segunda-feira, novembro 05, 2007

UMA BELEZA AMEAÇADA

UMA BELEZA AMEAÇADA

"Rio quarenta graus, cidade maravilha, purgatório da beleza e do caos..." Fernanda Abreu

O Rio de Janeiro é uma cidade de contradições. Lindas paisagens enchem de alegria os olhos que contemplam o Cristo de braços abertos no alto do Corcovado. O Pão de Açúcar guarda a entrada da Baía de Guanabara e as praias refrescam os verões escaldantes. Quando se olha de perto, porém, o ambiente de violência e injustiça emerge ameaçador. O som dos tiros já é familiar aos ouvidos dos cariocas e o medo dos assaltos tornou vazias algumas ruas que, anteriormente, eram agitadas por pessoas que buscavam se divertir em lugares belos e agradáveis. Estas situações roubam a paz e trazem à tona um importante questionamento: Onde Deus está, que permite estas tragédias acontecerem? Os versos do poeta expressam muito bem esta angústia:


"Como, Deus? Não vês? Seus filhos morrem
De fome! Matam-se sem um porquê!
A quem, a quem então eles recorrem
já que Deus, nada disso vê?"
(MIKHAIL, p.14)


Ao contrário do que o senso comum quer fazer crer, Deus também se entristece com a violência e a miséria que destroem a sociedade. Falando ao profeta Isaías, ele expressa a sua insatisfação: "Lavem-se, purifiquem-se, tirem da minha vista as maldades que vocês praticam. Parem de fazer o mal, aprendam a fazer o bem: busquem o direito, socorram o oprimido, façam justiça ao órfão, defendam a causa da viúva. Então venham e discutiremos – Diz o Senhor" (1.16-18).

A indignação causada pela injustiça social demanda uma atitude, mas como um Deus invisível poderá tornar as suas ações libertadoras conhecidas para os que delas necessitam? Neste ponto, estabelece-se um desafio ético fundamental: Todos os habitantes desta cidade, sejam eles pobres, ricos, brancos, negros, doutores ou analfabetos, são iguais e têm direito a uma vida digna, a comida em sua mesa, a diversão e a segurança. Negligenciar este acordo causa a desigualdade que alimenta a violência.

"Não diga a seu próximo: Vá embora. Passe depois, que eu lhe darei amanhã, quando você tem a coisa na mão." (Provérbios 3.28). A indiferença para com o necessitado é um mal que precisa ser vencido. Demonstrar interesse pelo próximo é enxergá-lo como gente, é se importar com o seu sofrimento, é se envolver com ele na busca das soluções e clamar por justiça diante de um poder público ineficiente. "Abra a boca em favor do mudo e em defesa dos desfavorecidos. Abra a boca e dê sentenças justas, defendendo o pobre e o indigente" (Provérbios 31.8–9).

O conceito de Cidade Maravilhosa se esvai diante do caos que ameaça a vida das pessoas. Existe alguma solução? Podemos aprender com Jesus um caminho para estabelecer um pacto, a fim de cicatrizar feridas e tornar o Rio cada vez mais belo: "Tudo o que vocês desejam que os outros façam a vocês, façam vocês também a eles (...)" (Mateus 7.12).

Como ser cristão numa cidade de empobrecidos e miseráveis (BOFF, p. 54)? Esta pergunta precisa calar fundo em nossos corações. Somente assim alcançaremos a felicidade de viver num lugar onde a opressão será banida e, em seu lugar, reinarão a alegria e a justiça.


REFERÊNCIAS


MIKHAIL, Andrei. O Tocador de Lira. Rio de Janeiro: Nonoar Edições, 2007.
BOFF, Leonardo. Igreja: carisma e poder. Rio de Janeiro: Record, 2005.
BÍBLIA SAGRADA. Edição Pastoral. Trad. Ivo Storniolo e Euclides Martins Balancin. São Paulo: Paulus, 1991.

3º JUSTIÇA EM DEBATE - 2007

3º JUSTIÇA EM DEBATE / 2007

Data: 24/NOV/2007 (sábado)]
Horário: 15h
Local: Igreja Batista Itacuruçá (Praça Barão de Corumbá 49, Tijuca) Sala dos Coros
Convidado Especial: Paulo Alentejano (Geógrafo; Professor da Faculdade de Formação de Professores da UERJ, e do CEAT)
Tema: Reforma Agrária

O evento, organizado pelo Ministério Jovem em conjunto com a Visão Ministerial de Justiça, ocorrerá na Sala dos Coros. Este tema é muito relevante, mas pouco abordado em nosso meio, reserve esta data em sua agenda e participe conosco.

-Entrada Franca

"Ai dos que ajuntam casa a casa, reúnem campo a campo, até que não haja mais lugar, e ficam como únicos moradores no meio da terra!" (Isaías 5.8)

sexta-feira, outubro 19, 2007

ORAÇÃO, UMA EXPERIÊNCIA

ORAÇÃO, UMA EXPERIÊNCIA

"Então Jesus contou aos seus discípulos uma parábola, para mostrar-lhes que eles deviam orar sempre e nunca desanimar." Lucas 18.1


Desde pequeno, manifesto interesse pelas questões espirituais. Minha avó paterna me ensinou a rezar o Pai Nosso e a Ave-Maria e sempre enfatizava a importância de orar diariamente.

Antes de dormir, eu me ajoelhava, rezava e fazia os meus pedidos. Devido ao cansaço, freqüentemente eu adormecia e, como considerava pecado interromper as orações, começava tudo de novo, até conseguir completá-las.

Posteriormente, tornei-me membro de uma Igreja Batista. Os estudos bíblicos me revelaram a dimensão pessoal da oração. Descobri que eu poderia conversar com Deus, tal como um filho se aconselhando com o seu pai, e desabafar as minhas angústias, considerando-o como um grande amigo.

Nesta caminhada, houve períodos em que a dúvida se instalou no meu coração. Eu perguntava: Deus existe? Quem escuta as minhas preces? Continuei orando, mesmo abatido pela incerteza, apenas por sentir que era a decisão correta.

As dificuldades foram um terreno fértil para o exercício da oração. Quando todas as alternativas se esgotavam, a fé era forçada a suplicar a intervenção divina para me socorrer. Muitas foram as respostas, algumas não vieram da forma que eu desejava, mas trouxeram as soluções necessárias e a certeza de que as orações não se perdem no ar, mas são recebidas por Deus.

O tempo sempre foi o meu grande adversário na vida devocional. Dormir tarde depois de chegar da faculdade, acordar cedo e ir para o trabalho, finais de semana cheios de atividades da igreja. Como separar um tempo para ficar só, calar a alma, contemplar a Deus e ouvir a sua voz? Minhas maiores referências espirituais afirmavam orar por até três ou quatro horas seguidas. Meu recorde é quarenta minutos! Procuro colocar em prática o conceito de orar sem cessar (1 Tessalonicesnses 5:17). Enquanto caminho, durante um engarrafamento, no intervalo entre o atendimento de um cliente e outro, peço a Deus por minha vida, agradeço as bênçãos, intercedo pelos amigos, família e igreja. Em outras ocasiões vou para um parque, faço uma trilha e ali, no meio da natureza, realizo o meu retiro pessoal de oração. São as minhas maneiras de manter ativo o meu contato com o Pai.
Na infância e na adolescência achava que, quando me tornasse adulto, resolveria as minhas crises espirituais. Eu estava enganado: elas se aprofundaram. A cada dia eu busco resgatar a fé simples da criança que descansa enquanto o seu pai ou a sua mãe a abrigam no colo. Mesmo com as dificuldades ao redor, ela está em paz. "De fato, acalmei e tranqüilizei a minha alma. Sou como uma criança recém amamentada por sua mãe, a minha alma é como essa criança" (Salmo 131.2).

sexta-feira, outubro 05, 2007

Pequeno Texto sobre Francisco de Assis

Leonardo Boff


Quem diria que um homem que viveu há mais de 800 anos viesse a ser referência fundamental para todos aqueles que procuram um novo acordo com a natureza e que sonham com uma confraternização universal? Este é Francisco de Assis (+1226), proclamado patrono da ecologia. Nele encontramos valores que perdemos como o encantamento face ao esplendor da natureza, a reverência diante de cada ser, a cortesia para com cada pessoa e o sentimento de irmandade com cada ser da criação, com o sol e a lua, com o lobo feroz e o hanseniano que ele abraça enternecido.

Francisco realizou uma síntese feliz entre a ecologia exterior (meio ambiente) e a ecologia interior (pacificação interior) a ponto de se transformar no arquétipo de um humanismo terno e fraterno, capaz de acolher todas as diferenças. Como asseverou Hermann Hesse:"Francisco casou em seu coração o céu com a terra e inflamou com a brasa da vida eterna nosso mundo terreno e mortal". A humanidade pode se orgulhar de ter produzido semelhante figura histórica e universal. Ele é o novo, nós somos o velho.

O fascínio que exerceu desde seu tempo até os dias de hoje se deve ao resgate que fez dos direitos do coração, à centralidade que conferiu ao sentimento e à ternura que introduziu nas relações humanas e cósmicas. Não sem razão, em seus escritos a palavra "coração" ocorre 42 vezes sobre uma de "inteligência”, "amor" 23 vezes sobre 12 de "verdade", "misericórdia" 26 vezes sobre uma de "intelecto". Era o "irmão-sempre- alegre" como o alcunhavam seus confrades. Por esta razão, deixa para trás o cristianismo severo dos penitentes do deserto, o cristianismo litúrgico monacal, o cristianismo hierático e formal dos palácios pontifícios e das cúrias clericais, o cristianismo sofisticado da cultura livresca da teologia escolástica. Nele emerge um cristianismo de jovialidade e canto, de paixão e dança, de coração e poesia. Ele preservou a inocência como claridade infantil na idade adulta que devolve frescor, pureza e encantamento à penosa existência nesta terra. Nele as pessoas não comparecem como "filhos e filhas da necessidade, mas como filhos e filhas da alegria" (G. Bachelard). Aqui se encontra a relevância inegável do modo de ser do Poverello de Assis para o espírito ecológico de nosso tempo, carente de encantamento e de magia.

