e a família, buscar caminhos de apoio social. O apoio ao professor e aos demais profissionais da escola — afinal estão todos no processo sócio-educacional — deve ser feito especialmente por equipe multidisciplinar, mantida pelo poder público nas escolas para uma educação de qualidade e formação, de fato, integral.

Adoção de escolas para a promoção de cultura de paz

As entidades religiosas, culturais, sociais, que promovem cultura de paz (respeito pela diversidade, acolhimento e apoio aos diferentes, disseminação de valores como os esposados pela Declaração dos Direitos Humanos, entre outros), e que estejam mais próximas das escolas, podem "adotá-las" conforme o escopo do próprio sistema educacional. Um projeto assim deve se pautar pela legislação e pelo bom senso e não pode e nem deve, obviamente, prejudicar o bom andamento da escola. Fundamentado em um trabalho de parceria e interação, deve promover mais alegria, bem-estar e menos conflitos e violência nas escolas.

Para uma sociedade mais segura e feliz

Muitas outras considerações e sugestões precisam e devem ser feitas, para discussão e possível implementação, objetivando a ampliação e difusão de uma cultura de paz, para uma sociedade mais segura e feliz.

Quanto à fala do secretário de segurança sobre ser este um fato isolado, compreende-se, assim como também não pode ser minimizada nem eximida, por qualquer razão, a responsabilidade específica do autor dos crimes. Entretanto, se queremos ir mais fundo num assunto tão complexo como esse, precisamos questionar como e por que esse rapaz não conseguiu estabelecer vínculos sociais mais amplos e saudáveis, ou o que dificultou ou mesmo impediu que ele construísse relações de pertencimento social mais seguras e que lhe provessem maior segurança?! Um filho adotado, caçula, cujos pais já morreram (a mãe mais recentemente), que morava sozinho, certamente perdeu as referências fundamentais que ainda possibilitavam algum equilíbrio de sobrevivência...

O que podemos e devemos fazer por outras pessoas que transitam em nossos universos sociais e que têm perfis assemelhados? Para a segurança deles e também nossa, pois, parafraseando Paulo Freire, ninguém consegue segurança sozinho, só a alcançamos em coletividade. Ou, como ensina a regra áurea da reciprocidade: Tudo o que você quer que o outro faça por você, faça antes por ele.

Outras perguntas existem e para todas elas precisamos de respostas, se queremos, de fato, uma sociedade melhor e mais segura para todos. O debate, as reflexões, as respostas e os caminhos estão com todos os que aspiramos e lutamos por um mundo melhor.

Notas

(1) http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2011/04/08/eu-so-queria-que-isso-nao-acontecesse-mais-com-pai-nenhum-diz-pai-de-aluna-morta-em-massacre-no-rio.jhtm (Acessado em 8/4/11).
(2) http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia/2011/04/08/beltrame-pede-rediscussao-de-lei-sobre-desarmamento.jhtm (Acessado em 8/4/11)
(3) Os dados deste item podem ser conferidos em: BANDEIRA, Antonio R., e BOURGOIS, Josephine. Armas de fogo: proteção ou risco? Rio de Janeiro: Viva Rio, 2005 e FERNANDES, Rubem C. Brasil: As armas e as vítimas. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2005.


Clemir Fernandes é formado em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul, em Ciências Sociais pela UFF e mestre em Sociologia pela UERJ. É professor de Teologia e Ciências Sociais em faculdades e semináPublicar postagemrios do Rio de Janeiro. É também pesquisador do Instituto de Estudos da Religião (ISER), redator da revista de estudos bíblicos Compromisso (Juerp/Convenção Batista Brasileira), integrante da coordenação executiva da Rede Evangélica Nacional de Ação Social (RENAS) e coordenador da RENAS Rio. É membro da diretoria da Fraternidade Teológica Latino Americana-Brasil e atual coordenador do núcleo do Rio de Janeiro.

Fonte: http://www.novosdialogos.com/artigo.asp?id=502 - acesso em 11/04/2011

sexta-feira, março 25, 2011

Petição Campanha pela criação do Centro de Memória, Verdade e Justiça de Petrópolis – RJ

Companheiras e companheiros!

Estamos divulgando o abaixo-assinado que tem por objetivo desapropriar a ‘Casa da Morte’, também conhecida como ‘Casa dos Horrores’, localizada em Petrópolis e considerada por alguns historiadores o pior porão da ditadura militar brasileira, e transformá-la no Centro de Memória, Verdade e Justiça de Petrópolis.

No desejo de compor mais parcerias para esta empreitada e pressionar o poder público petropolitano, pedimos para que difundam ao máximo este abaixo-assinado entre seus contatos!

Aqui o link para assinar o documento e o texto na íntegra:

http://www.peticaopublica.com/?pi=P2011N7357

Campanha pela criação do Centro de Memória, Verdade e Justiça de Petrópolis – RJ

No dia 01 de dezembro de 2010, o Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis realizou um ato-evento em comemoração aos 25 anos de lançamento do livro Brasil Nunca Mais, ocasião na qual foram rememoradas as atrocidades cometidas pela ditadura militar neste país e reivindicadas a memória, a verdade e a justiça para os sobreviventes, seus familiares e todos os brasileiros.