Estando certa vez, no dia 4 de outubro, festa do Santo, em Assis, naquela minúscula cidade branca ao pé do monte Subásio, celebrei o amor franciscano com o seguinte soneto que me atrevo a publicar:


Abraçar cada ser fazer-se irmã e irmão,
Ouvir a cantiga do pássaro na rama,
Auscultar em tudo um coração
Que pulsa na pedra e até na lama,


Saber que tudo vale e nada é em vão
E que se pode amar mesmo quem não ama,
Encher-se de ternura e compaixão
Pelo bichinho que por ajuda clama,


Conversar até com o fero lobo
E conviver e beijar o leproso
E, para alegrar, fazer-se de joão-bobo,


Sentir-se da pobreza o esposo
E derramar afeto por todo o globo:
Eis o amor franciscano: oh supremo gozo!


Leonardo Boff é teólogo e ex-frade franciscano

sexta-feira, setembro 14, 2007

UM DIA DE ESCÁRNIO

UM DIA DE ESCÁRNIO


É revoltante contemplar o cinismo dos políticos, que agem como se o povo não existisse. Sempre que penso no conceito de cidadania, lembro da copa do mundo e de como os brasileiros participam, exigindo explicações dos jogadores, técnicos e dirigentes, em caso de má atuação do time. Quando há uma vitória todos saem às ruas com orgulho, para comemorar.


Imagine se esta dedicação à pátria fosse dirigida com a mesma intensidade aos políticos. Com certeza eles pensariam duas vezes antes de escarnecer escancaradamente a população, da forma como vêm fazendo.


Enquanto não nos mobilizamos para responder civicamente às provocações dos “representantes do povo”, volta e meia eles são surpreendidos por manifestações violentas, que lhes trazem à tona a realidade da qual eles procuram esconder-se dentro de seus gabinetes climatizados.


Num e-mail, meu amigo Cadu, relembrou dois destes acontecimentos e lamentou o resultado da sessão secreta que absolveu o senador Renan Calheiros.

Unindo-me a ele neste protesto, decidi publicar a sua carta neste blog.


Marcos Vichi


Em 13/09/07, sindicato sou escreveu:

Não tenho blog, e por isso mesmo aborreço meus parceiros com minhas inquietudes. Publíque-as. Ou não.

Ataque às Hordas do Poder

Ontem na sala de aula, antes de uma aula de exegese do Novo Testamento, fui questionado sobre a ‘canalhada’ promovida pelo (e no) senado sob a regência do Sr. Renan Calheiros. Meus olhos chispantes e segundos de silêncio – ulceroso - exatemático me denunciavam o ódio. Foi me subindo uma nevralgia, ânsia, ulcera ódio e mais ódio, ódio cíclico, ódio fecundo, agindo diretamente na central do meu rancor auto-inebriante. GRRRR!! Minha resposta foi mais ou menos assim: Nós perdemos a oportunidade da terceira parte da trilogia “Ataque às Hordas do Poder”.

Primeiro ataque:
  • ‘Presa em flagrante, mulher diz que esfaqueou ACM Neto por causa de reajuste. ’
    GABRIELA GUERREIRO. FELIPE NEVES da Folha On-line, em Brasília e São Paulo. A mulher que esfaqueou o deputado federal Antonio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA), na tarde desta segunda-feira, foi presa em flagrante e autuada por tentativa de homicídio, segundo o delegado titular do 16º DP de Salvador, Wilson Gomes. Em seu depoimento, Rita de Cássia Sampaio de Souza, 45, mencionou como razões para o ato: o reajuste de 91% concedido aos parlamentares e um descontentamento geral com relação aos políticos brasileiros...O incidente aconteceu às 12h40. Segundo o delegado, Rita usou uma peixeira para agredir o deputado. O golpe foi desferido pelas costas. Ele passa bem e está em observação no Hospital da Bahia.

Queria presenciar a cena, e aplaudir de pé a postura de beatitude da dona Rita, que pra mim é uma espécie de Che e Madre Teresa, numa só pessoa.

Segundo ataque:
  • Tiros atingem trem com ministros ao passar por favela no Rio - Plantão Publicada em 10/09/2007 às 14h37m - Reuters/Brasil On-line. Por Pedro Fonseca RIO DE JANEIRO (Reuters) - Um trem em que viajavam os ministros das Cidades, Márcio Fortes, e da Secretaria Especial de Portos, Pedro Brito, foi alvo de disparos de supostos traficantes, nesta segunda-feira, na zona norte do Rio de Janeiro, depois de a comitiva ter sido alertada por policias a evitar o local. O governador do Rio, Sérgio Cabral, esteve presente à solenidade de inauguração, mas deixou o local de helicóptero e não participou da viagem de trem. Houve tiros duas vezes na passagem do trem pela favela do Jacarezinho (zona norte), e as autoridades se jogaram no chão para se proteger, confirmou a polícia... Que descartou a possibilidade se tratar de balas perdidas. "É um absurdo o Estado não poder oferecer o próprio serviço. Não é cabível que um ministro de Estado não possa levar o serviço até aquela comunidade porque ele não pode passar ali que vai ser rechaçado a tiros", acrescentou. "Por isso, estamos fazendo um investimento maciço no Rio para a melhoria da qualidade de vida das favelas... de modo que se reverta esse ambiente considerado perigoso. Tem que ser um bairro como outro qualquer", acrescentou.

Vale acrescentar que em consonância com a fala do Senhor Ministro Márcio Fortes, o gov. do Rio Sérgio Cabral, exigiu uma diligência mal pensada e de estratégia atabalhoada (puro rechaço) da Força Nacional ao Jacarezinho, com o saldo inteligentíssimo de 1 morto e nenhum preso. Eu, ingenuamente achando que os caras olhariam para suas práticas e pensariam: ...’ as pessoas estão tão descontentes... Será que eu sou tão mal representante do povo assim?...’, não esperava que as autoridades agissem como ditadores que tratam o público como privado, como verdadeiros senhores-de-engenho, defendendo suas cercanias (que não são suas são roubos e despojos latifundiários). Lembrei-me de Augusto Pinochet.


A derradeira parte da trilogia ‘Ataque às Hordas do Poder’ seria com as pessoas nas ruas, desde cedo - para exigir a cassação e tramitação legítima no caso ‘Renan Calheiros’, que deveria ocorrer em sessão e com votação aberta, como convém à democracia – manifestando indignação pelo pacto social quebrado e corrompido por essas hordas, para então depô-las como traidores da nação. Pelo sim ou não das decisões, fecharíamos o Senado e voltaríamos pra casa com orgulho, civilizados e honrados.


Cadu

terça-feira, setembro 04, 2007

HOMENAGEM AOS AMIGOS DISTANTES.

HOMENAGEM AOS AMIGOS DISTANTES.


Lembro-me do tempo em que para comunicar-me com os amigos que viviam em outras cidades eu escrevia cartas, colocava-as no correio e, depois de certo tempo, conferia ansiosamente a caixa postal para ver se havia chegado a resposta. Ainda não existia a internet. Dizer isto faz com que eu me sinta um ser pré-histórico. Quando as cartas chegavam, eu as lia, respondia e ficava aguardando uma nova correspondência que me contaria as novidades, alegrias e tristezas daqueles que estavam distantes.

Os e-mails tornaram os contatos infinitamente mais simples e os programas de chat ajudam a matar a saudade trazendo para bem perto os que estão muito longe.

Tenho amigos em diversos estados do Brasil, na Argentina, na Venezuela, no Perú e na Ásia Central que são mais próximos, do que muitas pessoas que moram em meu Bairro. Esta proximidade é fruto de um relacionamento que se alegra por saber que o outro está bem e realizando o desejo de seu coração.

Sei que posso contar com eles, nas horas boas ou más, porque, sempre que precisei, me estenderam a mão e ofereceram-me o seu ombro, gastando o seu precioso tempo para me ouvir. Espero ser capaz de retribuir a estes irmãos e irmãs, pelo menos um pouco, do bem que eles me têm feito.

Mais uma vez, uma música de Milton Nascimento fala de como a verdadeira amizade vence a distância:

Amigo é coisa para se guardar
No lado esquerdo do peito,
Mesmo que o tempo e a distância digam não,
Mesmo esquecendo a canção.
O que importa é ouvir a voz que vem do coração.
Seja o que vier, venha o que vier
Qualquer dia amigo eu volto pra te encontrar
Qualquer dia amigo, a gente vai se encontrar.


Ter amigos, lá longe ou aqui perto, faz a vida valer a pena.

terça-feira, agosto 28, 2007

ESQUECIMENTO E LEMBRANÇA

ESQUECIMENTO E LEMBRANÇA

"Água fresca em garganta sedenta é a boa notícia de uma terra distante." Provérbios 25.25


Eu sempre tive a impressão de que as pessoas não se lembrariam de mim. Talvez por isso, tenha desenvolvido o hábito de escrever cartas e e-mails. Cada resposta recebida era um sinal de lembrança. Quando esta demorava muito ou não chegava, só confirmava as minhas suspeitas: Eu fui esquecido.

Eu gastava tanto tempo preocupado com os "sumidos" que deixava de dar a devida atenção àqueles que estavam ao meu lado, procurando-me e tentando se fazerem presentes nas alegrias e tristezas da vida. Para estes, eu acabava sumindo.

Decidi importar-me com os que estão por perto. Sempre que os compromissos permitem, tento visitar alguns amigos que não vejo há algum tempo, simplesmente para tomar um café, contar as novidades e bater papo. Como esses momentos são agradáveis! Eles reafirmam o que eu preciso saber: Não, eu não fui esquecido.

Lamento pelos que estão distantes. Alguns, em determinados momentos, foram fundamentais para a minha existência. Porém, como diz a música do Milton Nascimento:


Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega prá ficar
Tem gente que vai
Prá nunca mais...
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai, querer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim chegar e partir...
São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem
Da partida...

Creio que os relacionamentos que permanecem, ao longo da vida, são aqueles que valem a pena. A amizade verdadeira não se dilui com a distância geográfica, porque é uma união espiritual. "Em todo o tempo ama o amigo e para a hora da angústia nasce o irmão." Provérbios 17.17

domingo, agosto 12, 2007

JUSTIÇA, FÉ E RELACIONAMENTO COM DEUS - INTRODUÇÃO

JUSTIÇA, FÉ E RELACIONAMENTO COM DEUS

Romanos 9.30 – 33; 10.1 – 21

INTRODUÇÃO

Israel teve um papel importante na revelação do plano de Deus para a salvação da humanidade: ele deveria ser o divulgador deste amor a todas as nações da Terra. Mas entre a convocação divina e o cumprimento desta vocação existe uma história mostrando que Israel não compreendeu perfeitamente como os conceitos de justiça, fé e justificação se interligam para promover a reconciliação entre os filhos perdidos e o Pai celesial. Como poderemos conhecer a Deus, obter a reconciliação e desenvolver um relacionamento com ele? É sobre este assunto que trata a passagem da epístola de Romanos que estudaremos a seguir.

JUSTIÇA, FÉ E RELACIONAMENTO COM DEUS - . A Perspectiva de Israel

1. A Perspectiva de Israel

O que diremos então? Os pagãos que não procuravam a justiça, alcançaram a justiça, mas a justiça que vem da fé. Ao passo que Israel procurava uma lei que lhe trouxesse a justiça, mas não conseguiu esta lei. Por quê? Porque não a procurou através da fé, mas através das obras. Esbarraram na pedra de tropeço. Conforme diz a Escritura: Eis que eu ponho em Sião uma pedra de tropeço, uma rocha de escândalo; mas quem acreditar nela não será confundido. Romanos 9.30 – 33
  • Os pagãos que não procuravam a justiça, a encontraram – Quando se fala em relacionamento com Deus é comum ouvir queixas sobre a dificudade de desenvolver intimidade com um ser ao qual não podemos ver, tocar ou ouvir. A grande ênfase da Bíblia é mostrar Deus como um Pai ansioso por dar-se a conhecer para os seus filhos que insistem em viver longe dele. A grande ironia desta situação é que apesar de revelar-se pelas escrituras, pelos profetas e por tantas intervenções milagrosas na história, quem melhor compreendeu os esforços divinos foram os pagãos, povos considerados imundos e indignos até de se aproximarem de um judeu.

  • Israel procurava uma lei que lhe trouxesse a justiça, mas não conseguiu esta lei – O grande erro de Israel foi utilizar-se da lei numa tentativa de obter para si a exclusividade da revelação divina. A lei tem grande utilidade na ordenação da vida pública, porque estabalece direitos e deveres que precisam ser cumpridos e define os padrões de certo e errado apontando a penalidade que deve ser cumprida por todos que a desrespeitarem. Mas ela não promove a reconciliação que é resultado do amor daquele que foi ofendido para com o ofensor que busca a restauração do relacionamento rompido.

JUSTIÇA, FÉ E RELACIONAMENTO COM DEUS - Cuidado sem Sabedoria

2. Cuidado sem Sabedoria
Irmãos, o desejo do meu coração e a súplica que faço a Deus em favor deles é que se salvem. Pois eu dou testemunho de que eles têm zelo por Deus, mas um zelo pouco esclarecido. Eles desconhecem a justiça de Deus e procuram afirmar a sua própria justiça e, assim, não se submetem à justiça de Deus. Pois o fim da lei é Cristo, para que todo aquele que acredita se torne justo. Romanos 10.1 – 4
  • Eles têm zelo por Deus – Não podemos negar que os judeus tinham um cuidado muito grande para manter as tradições de sua religião vivas em sua cultura. Eles se utilizavam dos rituais como mecanismo para transmitir às próximas gerações as verdades comunicadas por Deus aos patriarcas de sua nação
  • Mas um zelo pouco esclarecido - Este fervor é muito bonito, mas quando a importância dada à letra da lei supera o cuidado pela vida do próximo ele isto se transforma em fundamentalismo e desagrada a Deus porque não colabora para que o fraco e o necessitado percebam o quanto são amados por Ele.

JUSTIÇA, FÉ E RELACIONAMENTO COM DEUS - Uma Importante Declaração de Fé.

3. Uma Importante Declaração de Fé.

Moisés assim descreve a justiça que vem da lei: “Quem praticar os preceitos da lei, viverá por meio deles.” Mas a justiça que vem da fé diz o seguinte: “Não pergunte a si mesmo: 'Quem subirá ao céu?' Isto é: para fazer Cristo descer. Ou: 'Quem descerá ao abismo?' Isto é: para fazer Cristo subir dos mortos.” Mas, afinal, o que diz a Escritura? “A palavra está perto de você, em sua boca e em seu coração” Isto é: a palavra da fé que nós pregamos. Pois se você confessa com a sua boca que Jesus é senhor, e acredita com seu coração que Deus o ressuscitou dos mortos, você será salvo. É acreditando de coração que se obtém a justiça, e é confessando com a boca que se chega à salvação. De fato, a escritura diz: “Todo aquele que acredita nele, não será confundido.” Não há distinção entre judeu e grego, pois ele é Senhor de todos, e rico para com todos aqueles que o invocam. Porque todo aquele que invoca o nome do senhor, será salvo. Romanos 10. 5 – 13

  • É acreditando de coração que se obtém a justiça – Não existem trilhas complicadas no caminho que leva a Deus. Ele se encarregou te tornar as coisas mais simples para que fosse possível a todos que desejasem, obter a reconciliação. O único requisito é crer que Jesus já providenciou tudo o que era necessário para nos justificar diante do Pai.

  • É confessando com a boca que se chega à salvação – O ato de confessar nos ajuda a elaborar e compreender a dimensão da obra da reconciliação efetuada em nós. Quando verbalizamos o motivo e o objeto de nossa crença, assumimos a responsabilidade diante de Deus, de nós mesmos e da comunidade de viver uma nova vida que revele aos outros o grande interesse que Deus em abençoá-lo.
    Porque todo aquele que invoca o nome do senhor, será salvo – Deus não se recusa a receber aquele que tem o coração aberto para conhecê-lo e o espírito humilde para admitir que a graça é a única razão pela qual é possível ter esperança de viver eternamente em sua companhia.

JUSTIÇA, FÉ E RELACIONAMENTO COM DEUS - ANÚNCIO E DESPREZO À OFERTA DIVINA.

4. Anúncio e Desprezo à oferta Divina.

Ora, como poderão invocar aquele no qual não acreditaram? Como poderão acreditar, se não ouviram falar dele? E como poderão ouvir, se não houver quem o anuncie? Como poderão anunciar se ninguém for enviado? Como diz a escritura: “Como são belos os pés daqueles que anunciam boas notícias!” Mas, nem todos obedeceram ao Evangelho. Isaías diz: “Senhor, quem acreditou em nossa pregação?” A fé depende, portanto, da pregação, e a pregação é o anúncio da palavra de Cristo. Agora eu pergunto: Será que eles não ouviram? Ao contrário: pela terra inteira correu a voz deles e suas palavras foram até os confins do mundo. Pergunto ainda: será que Israel não entendeu? Moisés já dizia:”Farei com que vocês tenham ciúmes de um povo que não é povo; provocarei a ira de vocês contra um povo insensato.” Isaías até ousa dizer: “Fui encontrado por aqueles que não me procuravam; manifestei-me para aqueles que não perguntavam por mim.” Ao passo que sobre Israel, Isaías diz: “O dia todo estendi as mãos a um povo desobediente e rebelde”. Romanos 10.14 – 21

  • A fé depende, portanto, da pregação, e a pregação é o anúncio da palavra de Cristo – Para que os outros possam crer no evangelho é necessário anunciá-lo. Nós não fomos resgatados por Cristo para vivermos isolados e acumular experiências como se elas fossem um bem que se pudesse juntar. O anúncio da palavra lança a semente do Reino de Deus no coração das pessoas e à medida que ela é cultivada, os seus frutos vão brotar e transformar pessoas que viviam sem razão em proclamadores da Boa Nova de Salvaçao.
  • O dia todo estendi as mãos a um povo desobediente e rebelde – Apesar da teimosia, Deus não desistiu da humanidade. O seu amor se renova todas as manhãs1 oferecendo novas chances até para os seus filhos mais rebeldes.

NOTA


1“O amor do Senhor não acaba jamais e a sua compaixão não tem fim.” Lamentações 3.22

JUSTIÇA, FÉ E RELACIONAMENTO COM DEUS - CONCLUSÃO

CONCLUSÃO

Israel rejeitou o plano de Deus e preferiu criar as suas própias regras. Por isso teve que ver a sua vocação de povo escolhido ser entregue “um povo que não é povo” 1 O amor de Deus não pode ficar sujeito aos humores de uma nação, por isso que ele delegou à igreja a tarefa de anunciar ao mundo a sua palavra de amor e misericórdia. A prioridade divina é ver a sua criação retaurada, cabe a nós anunciarmos para que ouvindo, as pessoas possam cer, e crendo, invocar o nome do Senhor para obter a salvação.
Nota: 1 Romanos 10.19

segunda-feira, julho 23, 2007

RITUALÍSTICA CRISTÃ – A EUCARISTIA

RITUALÍSTICA CRISTÃ – A EUCARISTIA


O cristianismo possui rituais que são celebrados periodicamente nas igrejas. A Eucaristia, palavra latina que significa ação de graças [1], é também chamada de Comunhão ou Ceia do Senhor e tem relação com outra cerimônia judaica muito importante: o “pessach” ou páscoa. Qual é esta relação e porque Jesus Cristo fez questão de celebrá-la antes de sua morte na cruz?

1. Páscoa: O memorial da libertação do povo que vivia no Egito. Êxodo 12.1-20 [2]

  • Pão sem fermento – Pressa na saída – A libertação veio de repente, era necessário alimentar-se antes de sair para a longa jornada e não havia tempo para esperar todo o processo de fermentação do pão tradicional.
  • Ervas amargas – Sofrimento na escravidão – Após a libertação e vivendo a nova vida confortável, é natural que o povo se esqueça de que antes havia grande opressão. As ervas amargas simbolizam a tristeza vivida diante da dominação egípcia.
  • Passagem da escravidão para a Liberdade – A peregrinação pelo deserto não foi somente um deslocamento populacional de um ponto geográfico a outro do planteta. Ela resgatou a dignidade de uma nação devolvendo-lhe o poder de decidir o seu destino e de usufruir, com sua família e amigos, o resultado do seu trabalho.