Nesta história obscura marcada por extrema covardia dos agentes do Estado, Petrópolis ficou conhecida entre os opositores do regime político da época como sede de uma casa de tortura da qual, ao que tudo indicava, ninguém saía vivo: a “Casa da Morte” ou “Casa dos Horrores”, localizada à Rua Arthur Barbosa, Centro, nº 120.

Foram muitos os que ali estiveram clandestinamente presos, tendo sofrido cruéis e por vezes sofisticadas técnicas de violência: Inês Etienne Romeu, Aluísio Palhano Pedreira Ferreira, Heleny Teles Guariba, Paulo Celestino da Silva, Ivan Mota Dias e muitos outros que tiveram suas mentes dilaceradas, seus corpos destruídos ou enterrados em cemitérios clandestinos. De todos que passaram por esta nefasta casa, até onde se sabe, apenas Inês escapou à morte. Tudo por ousarem lutar pela liberdade e pela democracia.

O reconhecimento deste espaço como um lugar utilizado pela ditadura militar para torturar, matar e reprimir a luta pela democracia neste país, bem como a publicização dos documentos que revelem quem nesta casa esteve preso, é fundamental para que as novas gerações conheçam essa história e para que ela nunca mais se repita.

É por estes homens e mulheres e tantos outros assassinados nos porões da ditadura que o Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis, constituído em 1979, na luta pela democracia e defesa dos direitos humanos, unido a outras organizações, movimentos e pessoas que assinam este documento, vêm reivindicar que a Prefeitura Municipal de Petrópolis, através de seu prefeito, Paulo Mustrangi, adquira a “Casa da Morte” de Petrópolis e que ali crie um Centro de Memória, Verdade e Justiça de Petrópolis.

Nós, abaixo-assinados, somos favoráveis à Campanha pela criação do Centro de Memória, Verdade e Justiça de Petrópolis.

A cada companheiro tombado

nenhum minuto de silêncio

mas toda uma vida de luta.

Rua Monsenhor Bacelar, 400 - Centro - Petrópolis - RJ - 25685-113

www.cddh.org.br / cddh@cddh.org.br

As catástrofes naturais e teológicas - Caio Marçal

As catástrofes naturais e teológicas

Por Caio Marçal
Já se tornou algo corriqueiro: Toda vez que alguma catástrofe acontece, levantam-se debates acalorados sobre Deus e se Ele está ou não por detrás de tais acontecimentos. Nesse cabo de guerra teológico, estão subentendidos a disputa do monopólio sobre o sagrado e a necessidade de mostrar quem tem todas as respostas.

No meio desse turbilhão de opiniões sobre a ação divina, está subjacente o interesse em encaixotar o sagrado em nossas teses e posicionamentos já que, para esses, caso Ele não caiba em suas fórmulas, suas convicções serão postas em descrédito e, no jogo de poder do torneio da fé, estarão em desvantagem. Quem ousa rebater essa ou aquela posição, logo é denominado de ser não pensante (um jeito bacana e politicamente correto de chamar o outro de burro) ou de herege (um jeito religioso de fustigar quem pensa diferente).

Não quero entrar no mérito da questão, até porque sei que não tenho todas as respostas. Reforço meu silêncio com a experiência que tive ao visitar a região serrana do Rio de Janeiro junto com meu amigos da Rede FALE, da Aliança Bíblica Universitária e Visão Mundial. Até hoje não encontro palavras para classificar tamanha destruição mesmo quase quarenta dias depois da calamidade. Confesso que ainda fico comovido e de olhos marejados.

Porém desejo chamar atenção para a ideia de que o fazer teológico deve nos levar à humildade e que diante do mistério só resta o silêncio reverente. Quando não se tem resposta para aquilo que não temos domínio, todos temos de ser honestos em admitir que não sabemos de tudo, em vez de fazer afirmações categóricas. Também devemos lembrar que Deus não cabe em nossas teologias e que afirmar onde Ele vai ou deixa de ir, além de um ato de arrogância, é uma completa tolice. Não dá pra colocá-Lo num tubo de ensaio!

Infelizmente não é isso o que acontece e o grau de infantilidade teológica nessas contendas é lamentável . Chega a ser doentio alguns setores da "inteligência evangélica" usarem os desastres naturais para defender seus “preciosos pontos de vista”. Além de ser um tremendo desrespeito às vítimas, atesta o tamanho da enfermidade da alma dos mesmos. Quando ideias e posições teológicas em enfrentamento são mais levadas em conta do que seres humanos em situação de extremo sofrimento, desamparo e carência, só revela que existe algo muito errado.

Se há algo que se pode falar sobre Deus em qualquer situação, seja boa ou ruim, é aquilo que o apóstolo João nos diz em uma de suas cartas: Deus é amor. Portanto, a única resposta cristã para as catástrofes é a solidariedade. A fé no Cristo, antes de ser uma elaboração de uma teologia ou de uma declaração de confessionalidade religiosa, é amar e dar a vida assim como o Mestre o fez.

Se nossos “doutores da lei” das diversas correntes que disputam a hegemonia nos debates relacionados às coisas da fé querem mostrar que sabem de Deus, que o demostrem sendo sensíveis à dor e ao sofrimento humano. Quem sabe talvez parem de praticar tanta "masturbação" teológica que só dão gozo a eles mesmos e não gera vida. Oremos para que os nossas lideranças evangélicas e teólogos de gabinete saiam de suas zonas de conforto e sejam promotores da vida!