2. A Última Ceia – Mateus 26.17-35 [3]

  • Um ritual comum na religião judaica – Jesus não rebelou-se contra a sua herança cultural. Ele cumpria fielmente os rituais importantes de sua religião.
  • Jesus estabeleceu um novo significado para a páscoa a partir de seu sacrifício – Ele veio promover a reconciliação entre Deus e o homem. A sua morte na cruz nos libertou do poder do pecado abrindo o caminho para que este relacionamento se tornasse possível.
  • Êxodo e ressurreição, exemplos de redenção – Deus se importa tanto com a liberdade física de seus filhos quanto com a sua condição espiritual. Ambos os eventos mostram a redenção de uma situação de escravidão para a liberdade. A graça é demonstrada na disposição divina de ouvir o lamento de seu povo, providenciar um libertador e no ato de abrir-se para um relacionamento pessoal revelando-se em Cristo. A Resposta humana para este amor é receber pela fé o presente oferecido, e crer que Deus existe e abençoa a todos aqueles que o buscam. Hebreus 11.6 [4]


3. Os Símbolos da Eucaristia – I Coríntios 11.23-28 [5]

  • Celebração da libertação – A celebração permite compartilhar com aqueles que são mais importantes, as conquistas e alegrias que a vida proporciona. Ao Celebrar é o reconhecemos públicamente que fomos abenoçados.
  • Celebração da comunhão – Não é possível fazer festa sozinho. Precisamos de uma comunidade, de pessoas que dividam conosco a carga do tabalho e participem das alegrias por mais um ciclo completado. Festejar renova as forças e anima para obter novas e mais relevantes vitórias.
  • Lembrança de nossa dependência de Deus. Romanos 6.4-5 [6] – Diante de Deus não existe forte, fraco, analfabeto ou erudito, todos somos dependentes de seu amor e estamos unidos a ele como resultado da morte de Cristo na Cruz e de sua ressurreição.
  • Somos partes do mesmo corpo. I Coríntios 10.16-17 [7] – Esta união em Cristo revela que dependemos do nosso semelhante para continuar vivendo. A sabedoria divina nos fez complementares, ninguém é completamente forte que não precise de auxílio, nem tremendamente fraco que não possa ajudar alguém.


CONCLUSÃO

A função dos rituais da páscoa judaica e da eucaristia é contar a história do êxodo e do sacrifício de Jesus para as novas gerações, preservando o seu significado vivo na alma do povo. Desta forma, a celebração não será apenas uma repetição mecânica, mas uma festa onde levantaremos o cálice e repartiremos o pão para comemorar o presente recebido de Deus e a libertação de toda a forma de opressão que quer impedir-nos de desfrutar a vida abundante que ele nos oferece. Entender a importância destas práticas renova a nossa disposição para cultar a Deus em espírito e em verdade.

NOTAS

  • [1] Eucaristia - s. f. Do Lat. Eucharistia - Gr. eucharistía, acção de graças: Fonte: http://www.priberam.pt/dlpo/definir_resultados.aspx – Data da obtenção do texto: 23/07/2007
  • [2] Êxodo 12:1-20. “Disse o SENHOR a Moisés e a Arão na terra do Egito: Este mês vos será o principal dos meses; será o primeiro mês do ano. Falai a toda a congregação de Israel, dizendo: Aos dez deste mês, cada um tomará para si um cordeiro, segundo a casa dos pais, um cordeiro para cada família. Mas, se a família for pequena para um cordeiro, então, convidará ele o seu vizinho mais próximo, conforme o número das almas; conforme o que cada um puder comer, por aí calculareis quantos bastem para o cordeiro. O cordeiro será sem defeito, macho de um ano; podereis tomar um cordeiro ou um cabrito; e o guardareis até ao décimo quarto dia deste mês, e todo o ajuntamento da congregação de Israel o imolará no crepúsculo da tarde. Tomarão do sangue e o porão em ambas as ombreiras e na verga da porta, nas casas em que o comerem; naquela noite, comerão a carne assada no fogo; com pães asmos e ervas amargas a comerão. Não comereis do animal nada cru, nem cozido em água, porém assado ao fogo: a cabeça, as pernas e a fressura. Nada deixareis dele até pela manhã; o que, porém, ficar até pela manhã, queimá-lo-eis. Desta maneira o comereis: lombos cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão; comê-lo-eis à pressa; é a Páscoa do Senhor. Porque, naquela noite, passarei pela terra do Egito e ferirei na terra do Egito todos os primogênitos, desde os homens até aos animais; executarei juízo sobre todos os deuses do Egito. Eu sou o Senhor. O sangue vos será por sinal nas casas em que estiverdes; quando eu vir o sangue, passarei por vós, e não haverá entre vós praga destruidora, quando eu ferir a terra do Egito. Este dia vos será por memorial, e o celebrareis como solenidade ao Senhor; nas vossas gerações o celebrareis por estatuto perpétuo. Sete dias comereis pães asmos. Logo ao primeiro dia, tirareis o fermento das vossas casas, pois qualquer que comer coisa levedada, desde o primeiro dia até ao sétimo dia, essa pessoa será eliminada de Israel. Ao primeiro dia, haverá para vós outros santa assembléia; também, ao sétimo dia, tereis santa assembléia; nenhuma obra se fará nele, exceto o que diz respeito ao comer; somente isso podereis fazer. Guardai, pois, a Festa dos Pães Asmos, porque, nesse mesmo dia, tirei vossas hostes da terra do Egito; portanto, guardareis este dia nas vossas gerações por estatuto perpétuo. Desde o dia catorze do primeiro mês, à tarde, comereis pães asmos até à tarde do dia vinte e um do mesmo mês. Por sete dias, não se ache nenhum fermento nas vossas casas; porque qualquer que comer pão levedado será eliminado da congregação de Israel, tanto o peregrino como o natural da terra. Nenhuma coisa levedada comereis; em todas as vossas habitações, comereis pães asmos.”
  • [3] Mateus 26:17-35 “No primeiro dia da Festa dos Pães Asmos, vieram os discípulos a Jesus e lhe perguntaram: Onde queres que te façamos os preparativos para comeres a Páscoa? E ele lhes respondeu: Ide à cidade ter com certo homem e dizei-lhe: O Mestre manda dizer: O meu tempo está próximo; em tua casa celebrarei a Páscoa com os meus discípulos. E eles fizeram como Jesus lhes ordenara e prepararam a Páscoa. Chegada a tarde, pôs-se ele à mesa com os doze discípulos. E, enquanto comiam, declarou Jesus: Em verdade vos digo que um dentre vós me trairá. E eles, muitíssimo contristados, começaram um por um a perguntar-lhe: Porventura, sou eu, Senhor? E ele respondeu: O que mete comigo a mão no prato, esse me trairá. O Filho do Homem vai, como está escrito a seu respeito, mas ai daquele por intermédio de quem o Filho do Homem está sendo traído! Melhor lhe fora não haver nascido! Então, Judas, que o traía, perguntou: Acaso, sou eu, Mestre? Respondeu-lhe Jesus: Tu o disseste. Enquanto comiam, tomou Jesus um pão, e, abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai, comei; isto é o meu corpo. A seguir, tomou um cálice e, tendo dado graças, o deu aos discípulos, dizendo: Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue, o sangue da [nova] aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados. E digo-vos que, desta hora em diante, não beberei deste fruto da videira, até aquele dia em que o hei de beber, novo, convosco no reino de meu Pai. E, tendo cantado um hino, saíram para o monte das Oliveiras. Então, Jesus lhes disse: Esta noite, todos vós vos escandalizareis comigo; porque está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho ficarão dispersas. Mas, depois da minha ressurreição, irei adiante de vós para a Galiléia. Disse-lhe Pedro: Ainda que venhas a ser um tropeço para todos, nunca o serás para mim. Replicou-lhe Jesus: Em verdade te digo que, nesta mesma noite, antes que o galo cante, tu me negarás três vezes. Disse-lhe Pedro: Ainda que me seja necessário morrer contigo, de nenhum modo te negarei. E todos os discípulos disseram o mesmo.”
  • [4] Hebreus 11:6 “De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam.”
  • [5] I Coríntios 11:23-28 “Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim. Por semelhante modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim. Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha. Por isso, aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor, indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e, assim, coma do pão, e beba do cálice.”
  • [6] Romanos 6:4- 5 “Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida. Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição.”
  • [7] I Coríntios 10: 16-17 “Porventura, o cálice da bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é a comunhão do corpo de Cristo? Porque nós, embora muitos, somos unicamente um pão, um só corpo; porque todos participamos do único pão.
  • Fonte: http://www.bibliaonline.net/scripts/bol.cgi - Versão: João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada – Data da obtenção do texto: 23/07/2007

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MEUS TEXTOS BÍBLICOS PREFERIDOS

Não é a lista definitiva, mas estes são alguns dos muitos versículos importantes para a minha espiritualidade.

"Não nos cansemos de fazer o bem; se não desanimarmos, quando chegar o tempo, colheremos." Gálatas 6.9

"Conheço meus projetos sobre vocês - oráculo de Javé: são projetos de felicidade e não de sofrimento, para dar-lhes um futuro e uma esperança. Quando vocês me invocarem, rezarão a mim, e eu os ouvirei. Vocês me procurarão, e me encontrarão se me buscarem de todo o coração; eu me deixarei encontrar e mudarei a sorte de vocês - oráculo de Javé." Jeremias 29.11-14

"Guardo triste essa lembrança e me sinto abatido. Mas existe alguma coisa que eu me lembro e me dá esperança: o amor de Javé não acaba jamais e a sua compaixão não tem fim. Pelo contrário, renovam-se a cada manhã: "Como é grande a tua fidelidade!" Digo a mim mesmo: "Javé é a minha herança" , por isso nele espero. Javé é bom para os que nele esperam e o procuram. É bom esperar em silêncio a salvação de Javé. É bom para o homem suportar o jugo desde a juventude. Que esteja sozinho e calado, quando cai sobre ele a desgraça; que ponha a sua boca no pó: talvez haja esperança; que entregue a face ao que o fere até fartar-se de insultos, porque o Senhor não rejeita para sempre. Embora castigue, se compadecerá com grande amor." Lamentações 3.20-32

quarta-feira, junho 27, 2007

PARA QUÊ SERVEM OS AMIGOS?

PARA QUÊ SERVEM OS AMIGOS?


Faz muito tempo que o tema dos relacionamentos me fascina. A sua influência em nossa vida é muito grande. Posso me considerar feliz, porque nos tempos de crise, sempre encontro ouvidos pacientes. Freqüentemente escuto pessoas que dizem: “tenho poucos ou nenhum amigo com quem sou capaz de me abrir e contar tudo o que sinto.” Para alguns amigos lhes conto as questões emocionais, para outros as profissionais e com outros compartilho os assuntos familiares.

Meus últimos empregos não vieram através de uma busca aos classificados de um jornal, mas por indicação de pessoas que me conheciam, sabiam que eu precisava trabalhar e conheciam pessoas que estavam precisando de contratar alguém.