Em Cristo, onde todas as divergências são dissipadas e onde todos hão de dobrar os joelhos.

Caio Marçal é cearense e missionário da Igreja de Cristo de Frecheirinha/CE. Atua também como Secretário de Mobilização da Rede FALE.

"Des-graçado Deus" - Lucas Gomes

"Des-graçado Deus"
Lucas Gomes

Em meio à correria do trabalho pesado, não nos faltou tempo com as famílias para os deliciosos cafezinhos nos finais das tardes. Juntos trabalhamos, rimos e choramos.

Nos últimos vinte dias estive trabalhando na pequena Vieira, vila que pertence ao município de Teresópolis. Lá, mais de oitenta pessoas perderam suas vidas devido à volumosa chuva da madrugada do dia 11 de Janeiro. Quem não perdeu algum membro da família, perdeu no mínimo um grande amigo. A quase dois meses da tragédia, o Anderson chora o luto dos que se foram. Ele perdeu sua esposa e seu único filho, um lindo menino de cinco anos. O Djalma chora a morte do pai e irmãos, a Patrícia chora a perda de sua casa, construída com o suor do trabalho duro na lavoura. O Zé chora a perda das cebolinhas que estavam prontas para serem colhidas, elas alimentariam as famílias da cidade grande, e o que sobraria do fracionado lucro o sustentaria por algum tempo. A Ângela chora porque o governo não tardou em desanimá-la, depois de idas e vindas à Caixa, o aluguel social ainda não está disponível. Outro dia ela assistiu uma reportagem sobre os desabrigados de Santa Catarina, que três anos após a tragédia, alguns dos de lá continuam morando em barracas “provisórias”.

Há uns “portadores da verdade” que sobem a Serra com seus carros e caminhões carregados de donativos, interesses e arrogância, que dizem para os Vieirenses: Deus está julgando a Serra, vocês precisam se voltar para Jesus... O Anderson não consegue entender porque que o Deus que ele pensava ser amoroso e misericordioso matou seu filho e esposa. As poucas palavras que sai de sua boca são: Eu não estou entendendo, mas Deus sabe o que faz!

Deus realmente sabe, Ele sabe por que boa parte das pessoas que estão nos abrigos são pobres e negras, Ele sabe!

Nossa fé animista não consola o Anderson e nem confronta as repetidas injustiças. No curto prazo, nossos caminhões e voluntários subiram a Serra, uns com boa vontade, outros com arrogância e respostas prontas, usando a situação de destruição e luto como estratégia para podermos empurrar nossa estranha visão sobre o causo.

Amanhã faz dois meses do acontecido. O cenário mudou completamente, as necessidades são outras. A grande maioria das pessoas já não precisa mais de roupas, água ou cestas básicas. O momento é de reconstrução. Reconstrução da casa da Patrícia, reconstrução do relacionamento entre o Anderson e seu “des-graçado” Deus. É momento de cobrarmos dos que prometeram, é momento de expressarmos o amor e a verdadeira graça do Deus que é Pai e amigo do Anderson, da Patrícia, Ângela, Djalma, Zé...

Lucas Gomes é Missionário da JOCUM-RJ (Jovens Com Uma Missão)

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Bispo de Limoeiro do Norte (CE) recusa comenda no Senado

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

POR QUE TEMER O ESPÍRITO REVOLUCIONÁRIO ÁRABE?

Foto: Revista Exame - Acesso em: 04/02/2011

POR QUE TEMER O ESPÍRITO REVOLUCIONÁRIO ÁRABE?

A reação ocidental aos levantes no Egito e na Tunísia frequentemente demonstra hipocrisia e cinismo. A hipocrisia dos liberais ocidentais é de tirar o fôlego: eles publicamente defendem a democracia e agora, quando o povo se rebela contra os tiranos em nome de liberdade e justiça seculares, não em nome da religião, eles estão todos profundamente preocupados. Por que aflição, por que não alegria pelo fato de que se está dando uma chance à liberdade? Hoje, mais do que nunca, o antigo lema de Mao Tsé-Tung é pertinente: "Existe um grande caos abaixo do céu - a situação é excelente". O artigo é de Slavoj Zizek.
O que não pode deixar de saltar aos olhos nas revoltas Tunísia e Egito é a notável ausência do fundamentalismo islâmico. Na melhor tradição democrática secular, as pessoas simplesmente se revoltaram contra um regime opressivo, sua corrupção e pobreza, e demandaram liberdade e esperança econômica. A sabedoria cínica dos liberais ocidentais - de acordo com os quais, nos países árabes, o genuíno senso democrático é limitado a estreitas elites liberais enquanto que a vasta maioria só pode ser mobilizada através do fundamentalismo religioso ou do nacionalismo - se provou errada.

Quando um novo governo provisório foi nomeado na Tunísia, ele excluiu os islâmicos e a esquerda mais radical. A reação dos liberais presunçosos foi: bom, eles são basicamente a mesma coisa; dois extremos totalitários - mas as coisas são simples assim? O verdadeiro antagonismo de longa data não é precisamente entre islâmicos e a esquerda? Ainda que eles estejam momentaneamente unidos contra o regime, uma vez que se aproximam da vitória, a sua unidade se parte e eles se engajam numa luta mortal, frequentemente mais cruel do que aquela travada contra o inimigo comum.

Nós não testemunhamos precisamente tal luta depois das eleições no Irã? As centenas de milhares de apoiadores de Mousavi lutavam pelo sonho popular que sustentou a revolução de Khomeini: liberdade e justiça. Ainda que esse sonho tenha sido utópico, ele levou a uma explosão de criatividade política e social de tirar o fôlego, experiências de organização e debates entre estudantes e pessoas comuns. Essa abertura genuína, que liberou forças de transformação social então desconhecidas, um momento no qual tudo pareceu possível, foi então gradualmente sufocada pela dominação do controle político e do establishment islâmico.

Mesmo no caso de movimentos claramente fundamentalistas, é preciso ser cuidadoso para não perder de vista o componente social. O Talibã é usualmente apresentado como um grupo fundamentalista islâmico que impõe suas leis pelo terror. No entanto, quando, na primavera de 2009, eles tomaram o Vale de Swat no Paquistão, o The New York Times noticiou que eles arquitetaram "uma revolta de classe que explora profundas fissuras entre um pequeno grupo de ricos donos de terra e seus inquilinos desprovidos de um chão". Se, ao "se aproveitar" dos apuros dos agricultores, o Talibã estava criando, nas palavras do New York Times, "um alerta sobre os riscos ao Paquistão, que permanece sendo largamente feudal", o quê impediu os democratas liberais do Paquistão e dos Estados Unidos de, da mesma forma, "se aproveitarem" desses apuros e de tentarem ajudar os agricultores sem terra? Ocorre de as forças feudais no Paquistão serem aliados naturais da democracia liberal?

A conclusão inevitável a ser delineada é que a ascensão do islamismo radical sempre foi o outro lado do desaparecimento da esquerda secular nos países muçulmanos. Quando o Afeganistão é retratado como sendo o exemplo máximo de um país fundamentalista islâmico, quem ainda se lembra que, há quarenta anos atrás, ele era um país com uma forte tradição secular, incluindo um poderoso partido comunista que havia tomado o poder lá sem dependência da União Soviética? Para onde essa tradição secular foi?

É crucial analisar os eventos em andamento na Tunísia e no Egito (e no Iémen e ... talvez, com esperança, até na Arábia Saudita) em contraste com esse pano de fundo. Se a situação for eventualmente estabilizada de modo ao antigo regime sobreviver, apenas passando por alguma cirurgia cosmética liberal, isso irá gerar um intransponível retrocesso fundamentalista. Para que o legado chave do liberalismo sobreviva, os liberais precisam da ajuda fraternal da esquerda radical. De volta ao Egito, a mais vergonhosa e perigosamente oportunista reação foi aquela de Tony Blair noticiada na CNN: mudança se necessário, mas deverá ser uma mudança estável. Mudança estável no Egito, hoje, só pode significar um compromisso com as forças de Mubarak na forma de ligeiramente alargar o círculo do poder. Este é o motivo pelo qual é uma obscenidade falar em transição pacífica agora: pelo esmagamento da oposição, o próprio Mubarak tornou isso impossível. Depois de Mubarak enviar o exército contra os protestantes, a escolha se tornou clara: ou uma mudança cosmética na qual alguma coisa muda para que tudo continue na mesma, ou uma verdadeira ruptura.

Aqui, portanto, é o momento da verdade: ninguém pode arguir, como no caso da Argélia uma década atrás, que permitir eleições verdadeiramente livres equivale a entregar o poder para fundamentalistas islâmicos. Outra preocupação liberal é de que não existe poder político organizado para tomar o poder caso Mubarak parta. É claro que não existe; Mubarak se assegurou disso ao reduzir a oposição a ornamentos marginais, de forma que o resultado acaba sendo como o título do famoso romance de Agatha Christie, "E Então Não Havia Ninguém". O argumento de Mubarak - é ele ou o caos - é um argumento contra ele.

A hipocrisia dos liberais ocidentais é de tirar o fôlego: eles publicamente defendem a democracia e agora, quando o povo se rebela contra os tiranos em nome de liberdade e justiça seculares, não em nome da religião, eles estão todos profundamente preocupados. Por que aflição, por que não alegria pelo fato de que se está dando uma chance à liberdade? Hoje, mais do que nunca, o antigo lema de Mao Tsé-Tung é pertinente: "Existe um grande caos abaixo do céu - a situação é excelente".

Para onde, então, Mubarak deve ir? Aqui, a resposta também é clara: para Haia. Se existe um líder que merece sentar lá, é ele.

(*) Nota do Tradutor: o título original do livro de Agatha Christie é "And Then There Were None", conhecido aqui no Brasil como "O Caso dos Dez Negrinhos".

REFERÊNCIAS FEITAS PELO AUTOR:

http://www.guardian.co.uk/world/2010/feb/02/iran-mousavi-dictatorship-khameini-protests
http://www.nytimes.com/2009/04/17/world/asia/17pstan.html?_r=1
Fonte: http://www.guardian.co.uk
Traduzido por Henrique Abel para o Diário Liberdade.
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17357

sábado, dezembro 04, 2010

Operações Na Favela - Carlos Latuff




quarta-feira, dezembro 01, 2010

UMA REFLEXÃO – Pr. Henrique Vieira

UMA REFLEXÃO

Pr. Henrique Vieira

As cenas que assistimos no Rio de Janeiro nestes últimos dias nos entristecem, nos amedrontam e movem nossas emoções. Uma mescla de medo, de pânico, de indignação, de revolta, de raiva, de desespero, de sede por justiça ou por vingança. Tenho procurado refletir bastante, atentar a tudo, orar e ouvir a fim de fugir de sensacionalismos, de opiniões irrefletidas e apenas pautadas na força de uma emoção.