Pessoas nos mostram caminhos, nos ensinam, nos repreendem quando falhamos e elogiam quando merecemos. Elas nos decepcionam também, mas a quantos nós já não decepcionamos ao longo da vida?

Eu sou que sou e cheguei onde cheguei porque tive mestres, amigos, líderes e familiares que me amaram, me acolheram, e que quando eu não acreditava ser capaz de alcançar uma meta, eles acreditaram por mim e me forçaram a seguir em frente. Agradeço muito a estas pessoas que têm sido resposta de oração e grande bênção de Deus para a minha vida. “O ferro se afia com o ferro, e a pessoa se afia com a presença do seu próximo”. Provérbios 27.17

ESPIRITUALIDADE E ECOLOGIA

ESPIRITUALIDADE E ECOLOGIA

Atualmente existe um ramo da teologia que cuida da ecologia. Estes teólogos consideram a preocupação com o meio-ambiente como evidência de maturidade espiritual. O planeta terra não é somente um amontoado de pedras, água e minerais, mas um organismo vivo que precisa de cuidado. É a casa comum que Deus nos deu. Nesta abordagem o homem não é visto como dominador, mas como parte integrante do sistema de vida e tem a responsabilidade de não esgotar os recursos colocados à sua disposição. A extinção do planeta terra corresponderá ao nosso fim também.

À igreja cabe a responsabilidade de alertar às pessoas sobre a urgência de preservar mares, rios, florestas, animais porque eles também são criação de Deus e porque quando bem cuidada, a natureza responde com prosperidade, fartura e beleza. Dimesão simbólica do amor divino[1]. Quando ela é maltratada, responde com violência e produz a morte. Dimensão diabólica da conseqüência do pecado [2].

Que culpa teve Deus pelo Tsunami que matou tantas pessoas na Indonésia e países vizinhos, que eles até desistiram de contar? Uma das razões para esta tragédia pode estar nos países “cristãos” altamente industrializados produtores de tanta poluição, que elevam a temperatura do planeta, causando o derretimento das geleiras, que provocam a alteração das correntes marítimas e o aumento do nível do mar. Quando acontece um terremoto, tão comum naquela área, a bagunça se complica. Existem lugares no Brasil que foram construidos em terrenos aterrados. Hoje, alguns destes locais estão desaparecendo, porque o mar está invadindo e destruindo tudo. É culpa e Deus que estas pessoas fiquem desabrigadas?

Precisamos cuidar da natureza. A maneira como utilizamos a água, a energia elétrica, o critério de separação do lixo e as formas para evitar o desperdício, podem parecer ações sem valor, mas quando multiplicadas, podem fazer grande diferença. A sociedade está preocupada com os efeitos das alterações climáticas de que forma a igreja e a teologia serão capazes de apresentar respostas para estes questionamentos? Esta responsabilidade é minha, é sua, é de todos nós.

NOTAS

[1] Símbolo / Simbólico – Sua origem provém do grego clássico symbállein ou symbállesthai. Literalmente significa: lançar (bállein), junto (syn). O sentido é lançar as coisas de tal forma que elas permaneçam juntas. Num processo complexo significa re-unir as realidades, congregá-las a partir de diferentes pontos e fazer convergir diversas forças num único feixe. (BOFF, Leonardo. O Despertar da Águia, o dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade – Editora Vozes – Petrópolis – RJ – 1998 – p. 11.)

[2] Diabólico – Provém de Dya-bállein. Literalmene significa: lançar coisas para longe, de forma desagregada e sem direção; jogar fora de qualquer jeito. Dia-bólico como se vê, é o oposto do sim-bólico. É tudo o que desconcerta, desune, separa e opõe. (BOFF, Leonardo. O Despertar da Águia, o dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade – Editora Vozes – Petrópolis – RJ – 1998 – p. 12.)

É POSSÍVEL SONHAR

É POSSÍVEL SONHAR


“Deleita-te no Senhor e ele te concederá os desejos do teu coração. Entrega o teu caminho ao Senhor, confia nele, e ele tudo fará”. Salmo 37:4-5

Sonhar é uma característica do ser humano. Considera-se que uma pessoa é feliz de acordo com a quantidade de sonhos que ela consegue realizar ao longo da vida. Mas existem aqueles que não tiveram a chance de concretizá-los, e outros que a desperdiçaram. Como os nossos ideais se relacionam com a vontade de divina?

As pessoas crêem que servir a Deus é abandonar por completo os seus sonhos, jogar fora tudo aquilo que construíram com o objetivo de tornar a sua vida melhor, para assumir uma tarefa muito pesada, e passar o resto da vida lamentando-se. Mas a realidade é outra. Servir a Deus é a maior expressão de liberdade que o ser humano pode experimentar, pois é a oportunidade para abandonar as suas fraquezas e viver na dimensão ilimitada do poder divino.

Deus criou homem como objetivo de vê-lo feliz. O pecado tornou-se um obstáculo para o relacionamento entre o criador e a sua criatura. Daí o ser humano passou a procurar um substituto para a compensar a saudade do cuidado do Pai amoroso. Mas o caminho de volta à casa paterna já foi preparado.

A vontade de Deus é boa, perfeita e agradável. Mas quantas vezes, ao ver os corruptos prosperando sobre o sofrimento dos justos, não ficamos indignados? Deus desruirá todo o esplendor e fartura dos opressores, que acreditam poder viver eternamente ignorando os princípios do amor, da ética e da jusiça. “Mas um pouco e não haverá mais injusto, você bucará o lugar deles, e não existirá. Mas os pobres vão possuir a terra e deleitar-se com paz abundante.” Salmo 37.10-11.

Deus ama realizar os sonhos dos seus filhos. A Bíblia diz: “Deleita-te no Senhor (...) e ele te concederá (...)”; “Entrega... descansa... espera... pois, ele tudo fará”. Deleitar-se no Senhor significa deliciar-se, ter grande prazer em conhecê-lo, buscá-lo com alegria e não por obrigação. Quando fizermos isso descobriremos o seu grande prazer em presentear os seus filhos amados. Deus nunca desampara aqueles que o buscam.

É possível sonhar, quando sabemos que o Pai amoroso toma conta da nossa vida oferecendo-nos alegria, paz e a possibilidade de vivermos vitoriosos e realizados, não apenas no céu, mas a partir de agora.

sábado, junho 23, 2007

TEMPO DE BUSCAR A DEUS

TEMPO DE BUSCAR A DEUS


“Buscai ao Senhor enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto”. Isaías 55:6



Qual é o tempo adequado para buscar a Deus? Muitas pessoas quando questionadas sobre esse assunto respondem: “Ainda é cedo, depois que eu ganhar bastante dinheiro ou que eu for mais velho pensarei nisso. Desejo realizar muitas coisas antes de buscar a Deus”. Existe uma idéia de que sempre teremos um tempinho extra quando se trata das questões espirituais, mas o certo é que chega um momento onde as oportunidades cessam.


Ao longo da vida Deus nos presenteia com inúmeras oportunidades para nos aproximarmos dele e desenvolver um relacionamento. Quando o profeta recomenda: “Buscai ao Senhor enquanto se pode achar”, ele está deixando claro que existe um limite. Mas que limite é esse? Como reconhecê-lo para não correr o risco de deixar passar o tempo e perder esta chance?


As escolhas afetam seriamente a qualidade do nosso relacionamento com Deus. Muitas pessoas levam suas vidas de qualquer maneira sem pensar nas opções que fazem. Elas comprometem-se pesadamente com situações erradas e quando decidem voltar atrás, descobrem que perderam o poder de decisão sobre o seu futuro. “Portanto, deixemos de lado tudo o que nos atrapalha e o pecado que se agarra firmemente em nós” Hebreus 12:1.


A morte marca outro limite no relacionamento com Deus. Em Hebreus 9.27 está escrito: “(...) aos homens está ordenado morrer uma só vez, vindo depois disso o juízo (...)”. Como aproveitar a disponibilidade do tempo Divino? No momento em que a boa nova do evangelho toca o seu coração, você deve abandonar aquilo que te afasta de Deus e pedir-lhe perdão, pois ele é misericordioso e ama restarar a vida dos que o procuram.


Não espere o último segundo de sua vida para voltar-se para Deus. Quando se trata das questões espirituais é muito perigoso andar no limite. Não desperdice o seu tempo, ele é muito importante. Portanto, enquanto você pode achá-lo, busque ao Senhor.

terça-feira, maio 01, 2007

O REINO DE DEUS V - UM REINO DE JUSTIÇA

UM REINO DE JUSTIÇA

“Portanto, não fiquem preocupados dizendo: O que vamos comer? O que vamos beber? O que vamos vestir? Os pagãos é que ficam procurando essas coisas. O Pai de vocês, que está no céu, sabe que vocês precisam de tudo isso. Pelo contrário, em primeiro lugar busquem o reino de Deus e a sua justiça, e Deus dará a vocês, em acréscimo, todas essas coisas."
Mateus 6.31-33.



Introdução

Viver custa caro. As despesas com aluguel, água, energia elétrica e tantas outras, precisam ser cobertas, pois são indispensáveis para uma vida digna. Jesus inovou a abordagem deste tema ao declarar que não devemos nos preocupara com o que iremos comer ou beber, pois disto Deus pode cuidar. A prioridade do cidadão do Reino deve ser a busca pela justiça. Mas o que é a justiça? Porque precisamos lutar por ela? A quem devemos demonstra-la? Responder adequadamente a estes questionamentos ajudará a igreja a ser bem sucedida no cumprimento de sua missão.


1) O Que é justiça?


A justiça não é apenas um conceito bonito para ser lido nos livros, ela precisa tornar-se prática no cotidiano. Isto acontece pela garantia da igualdade, onde o mais forte não se vale do seu poder para oprimir o fraco; pela preservação do direito que força o indivíduo a cumprir os seus deveres em relação ao outro. “A justiça é aquele mínimo de amor sem o qual a relação entre as pessoas deixa de ser humana e se transforma em violência”.1 Isto nos remete ao cuidado com a vida do necessitado que lhe garante a provisão necessária para o sustento com dignidade.

Para ser real a justiça depende do amor, que permite-nos olhar para o próximo como um ser humano e não como uma coisa. O amor torna nossa, a necessidade do outro e atiça no coração o clamor por justiça quando vemos seus direitos ignorados pelo poder público e pela sociedade.


2 – Porquê é necessário lutar pela justiça?