O momento é de crise e de pressão e isto leva a necessidade de uma resposta rápida e eficiente do Estado a fim de controlar, contornar e reagir à situação. Ver pessoas não sendo mais dominadas pelos agentes do tráfico nas favelas de fato traz alívio. Todos sabem das atrocidades ali cometidas e o quanto o povo da favela sofre com esta criminalidade. Contudo a questão é muito mais complexa e não se resolve com a ocupação da polícia no Complexo do Alemão e na Vila Cruzeiro. O sensacionalismo midiático, especialmente global, é intencionalmente alienante.

A idéia de guerra me incomoda, embora as cenas apontem para tal realidade. A fraude midiática, como aponta Marcelo Freixo, nos faz acreditar que existe uma polaridade muito bem definida entre os marginais e o Estado e que a atual ação policial se assemelha ao chamado Dia D da Segunda Guerra Mundial. Um discurso bélico, retro alimentador da violência e que não compreende as causas multidimensionais do problema da insegurança no Rio e no Brasil.

O tráfico de drogas e de armas é internacional e altamente lucrativo e articulado e de forma alguma se restringe, se resume ou se que quer tem sua verdadeira liderança nas favelas do Rio. Ali está o varejo, a mão de obra farta e barata. Quero deixar bem claro que o dedo que aperta o gatilho de uma arma em uma favela deve ser enfrentado (é importante dizer isso em função da visão preconceituosa e forjada midiaticamente que muitas pessoas têm a respeito dos militantes dos direitos humanos), mas que o dedo que conta o dinheiro e contabiliza o lucro de todo este caos também deve ser enfrentado.

O discurso de guerra apontado pela mídia e abraçado com paixão por muitos reduz a questão e mais uma vez restringe a criminalidade ao espaço da pobreza. O que se é esperado são respostas rápidas, enérgicas, eficientes e vamos todos torcendo pelo Estado Puro, isento de corrupção e fraudes, representação máxima da pureza e do bem comum contra os maldosos e malvados. São atitudes meramente sensacionalistas que impedem que a segurança pública seja pensada de forma multidimensional e preventiva, não meramente reativa como afirma Luís Eduardo Soares.

Talvez seja preciso formular melhor as perguntas. Como, quem, onde e em que circunstâncias as armas e as drogas chegam ao Rio? Como apontou Marcelo Freixo “é preciso patrulhar a baía de Guanabara; portos, fronteiras, aeroportos clandestinos. O lucrativo negócio das armas e das drogas é máfia internacional. Ingenuidade acreditar que confrontos armados nas favelas podem acabar com o crime organizado. Ter a polícia que mais mata e mais morre no mundo não resolve”.

Também é preciso com humildade, autocrítica e vontade política reconhecer que o crime que está sendo atacado não é paralelo ao Estado, mas infiltrado em suas próprias estruturas. Mas nesta hora nos esquecemos totalmente disso.

É preciso reconhecer que apesar dos muitos policiais honestos, íntegros, corretos e bem intencionados que arriscam suas vidas por um salário indigno e que trabalham em péssimas condições, a corrupção e o sistema da criminalidade passa pela policia.

Além dos arregos, da negociação de armas e de drogas ainda se tem as milícias, que inclusive são muito melhor organizadas e mais rentáveis economicamente do que o próprio tráfico “não institucional”. Isto porque as milícias não tiram seu lucro apenas das drogas, mas abrangem serviço de transporte, de gás, de televisão e muitos outros. Tudo dentro de uma lógica coercitiva, dominadora, cruel e que basicamente o indivíduo paga para não ser morto e ser protegido justamente por quem ameaça lhe matar.

Como afirmou Luis Eduardo Soares “ distinguir de fato crime e polícia deveria ser a meta mais importante e urgente de qualquer política de segurança digna desse nome”. Segundo ele não há nenhuma modalidade importante de ação criminal no Rio de Janeiro de que segmentos policiais corruptos estejam ausentes e é só por isso que ainda existe tráfico armado e milícias.

Outra lógica um tanto quanto esquisita e até um pouco engraçada é aquela do “está ruim porque está bom”. Ela aponta que por causa das UPPs o tráfico está reagindo e por esse momento de desespero e de pânico. Em primeiro lugar o modelo de tráfico teritorializado, dependente de aramas e drogas já vem em decadência e perdendo espaço para outras formas de criminalidade faz algum tempo. Como afirma Luis Eduardo Soares “ o tráfico no modelo em que se firmou no Rio de Janeiro, é uma realidade em franco declínio e tende a se eclipsar por sua própria irracionalidade econômica e sua incompatibilidade com as dinâmicas políticas e sociais, predominantes me nosso tempo histórico. Incapaz inclusive de competir com as milícias...”

Em segundo lugar o Estado deveria prever e se antecipar a esse tipo de reação, já que é óbvio e tão óbvio que é o que está acontecendo. Em terceiro lugar o mapa da instalação das UPPs é muito revelador. Isto porque apesar dos maiores índices de criminalidade se situarem na Baixada Fluminense as UPPs estão sendo implementadas no corredor hoteleiro do Rio e na zona portuária, onde há grandes somas de investimento de capital.

E ainda se pode dizer que apesar do avanço de uma lógica policial mais comunitária respeitando a cidadania e a dignidade dos moradores das favelas as UPPs não trazem consigo creches, escolas, postos de saúde, distribuição de renda e acesso a outros tantos direitos. Está aí um ponto fundamental escondido atrás do discurso vitorioso de guerra. Uma política de Segurança Pública deve passar pela garantia de direitos básicos aos moradores das favelas.

As reformas neoliberais da década de 90 que tanto beneficiaram o mercado financeiro, os credores internacionais , os banqueiros, os grandes empresários causaram uma deterioração ainda maior nos serviços públicos, um sucateamento ainda maior do setor público, uma ineficiência acentuada do Estado em dar garantias sociais, um aumento da concentração de renda e da desigualdade social.

É o Estado mínimo do mercado livre na área econômica, mas que é Estado máximo da área penal para a população mais pobre. Boa parte desta gente moradora de favelas não conhece a dinâmica do direito que elas têm, pois o aparato do Estado que elas mais conhecem é sua veia penal, punitiva e repressora.

Percebe-se uma lógica de acentuação da pobreza e depois de criminalização da mesma, um Estado Mínimo na sua lógica econômica e financeira e na garantia de direitos, contudo máximo no seu aparato penal, especialmente voltado para os mais pobres.

Confesso que estou vivendo uma mescla de sentimentos. Oro e torço para que haja a preservação da vida e para que aquelas comunidades possam viver agora em paz longe de todas e quaisquer atrocidades, mas fico muito assustado com o discurso dominante que inflama tantas paixões.

Historicamente foi o discurso do medo que legitimou governos autoritários e ditatoriais. Reconheço que a dinâmica é diferente, mas apenas guardo esta reflexão e fico atento. Também me chama atenção a preocupação que agora aparece com os moradores da favela e que bom que pelo menos apareceu agora e espero que continue. Porque me parece que foi preciso o terror descer para o asfalto e desorganizar a vida aqui em baixo para haver uma comoção enorme e exigência de uma resposta eficiente.

Imaginem viver no pânico todos os dias!n Caminhando para o fim cabe lembrar que 99,5% dos moradores das favelas são trabalhadores reféns deste tráfico cuja estrutura transcende aquele espaço. Ali mesmo não há nenhum rime organizado, ali a linguagem é a da barbárie e não há nenhuma expectativa de vida para os que entram nessa vida.

Defender direitos humanos é uma caminhada árdua porque muitas vezes se ouve comentários altamente preconceituosos, mas faz parte da caminhada. Aceito e desejo diálogos que possam contribuir com a formação e a reformulação dos meus pontos de vista.

Que a súplica do nosso coração e dos nossos lábios seja: “corra justiça como um rio perene” (Profeta Amós).

VIOLÊNCIA É CASO PARA INTELIGÊNCIA - Dep. Marcelo Freixo

Violência é caso para inteligência

Dep. Marcelo Freixo

Quero conversar com os demais deputados para chamar a atenção para algumas coisas que fogem a obviedade. É claro que a situação no Rio é uma situação delicadíssima, inaceitável. Todos nós sabemos disso, mas cabe ao Parlamento um debate um pouco mais profundo, do que necessariamente faz, ou fazem os meios de comunicação. E, nesse sentido, quero pontuar algumas coisas. Primeiro, a venda fácil da imagem de que o Rio de Janeiro está em guerra. Quero questionar essa ideia de que o Rio está em guerra.

Primeiro, que as imagens, as armas, o número de mortos, tudo isso poderia nos levar a uma conclusão da ideia de uma guerra. Mas, qual é o problema de nós concluirmos que isso é uma guerra, de forma simplista? Não há elemento ideológico: não há nenhum grupo buscando conquistar o estado. Não há nenhum grupo organizado que busca a conquista do poder por trás de qualquer uma dessas atitudes. As atitudes são bárbaras, são violentas, precisam ser enfrentadas, mas daí a dizer que é uma guerra, traz uma concepção e uma reação do Estado que, em guerra, seria matar ou morrer. Numa guerra a consequência e as ações do Estado são previstas para uma guerra. Hoje, inevitavelmente, o grande objetivo é eliminar o inimigo e talvez as ações do Estado tenham que ser mais responsáveis e mais de longo prazo.

É preciso lembrar que existem outras coisas importantes que temos que pensar neste momento. Primeiro, não precisa ser nenhum especialista para imaginar que as ações das UPPs teriam essa consequência em algum momento. Não precisa ser especialista para fazer essa previsão. Era óbvio que em algum momento, ou no momento da instalação, quando não houve, ou num momento futuro, uma reação seria muito provável. Então, era importante que o governo estivesse um pouco mais preparado para esse momento. Dizer que está sendo pego de surpresa porque no final do ano está acontecendo isso não me parece algo muito razoável, porque era evidente que isso poderia acontecer.

Neste sentido, seria fundamental que, junto com a lógica das ocupações – eu não vou aqui debater sobre as UPPs, mas tenho os meus questionamentos –, acontecesse o incremento de um serviço de inteligência. Na verdade, o governo do Rio de Janeiro investe muito pouco no serviço de inteligência da polícia, investe muito pouco na estrutura de inteligência.