Porque esta é a vontade de Deus. Ela exige um culto com fé, mas abomina a solenidade hipócrita. A grande crítica dos profetas às autoridades religiosas de seu tempo era que havia um grande zelo em cumprir os rituais, mas nada se fazia para conter a escalada da injustiça que privilegiava os poderosos e deixava de lado aqueles que verdadeiramente precisavam de auxílio. “Lavem-se, purifiquem-se, tirem da minha vista o mal, aprendam a fazer o bem: busquem o direito, socorram o oprimido, façam justiça ao órfão, defendam a causa da viúva. Então venham e discutiremos – diz Javé. (...). Isaías 1.16-18.

A justiça é fundamental para o estabelecimento do Reino de Deus. Como pregar o evangelho sem importar-se com a miséria do faminto, do sem teto, ou sem confrontar-se com as estruturas corrompidas da sociedade? À igreja cabe assumir a sua voz profética, denunciar o pecado e utilizar todos os meios legais disponíveis para forçar os governantes e os legisladores a cumprir as suas obrigações. Agindo assim, ela exercerá a sua função de sal da terra, plantará a semente do evangelho no coração das pessoas e glorificará o nome de Deus.


3 – Onde está a injustiça?


Para qualquer lado que se olhe é possível contemplar injustiças: A violência policial que invade as comunidades e agride indiscriminadamente os seus moradores. A violência dos criminosos que matam à luz do dia com a certeza da impunidade. A exploração do trabalho que enriquece poucos à custa do desgaste de muitos, que adoecem porque no fim do mês, não têm condições de comprar o alimento para si e para suas famílias.

O panorama da educação brasileira agrava esta situação ao não oferecer oportunidades iguais para todos os segmentos da população. O resultado é a desqualificação da mão de obra, a redução dos salários e a exclusão daqueles que não conseguem adaptar-se às tecnologias atuais.


4 – Quem precisa de justiça?


O ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus. Esta essência o torna sagrado e qualquer injustiça cometida conta ele desrespeita a santidade divina. Jesus condenou veementemente a atitude dos fariseus que agiam com muito rigor na aplicação da lei de Moisés, mas deixavam até mesmo suas famílias desamparadas. As longas e belas orações proferidas em público não tinham valor, pois não eram acompanhadas de misericórdia.

A compaixão é um tema tão importante, que Jesus vinculou o cuidado com os necessitados à demonstração de amor a Deus. “(...) Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês fizerem isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram.”


5 – Buscar o Reino de Deus e a sua justiça: o caminho para as demais bênçãos.


Deus supre as nossas necessidades generosamente e nos convida a anunciar aos oprimidos que em Cristo há esperança de salvação para a alma e de uma sociedade mais justa. Para atender ao chamado divino devemos abandonar as preocupações egoístas e compreender que o mundo é maior que o nosso universo particular. O mal feito ao semelhante tem a ver conosco também, pois foi cometido contra uma criatura amada por Deus e que precisa ter a sua dignidade restaurada.

Justiça e Reino de deus São dois conceitos inseparáveis: “sem a pregação da justiça não há evangelho que seja de Jesus Cristo. Isso não é politizar a igreja: é ser fiel”.2 Se queremos paz, alegria descanso e prosperidade, precisamos lutar pala justiça tanto individualmente, na condição de cidadãos do Reino, quanto institucionalmente, via Igreja de Cristo. As demais coisas serão o resultado desta fidelidade básica ao desejo divino expresso na palavra


Conclusão

A igreja precisa cuidar-se, no exercício de seu ministério, para evitar as armadilhas no meio de caminho. A primeira é fechar-se em si mesma crendo que somente a sua declaração doutrinária tem a verdade absoluta e que aquele que pensa diferente deve ser eliminado de seu meio. A segunda é reduzir a sua missão apenas a um projeto político e perder de vista o mistério da fé, que é a base para o relacionamento com Deus.

Ao buscar um mundo mais justo, a igreja luta pelo estabelecimento do Reino de Deus em nosso tempo e reforça a esperança da redenção, que será o momento em que a Justiça se manifestará naturalmente como conseqüência de um mundo transformado pelo amor divino.


Notas

1. BOFF, Leonardo. Igreja Carisma e Poder – p. 66
2. BOFF, Leonardo. Igreja Carisma e Poder – p. 65



Referências Bibliográficas

BÍBLIA SAGRADA – Edição Pastoral – Tradução Ivo Storniolo, Euclides Martins Balancin – Paulus – SP – 1991.

BOFF, Leonardo, Igreja: carisma e poder, Ed. Record – Rio de Janeiro – RJ – 2005

quinta-feira, abril 26, 2007

TEMPO: O PRESENTE DA VIDA

TEMPO: O PRESENTE DA VIDA


Debaixo do Céu há momento para tudo, e tempo certo para cada coisa: tempo para nascer e tempo para morrer. Tempo para plantar e tempo para arrancar a planta. Tempo para matar e tempo para curar. Tempo para destruir e tempo para construir. Tempo para chorar e tempo para rir. Tempo para gemer e tempo para bailar. Tempo para atirar pedras e tempo para recolher pedras. Tempo para abraçar e tempo para se separar. Tempo para procurar e tempo para perder. Tempo para guardar e tempo para jogar fora. Tempo para rasgar e tempo para costurar. Tempo para calar e tempo para falar. Tempo para amar e tempo para odiar. Tempo para a guerra e tempo para a paz. Eclesisates 3.1-8


O TEMPO PRESENTE: LUGAR DE RELACIONAMENTO COM DEUS


Debaixo do Céu há momento para tudo, e tempo certo para cada coisa: Este é um dos pontos mais importantes do livro do Eclesiastes, pois nele, o Coélet realça a importância do tempo presente, mostrando-o como um lugar teológico por excelência, onde o homem pode encontrar-se com Deus. O passado já se foi, o futuro é uma probabilidade. O mais importante é o presente concreto onde de fato Deus se encontra e onde o homem poderá com ele se relacionar.
Ao introduzir a variável do tempo, o Coélet fala do ritmo da vida humana que deve adaptar-se à característica de cada tempo, mantendo o equilíbrio no movimento (como quem anda de bicicleta) e não de ficar sonhando com uma estabilidade imutável que simplesmente não existe.

Do versículo 2 ao 8, o autor apresenta uma série de 14 antíteses que pretendem representar todas as possibilidades que podem ocorrer durante a vida, transmitindo a idéia de que a existência humana se faz dentro de polaridades opostas que cobrem toda sua duração, desde o nascimento, (v. 2a) até a paz (v.8b).

Nesta alternância de situações boas e ruins, posso descobrir o relacionamento com Deus como algo possível já, independentemente do estado emocional em que eu me encontre. Isto me permite encarar os fatos da vida sob uma nova perspectiva: Minha vida é um projeto em construção. Em Deus eu sou maior do que meus erros e acertos, e sempre terei uma nova oportunidade para retornar à casa do Pai porque “O amor do Senhor não acaba jamais e a sua compaixão não tem fim. Pelo contrário, renovam-se a cada manhã.” Lm 3.22-23.

O PRESENTE E SUAS POSSIBILIDADES

Um encontro:
Que de alguma forma transformará minha vida.
Oferecerá orientação no tempo da dúvida.
Proporcionará a solução de um problema.

Uma amizade:
Para encorajar nos momentos difíceis.
Para celebrar na alegria.
Que me aceita do jeito que eu sou.

Um emprego
Trará a provisão para as necessidades.
Permitirá a construção de uma carreira.
Produzirá a realização pessoal.

Estas e incontáveis possibilidades estão ao seu alcance, neste exato momento. Para aproveitá-las basta estar aberto a relacionar-se com as pessoas, disposto a viver o momento, e sensível à voz de Deus que se manifesta das mais variadas formas ao seu redor.

O PRESENTE E A ETERNIDADE

Se pudéssemos escolher, todos iríamos preferir os momentos agradáveis aos ruins. Mas isto não é possível. A vida não permite a acomodação e a sabedoria consiste em assimilar a tensão que leva ao equilíbrio entre os opostos. A sabedoria do povo alcança este entendimento quando diz: “Não há bem que sempre dure nem mal que nunca se acabe”, e a fórmula contrária é igualmente válida: “Não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe.” G.K. Gibran diz isto de forma mais profunda quando se refere à alegria e à tristeza: elas “vêm sempre juntas; e quando uma está sentada à sua mesa, lembre-se de que a outra dorme em sua cama.” Por isso, a maior sabedoria está na tensão que nos leva ao equilíbrio da serenidade, sem que nos deixemos arrastar pelos extremos da alegria e da tristeza.

“O que existe, já havia existido; e o que existirá, também já existiu. Deus busca aquilo que foge.” v.15 Este versículo traz o ápice de toda a consideração sobre a temporalidade e eternidade em que está mergulhada a vida humana. Às vezes queremos nos refugiar no passado, mas não adianta: “o que existe já havia existido”. Outras vezes imaginamos que é no futuro que seremos felizes. Também não adianta. Sentimo-nos então constrangidos à única dimensão que nos resta: o presente. Isso, de início, nos parece pouco e limitado demais. Contudo, se olharmos bem a dimensão do presente, veremos que é nele que se realiza ou pode se realizar aquilo que mais buscamos, seja qual for o momento e o tempo (3.1-8) que nele estiver acontecendo. Porque no presente se manifesta o principal da vida humana: o encontro com a eternidade, a comunhão com Deus, porque “Deus busca aquilo que passa”. Nessas poucas palavras está o que de mais profundo se diz no livro do Eclesiastes.“Aquilo que passa” (literalmente, “aquilo que é perseguido” ou “aquilo que foge”) é o próprio presente, a dimensão fugitiva da vida, a dimensão extremamente efêmera. Todavia, é neste efêmero e fugitivo momento que Deus está presente, e em movimento: a eternidade toda está junto de nós, incidindo nesse ponto zero em que tempo e espaço se cruzam. Deus esteve no passado e também estará no futuro, mas, concretamente, aqui e agora ele se encontra neste momento, passando por este presente fugitivo. Se deixarmos de lado este presente, arriscaremos a nos perder na saudade ou na mera expectativa, deixando escapar pelo vão dos dedos o lugar e o tempo teológico por excelência, o presente no qual Deus se encontra.

CONCLUSÃO

“Viver o presente” pode soar para nós como algo extremamente óbvio. Contudo, não é exatamente no óbvio que está o maior mistério? A sabedoria consiste justamente em atentar para a extrema simplicidade do óbvio, procurando entendê-lo e compreendê-lo. Em geral, porém, imaginamos que a verdade é extremamente complexa e buscamos o complexo, perdendo-nos no meio de grandes complicações.