Vou dar um exemplo. Quem quer visitar a Draco, a Delegacia de Repressão ao Crime Organizado, portanto, uma delegacia estratégica? Se alguém tem alguma dúvida de que a Segurança Pública não faz investimento nos lugares devidos, vá a essa delegacia, que deveria ser muito bem equipada e estruturada, com boa equipe, bem remunerada, com bons instrumentos. Essa delegacia é uma pocilga, é um lixo! Ela fica nos fundos da antiga Polinter, na Praça Mauá, sem qualquer condição de trabalho para os policiais. Estou falando da Draco, da Delegacia de Repressão às Ações do Crime Organizado, uma das mais importantes que tem o Rio de Janeiro.

Não adianta a Segurança Pública ser instrumento de propaganda política quando, na verdade, os investimentos mais importantes e necessários não são feitos nos lugares corretos, não atendem aos lugares corretos. Se o Governo do Estado do Rio de Janeiro investisse na produção de inteligência e na inteligência da ação policial, certamente, muito do que está acontecendo – não totalmente, para ser honesto, mas muito do que está acontecendo – poderia ser previsto. A ação poderia ser mais preventiva do que reativa.

As ações emergenciais diante uma situação como essa, é evidente que precisam ser tomadas. É evidente que a polícia tem que ir para rua, é evidente que você tem que ter uma atenção maior, tem que haver a comunicação com o Secretário permanente com a sociedade, isso ele está fazendo, eu acho que é um mérito, acho que ele não está fugindo do problema, está debatendo, isso é importante. Mas nós temos também que perceber nesse momento o que não funcionou porque não adianta nesse momento a gente falar: “a culpa é da bandidagem”, isso me parece um tanto quanto óbvio, mas, o que de responsabilidade tem no Poder Público que falhou e que não pode mais falhar? Uma boa parte dos prisioneiros do chamado “varejo da droga” foi transferida para Catanduvas, o que, diga-se de passagem, é um atestado de incompetência do nosso sistema prisional que transfere para Catanduvas, porque no Rio de Janeiro a gente não consegue manter os bandidos presos, afinal de contas, há uma série de problemas: de limitações, de uma corrupção incontrolável... agora, transfere para Catanduvas e aí a solução e o diagnóstico dados pela Secretaria de Segurança é que partiu de Catanduvas a ordem para que tudo isso aconteça. Enfim, agora que o problema é de Catanduvas, a gente transfere os delinquentes para Marte?

Então, qual é a solução? O que está acontecendo de fato nesse momento? Essa juventude do varejo da droga nunca se organizou em movimento de igreja; nunca se organizou em movimento estudantil - até porque nem para escola boa parte foi -, nunca se organizou em movimento sindical; não é uma juventude que tem uma tradição, uma cultura de organização, não tem. Agora, querer achar que eles passam a se organizar e organizar muito bem, que representam o tráfico internacional? É uma tolice. Essa juventude é uma juventude violenta que só entende a lógica da barbárie e é com a barbárie que eles estão reagindo a essa situação que está colocada no Rio de Janeiro, está longe, muito longe de ser o verdadeiro “crime organizado”.

Fica uma pergunta: quantas vezes a polícia do Rio de Janeiro, em parceria com a Polícia Federal, em parceria com a Marinha, em parceria com quem quer que seja, fez ações de enfrentamento ao tráfico de armas na Baía de Guanabara? Quantas vezes a Baía de Guanabara foi palco das ações de enfrentamento ao tráfico de armas e ao tráfico de drogas? Nunca! Não é feito porque não interessa o enfrentamento ao tráfico de armas, o que interessa é o enfrentamento aos lugares pobres, que são mais fáceis, mais vulneráveis para que essa coisa aconteça, e ficam “enxugando gelo”. Quem é que vende esse armamento para esses lugares? São setores que passam por dentro do próprio Estado, todo mundo sabe disso. A gente precisa interromper um processo hipócrita antes de debater qualquer saída de Segurança Pública. Nós temos que, nesse momento de grave crise do Rio de Janeiro, discutir as políticas públicas de Segurança que não estão funcionando. Não dá para o Governo chegar agora e dizer: “está ruim porque está bom”, “está um horror porque estão reagindo a algo que está muito bom”. É pouco e irresponsável diante do que a população está passando. Nós temos que, neste momento, ser honestos e mais republicanos e admitir onde falhamos para que possamos avançar, num debate que não pode ser partidário, mas responsável, com a população do Rio de Janeiro.

Fonte: http://www.marcelofreixo.com.br/site/noticias_do.php?codigo=114 acessado em 01/12/2010

sábado, outubro 23, 2010

Último Debate Lula X Collor 1989

Último Debate Lula X Collor 1989

O nível do debate político entre os evangélicos nestas eleições anda mesmo sofrível. Não aguento mais receber e-mails pintando a Dilma como o Diabo e recomendando o voto no Serra que, segundo os remetentes, é o candidato que vai salvar o pais da iniquidade institucionalizada lulopetista.

Parte 1



Estas mensagens, cuja maioria eu deleto sem ler, me recordam o ano de 1989, quando os evangélicos se mobilizaram para detonar a candidatura do Lula afirmando que, se ele fosse eleito, as igrejas seriam fechadas, a cor da bandeira brasileira seria alterada de verde, amarelo azul e branco para o vermelho comunista, etc.

Parte 2



O cara daquela época era o Collor, caçador de corruptos, que ele chamava de marajás. Os pastores usavam o púlpito para conclamar os seus fiéis a votar no Fernando Collor de Melo pois ele era a grande esperança dos evangélicos para salvar o pais da iniquidade que o lulopetismo queria institucionalizar. Quem quiser ter uma idéia do ambiente político em que as eleições de 1989 aconteceram, é só assistir aos vídeos do último debate da campanha presidencial, daquele ano.

Parte 3



O Collor foi eleito e todos sabem como esta história acabou em 1992. Em 2002 o Lula foi eleito, está aí até hoje e a nossa bandeira não mudou de cor e, nunca antes na história deste país, tantas igrejas foram abertas. Quer dizer, os temores de 21 anos atrás não tinham fundamento.

Parte 4



Eu não estou muito animado para votar na Dilma, mas isto não é resultado desta "guerra santa virtual". Reconheço os benefícios da administração petista, citados pelo meu amigo Clemir Fernandes num e-mail:

  1. 1. O país cresceu e promoveu distribuição de renda,
  2. 2. Aumentou efetivamente salários;
  3. 3. Ampliou o número de postos de emprego e com garantias sociais, etc etc.

Parte 5



Mas não me agrada mais o estilo petista de governar e a maneira como foram tratadas as denúncias dos tantos escândalos que têm vindo à tona. Ninguém foi punido e os caciques do partido, envolvidos até o pescoço, estão aí dando as cartas nesta eleição.

Parte 6



Também não quero votar no José Serra. Citando mais uma vez o Clemir, apresento os meus motivos: Ele representa o grupo que:

  1. 1. Entregou de bandeja as riquezas nacionais ao grande capital,
  2. 2. Destruiu postos de trabalho e aumentou vertiginosamente o desemprego,
  3. 3. Achatou salários, além de muitas outras cositas más.

Parte 7



No primeiro turno, eu me despenquei da minha casa, em Niterói, até o centro do Rio de Janeiro, apenas para ser + 1 a votar na Marina. Mas neste segundo turno estou pensando seriamente em justificar, pois não quero legitimar com o meu voto nenhum dos dois candidatos que me desagradam.

Parte 8



Reconheço que a Marina não era a candidata perfeita, que o PV não é o partido dos meus sonhos e que possui algumas alianças indigestas. Mas eu não queria votar nem na Dilma nem no Serra.

Parte 9



Se eu mudar de idéia, votarei na Dilma, pois a considero o mal menor diante da opção de ter o Serra como presidente. O fato de ela ter sido terrorista/ativista no passado, pouco importa para mim, são outros tempos e até o PT, em sua prática política, já admitiu isto ao manter boa parte dos fundamentos da política economica do Itamar/FHC, para garantir a estabilidade e ter condições para governar.

Parte 10 Não localizada

Se eu mudar de idéia, votarei na Dilma, pois a considero o mal menor diante da opção de ter o Serra como presidente. O fato de ela ter sido terrorista/ativista no passado, pouco importa para mim, são outros tempos e até o PT, em sua prática política, já admitiu isto ao manter boa parte dos fundamentos da política economica do Itamar/FHC, para garantir a estabilidade e ter condições para governar.

Parte 11



Eu acho que esta discussão sobre aborto e casamento gay (sou contra ambos) está sendo utilizada pelos dois candidatos como cortina de fumaça para que eles fujam da discussão de temas relevantes da saúde pública, da economia, e outros, que exigiriam respostas mais elaboradas e a exibição de planos de governo consistentes.

Parte 12



Evangélicos e católicos deveriam trazer para o debate eleitoral as questões da injustiça social que afetam o nosso povo. Para ser relevante a igreja precisa pregar às almas perdidas, mas sem se esquecer de cuidar dos corpos que sofrem. Como diz Leonardo Boff: “sem a pregação da justiça não há evangelho que seja de Jesus Cristo. Isso não é politizar a igreja: é ser fiel”. (Igreja Carisma e Poder – p. 65).

Parte 13



Assistir ao último debate da campanha presidencial de 1989 é um exercício muito interessante para perceber a transformação que os candidatos sofrem ao longo dos anos. Naquela época Lula e Collor eram inimigos ferrenhos, trocavam sérias acusações entre si, cada um tentando demonstrar que se o outro fosse eleito, o país iria sofrer amargamente.

Parte 14


O Collor se classificava como um candidato cristão, cujo plano de governo seria defender os valores da família cristã. Discurso é bem semelhante ao que vem sendo apresentado na propaganda do Serra, que acusa a Dilma de ser favorável ao aborto, enquanto ele defende a vida.

Em 1989, o portugês do Lula era bem ruim mesmo, se compararmos com os discursos atuais, e notório o progresso que ele obteve no domínio do idioma. O Collor falou que era contra o calote, contra mexer na poupança...

O Collor também falou do risco de se eleger um candidato que não tinha nenhuma experiência na administração pública. Ele, que tinha sido governador de Alagoas, era a melhor opção, porque sabia o que era governar. Parece bastante com os discursos que temos ouvido hoje, não?

Enfim, é importante prestar atenção no processo político que o nosso país vivencia. Ele não aconteceu de ontem para hoje, é fruto de um amadurecimento político e histórico que precisa ser aperfeiçoado sempre, para que nas próximas eleições possamos observar mais progressos do que retrocessos no Brasil.