NOTA:

Este texto é uma síntese das páginas 54 a 60 do livro citado na referência bibliográfica, com alguns comentários pessoais do organizador.

RERERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

STORNIOLO, Ivo. Trabalho e Felicidade – O Livro do Eclesiastes – Paulus – SP – 2002.

terça-feira, abril 24, 2007

FÉ E OBRAS

FÉ E OBRAS
Numa conversa via e-mail sobre o tema acima, eu recebi esta mensagem do Prof. Ruben Marcelino. Gostei muito desta declaração e resolvi publicá-la aqui.
"Em minha opinião, fé e obras vivem em tensão dialética no que se refere à vivência da salvação. Não são as obras que salvam, tampouco a fé. Somos salvos pela graça de Deus, a qual recebemos pela fé e confirmamos pelas obras. Fé e obras são duas dimensões que se afiam enquanto vivemos a salvação que recebemos, de modo que, se uma quiser existir sem a outra, anula o sentido da gratuidade da salvação na vivência dela. Por que cremos? Justamente porque somos receptores e não doadores da graça divina. Por que agimos? Justamente porque somos distribuidores e não armazenadores da graça divina."

quinta-feira, abril 19, 2007

QUANDO A MORTE ENCONTRA A VIDA

QUANDO A MORTE ENCONTRA A VIDA

"Pouco tempo depois Jesus foi para uma cidade chamada Naim. Os seus discípulos e uma grande multidão foram com ele. Quando ele estava chegando perto do portão da cidade, ia saindo um enterro. O defunto era filho único de uma viúva, e muita gente ia com ela. Quando o Senhor a viu, ficou com muita pena dela e disse: – Não chore".
Lucas 7.11-13

Certo dia, dois grupos que viviam situações completamente diferentes encontraram-se. Um vivia a dor da morte e o segundo, a alegria da presença de Jesus. No primeiro grupo, está uma mãe que perdeu o seu único filho. Sua dor é tremenda, a saudade e a certeza de que nunca mais o veria dilaceravam o seu coração.

Outros problemas também afligiriam aquela mulher: sendo viúva e, segundo os costumes da época, ela dependeria de seus filhos para sobreviver. Como o rapaz não tinha irmãos, suas perspectivas de uma vida digna eram pequenas. Mas esse quadro de tristeza iria mudar no momento em que o cortejo fúnebre se encontrasse com Jesus.

Ao ver o sofrimento daquela mulher, Jesus se encheu de compaixão. Deus não precisa de matéria-prima para criar, basta uma palavra e a vida se renova. A sua palavra tem poder para criar soluções e devolver a esperança de dignidade ao que está desesperado. Ele ordenou ao defunto para levantar-se no mesmo momento houve a ressurreição.

Eram dois grupos, duas situações opostas, mas a palavra de Jesus foi suficiente para juntá-los numa única multidão alegre, que saiu pelas ruas louvando a Deus. Esse poder não ficou restrito ao passado, ele está disponível ainda hoje aos que desejam encontrar-se com Jesus. Não vale a pena viver longe desse amor. Junte-se a ele e saia com de alegria, espalhando as boas-novas do evangelho por todos os lugares.

sexta-feira, abril 13, 2007

ENXERGANDO PESSOAS COMO ÁRVORES

ENXERGANDO PESSOAS COMO ÁRVORES

"Ele pegou o cego pela mão e o levou para fora do povoado. Então cuspiu, passou a saliva nos olhos do homem, pôs a mão sobre ele e perguntou: – Você está vendo alguma coisa? O homem olhou e disse: – Vejo pessoas; elas parecem árvores, mas estão andando".
Marcos 8: 23-24

O ministério de Jesus era caracterizado por milagres. Diante de sua presença endemoninhados foram libertos, mortos ressuscitaram, mudos começaram a falar e cegos passaram a enxergar.

O relato desse milagre apresenta uma característica que o destaca de todos os outros: ele aconteceu em duas etapas. Num primeiro momento, o homem começara a enxergar pessoas como árvores andando. Ele já não poderia dizer que era cego, pois via vultos apesar de não conseguir definir detalhes de feições ou formas. Para quem já tinha sido completamente cego, qualquer progresso representaria uma tremenda vitória. Recuperar ao menos um pouco da visão já faria uma diferença incrível na qualidade de vida daquele homem.

Para Jesus, o autor da cura, a história não havia terminado. Logo após a primeira imposição de mãos, ele perguntou ao homem: "Você está vendo alguma coisa?" e o homem descreveu a situação de sua visão. Será que houve falha no controle de qualidade desse milagre? Será que Jesus usou uma dose mais fraca do seu poder que não foi suficiente para curar o cego de uma vez? Diferentemente de outros milagres que ocorreram logo de primeira, nessa situação Jesus quis chamar a atenção para um fato bastante comum: algumas pessoas, ao ter um contato inicial com ele, recebem os primeiros benefícios, acostumam-se com o pequeno progresso e desistem de buscar a bênção completa. Acham que está tudo bem e não se preocupam em desenvolver um relacionamento com Deus, nem em conhecer melhor a Bíblia.

Jesus não se contenta com nada menos do que a perfeição. Aquele cego buscava a cura também e não queria a obra pela metade. Ele já ouvira relatos de outros milagres de Jesus onde as pessoas foram curadas completamente e não queria sair de lá enxergando vultos. O homem permaneceu firme enquanto Jesus punha outra vez as mãos nos seus olhos: "Dessa vez o cego olhou firme e ficou curado; aí começou a ver tudo muito bem" (v. 25). Quando Jesus age em sua vida, você não sai abençoado pela metade, mas fica completamente restabelecido e é capaz de enxergar muito bem cada detalhe da atuação de Deus em sua vida.

Qual é a sua situação neste momento? Você está como cego vivendo na escuridão, dependendo de todos para tudo sem encontrar esperança? Ou está como aquele homem na primeira etapa do processo de cura, que obteve uma resposta parcial para o mal que o afligia sem, contudo, ter o problema resolvido? Ou você assume uma atitude de fé persistente como esse mesmo homem que acreditou que apenas em Jesus ele encontraria a cura que ele tanto desejava? A terceira atitude é a decisão correta que traz cura, paz, alegria e nos faz compreender claramente todo o poder de Deus que se encontra à nossa disposição. Não permaneça na escuridão ou apenas enxergando pessoas como árvores. Jesus quer dar-lhe uma nova vida agora!

sexta-feira, março 30, 2007

O REINO DE DEUS IV - UM REINO DE AÇÃO

UM REINO DE AÇÃO

“Quando Jesus terminou de dar essas instruções aos seus doze discípulos, partiu daí, a fim de ensinar e pregar nas cidades deles. João estava na prisão. Quando ouviu falar das obras do Messias, enviou a ele alguns discípulos, para lhe perguntarem: És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro? Jesus respondeu: Voltem e contem a João o que vocês estão ouvindo e vendo: os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciada a Boa notícia. E feliz aquele que não se escandaliza por causa de mim.”
Mateus 11.1-6.


João Batista foi o profeta do Reino de Deus, anunciou a sua chegada e teve o privilégio de ver a profecia se cumprindo. Agora ele está preso em virtude do seu compromisso com o evangelho. O ministério de João baseava-se na crença de que Jesus Cristo estabeleceria a glória de Deus para o povo de Israel, mas o cárcere o impedia de contemplar o seu sonho tornando-se realidade.

Esta limitação trouxe-lhe uma dúvida: “Será que eu anunciei a mensagem correta? É Cristo aquele que deveria vir ou precisamos continuar esperando?”. O profeta não teve medo, mandou chamar Jesus para receber os esclarecimentos necessários.

As dúvidas fazem parte da natureza humana incompleta. Os questionamentos nem sempre são sinal de rebeldia, pois quem pergunta deseja obter uma resposta. Ao perguntar a pessoa sente-se a vontade para expressar o seu sentimento sem o medo de ser rejeitado.

“Será que Jesus é verdadeiramente o messias esperado? A resposta não é dada em palavras, porque o messianismo não é simples idéia ou teoria. É uma atividade concreta que realiza o que se espera da era messiânica: a libertação dos pobres e oprimidos.”1

O evangelho não pretende trazer apenas conforto para a alma, quer ir além. Ao mudar as condições de vida daqueles que não têm esperança. Cegos, paralíticos, leprosos e surdos não teriam qualquer possibilidade de obter uma vida digna nos tempos de Jesus. A cura das doenças os reinseria na comunidade. A nova vida espiritual correspondia tanto a uma esperança na eternidade quanto a novas perspectivas profissionais e familiares. Era uma ressurreição social que precisava ser testemunhada.

O Reino de Deus resgata pessoas das trevas trazendo-as para a luz da comunhão com Deus e do relacionamento com o seu próximo2. Não é possível pregar o evangelho do reino esquecendo-se da justiça social e do cuidado com os excluídos. Jesus deixou o exemplo que devemos seguir.

NOTAS

1 BÍBLIA SAGRADA – Edição Pastoral P.1252

2 I Pedro 2.9 – “Vocês, porém, são raça eleita, sacerdócio régio, nação santa, povo adquirido por Deus, para proclamar as obras maravilhosas daquele que chamou vocês das trevas para a sua luz maravilhosa”

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


THOMPSOM, Frank Charles – Bíblia de Referência Thompson – Edição Contemporânea – Tradução de João Ferreira de Almeida – Ed. Vida – São Paulo 1999.

BOFF, Leonardo – Tempo de Transcendências – Ed. Sextante – Rio de Janeiro

NOUWEN, Henri J.M. A volta do filho pródigo: a história de um retorno para casa - Tradução Sonis S.R. Orberg - São Paulo - Ed. Paulinas - 1997 - Coleção sopro do espírito.

BÍBLIA SAGRADA – Edição Pastoral – Tradução Ivo Storniolo, Euclides Martins Balancin – Paulus – SP – 1991.

Bíblia en Lenguaje Actual – Sociedades Bíblicas Unidas - Brasil

O REINO DE DEUS III - UM REINO DO ALTO

UM REINO DO ALTO

“Jesus respondeu: Eu garanto a você: se alguém não nasce do alto, não poderá ver o Reino de Deus. Nicodemos disse: Como é que um homem pode nascer de novo, se já é velho? Poderá entrar outra vez no ventre da sua mãe e nascer? Jesus respondeu: Eu garanto a você: ninguém pode entrar no Reino de Deus, se não nasce da água e do espírito. Quem nasce da carne é carne, quem nasce do espírito é espírito. Não se espante se eu digo que é preciso vocês nascerem do alto. O vento sopra onde quer, você ouve o barulho, mas não sabe de onde ele vem, nem para onde vai. Acontece a mesma coisa com quem nasceu do Espírito.”

João 3.3-8

O ministério de Jesus despertava tanto o amor quanto o ódio. Aqueles que haviam sido curados declaravam abertamente que ele era o filho de Deus prometido pelas profecias, enquanto que as autoridades religiosas sentiam-se ameaçadas pelas idéias divulgadas em seus discursos.

Nicodemos, um judeu importante, estava interessado nos assuntos espirituais, mas esbarrava na tentativa de racionalizar os artigos de fé enquadrando o divino em suas convicções pessoais. Sua conversa com Jesus revelou-lhe que para relacionar-se com Deus é necessário abrir a mente e o coração para ir além e aceitar que as nossas definições não podem alcançar a eternidade do todo-poderoso. Elas apenas fotografam uma parte desta manifestação. Quando insistimos em aprisionar Deus em conceitos, matamos a fé e nos afastamos dele.

O compromisso com o evangelho exige uma transformação profunda, por isso o evangelista João indica que Jesus inicia o diálogo com uma afirmação controvertida: “se alguém não nasce do alto, não poderá ver o Reino de Deus”.

Nascer do alto é uma experiência pessoal e intransferível de abertura ao infinito. É o momento em que o ser humano se supera rompendo os seus limites e aproxima-se de Deus. A partir daí os seus valores se alteram e ele deixa de pensar somente em si mesmo passando a ver o outro como um irmão que foi amado e recebido pelo Pai.

Ao afirmar que quem nasce da carne é carne, Jesus evidencia que a vida é o resultado das escolhas que fazemos ao longo do caminho. Uma delas é abrir-se a um relacionamento com Deus, ou fechar-se em sim mesmo. Viver na dimensão da carne é olhar para os acontecimentos de forma limitada, negando-lhes a dinâmica da fé que aceita a intervenção de Deus e traz novos significados até para as situações mais difíceis.

Quem nasceu do espírito se reconhece dependente de Deus. Esta compreensão une o melhor das forças humanas ao poder divino. A bênção resultante desta parceria alcança a pessoa espalhando-se pela comunidade onde ela vive. Viver no Reino é descobrir a cada dia o seu valor pessoal e também saber que quem está desconectado do Pai não sobreviverá por muito tempo. 1

Para ouvir a voz de Deus é necessário acalmar o coração, calar as vozes interiores e silenciosamente contemplar o seu poder escutando as suas palavras. Jesus recomendou a Nicodemos que não se espantasse com as coisas que estava ouvindo, para que o medo não se transformasse num empecilho à livre comunhão com ele.

Uma das mais poderosas imagens para o Espírito Divino é a do vento. Ele é forte, refresca o calor do sol, produz movimento, energia e transporta a vida ao espalhara as sementes que germinarão no solo. Assim é o Reino de Deus, ele não se limita aos obstáculos humanos, mas os supera. Sua manifestação se revela soberanamente e não passa despercebida. Este é o grande mistério: que em sua liberdade e independência Deus tenha decidido acolher e abençoar os que abrem o coração para conhecê-lo.


NOTA

1 João 15.4-6 – “Fiquem unidos a mim, e eu ficarei unido a vocês. O Ramo que não fica unido à videira não pode dar fruto. Vocês também não poderão dar fruto se não ficarem unidos a mim. Eu sou a videira, e vocês são os ramos. Quem fica unido a mim, e eu a ele, dará muito fruto, porque sem mim vocês não podem fazer nada. Quem não fica unido a mim será jogado fora como um ramo, e secará. Esses ramos são ajuntados, jogados no fogo e queimados.”


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


THOMPSOM, Frank Charles – Bíblia de Referência Thompson – Edição Contemporânea – Tradução de João Ferreira de Almeida – Ed. Vida – São Paulo 1999.

BOFF, Leonardo – Tempo de Transcendências – Ed. Sextante – Rio de Janeiro

NOUWEN, Henri J.M. A volta do filho pródigo: a história de um retorno para casa - Tradução Sonis S.R. Orberg - São Paulo - Ed. Paulinas - 1997 - Coleção sopro do espírito.

BÍBLIA SAGRADA – Edição Pastoral – Tradução Ivo Storniolo, Euclides Martins Balancin – Paulus – SP – 1991.

Bíblia en Lenguaje Actual – Sociedades Bíblicas Unidas - Brasil

quarta-feira, março 28, 2007

O DESAFIO DE AGIR PELA FÉ

O Desafio de Agir Pela Fé

“Ora, o Senhor disse a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela, e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei: Farei de ti uma grande nação, e te abençoarei e te engrandecerei o nome, e tu serás uma bênção.” Gênesis 12:1-2


Abraão vivia tranqüilamente em Ur dos Caldeus junto com a sua família. Ele tinha uma vida confortável, possuía muitas riquezas e provavelmente o seu objetivo seria administrar e multiplicar os seus bens até o dia da sua morte. Sua única tristeza era o fato de sua esposa ser estéril. Isto significava que ele não teria uma descendência do seu sangue e que toda a sua herança ficaria para um parente próximo ou um empregado de confiança.

O que Abraão não podia imaginar é que um encontro com Deus mudaria radicalmente o seu estilo de vida. Nesse encontro Deus ordenou-lhe que saísse da sua terra e da casa de seu pai e fosse para “...um lugar que havia de receber por herança...” Ele “...obedeceu e saiu, sem saber para onde ia.” Hebreus 11:8

Quando Deus fala ao homem ele o desinstala, retirando-o de seu lugar de conforto e o lança numa caminhada cheia de novas perspectivas muito maiores que as anteriores. Deus lançou três desafios a Abraão; o primeiro foi: Ver o invisível: Deus queria que Abraão saísse de sua terra para que ele se desligasse da idolatria que reinava em seu país mas não disse o destino final de sua jornada. As únicas certezas de Abraão eram que Deus iria mostrar a cada dia o caminho a seguir e que a nova terra seria o berço de uma grande nação. “Pela fé (Abraão) peregrinou na terra da promessa como terra alheia, habitando em tendas como Isaque e Jacó, herdeiros com ele da mesma promessa. Pois esperava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e construtor”. Hebreus 11:9-10. A nova nação não era visível fisicamente, mas com os olhos da fé ele pode vê-la e por isso partiu na direção que o Pai mostrou.

O segundo desafio de Deus a Abraão foi: Crer no incrível: Abraão já era idoso, tinha setenta e cinco anos e Deus prometeu que ele seria pai de uma grande nação. Crer nessa promessa seria admitir uma impossibilidade, pois sua esposa além de estéril, também era idosa. “Mas Abraão não perdeu a fé nem duvidou da promessa de Deus. A sua fé o encheu de poder, e ele louvou a Deus porque tinha toda a certeza de que Deus podia fazer o que havia prometido. Por isso Abraão, por meio da fé, foi aceito por Deus.” Romanos 4:20-22.

O terceiro desafio de Deus a Abraão foi: Realizar o impossível: Deus tinha um grandioso plano para abençoar a humanidade: Ele iria formar um povo através do qual o Messias viria ao mundo para trazer o perdão do pecado ao homem e Abraão seria o pai deste povo. “...Em ti serão benditas todas as famílias da terra.” Gênesis 12:3. Através da obediência de Abraão todos nós fomos abençoados, porque antes era impossível que o homem se aproximasse de Deus, agora temos liberdade de acesso ao Pai através de Jesus Cristo, filho de Deus e descendente de Abraão.

O Deus que retirou Abraão de seu recolhimento e o fez contemplar toda a extensão de suas promessas quer fazer o mesmo com você, pois ele também tem um maravilhoso plano para a sua vida. Ao retirar-lhe de sua aparente estabilidade e lança-lo numa emocionante caminhada de fé, ele colocará à sua disposição todo o seu poder e amor. Deus nunca decepciona aquele que nele confia.

O desafio de agir pela fé é entregar todas as suas certezas visíveis ao Senhor, confiar em suas promessas e buscar em primeiro lugar o seu reino e sua justiça. Somente assim você poderá experimentar todo o poder de Deus que engrandecerá o seu nome e fará de você uma bênção.

QUANDO A FÉ VACILA

Quando a Fé Vacila

“Abraão respondeu: Ó Senhor, meu Deus! De que me vale a tua recompensa se eu continuo sem filhos. Eliézer, de Damasco é quem vai herdar tudo o que tenho, tu não me deste filhos e por isso um dos meus empregados, nascido em minha casa, será o meu herdeiro”. Gênesis 15:2-3 .


Se cremos num Deus todo poderoso porque nos entristecemos tanto com os insucessos e com as perdas que fazem parte desta vida? Porque perdemos a esperança e ficamos desanimados só porque as coisas não estão do jeito que nós queríamos que estivessem? Se cremos que as promessas de Deus têm nele o sim e o amém para a sua glória (II Coríntios 1.20) porque as nossas atitudes diante da vida algumas vezes não refletem esta verdade? Onde está a nossa fé?

Abraão estava passando por um momento de crise e estes questionamentos deviam estar povoando a sua mente. Depois de alguns anos sendo fiel e obedecendo as ordens do Senhor sem ver os resultados prometidos, ele se entristeceu e o seu coração começou a desanimar. Quando Deus aparece prometendo-lhe uma recompensa ele decidiu desabafar. Começa lamentando-se do fato de estar sendo obediente, aparentemente em vão, e mostra a sua desesperança dizendo que seu herdeiro, seria o seu empregado Eliézer, porque Deus não cumprira a sua parte no trato feito com ele.

Deus ouve pacientemente a queixa de Abraão e a sua resposta tem uma característica interessante: Ele não respondeu às reclamações, mas se preocupou em reafirmar a promessa feita a alguns anos atrás: “Então o Senhor falou de novo e disse: – O seu próprio filho será o seu herdeiro, e não o seu empregado: Eliézer”. Gênesis 15:4 ntlh. Parecia que Deus estava se atrasando, mas em sua agenda tudo estava acontecendo no tempo certo. Abraão não sabia, mas sua vida precisava ajustar-se à vontade de Deus e este período de aparente falta de resultados estava sendo utilizado pelo Senhor para construir a estrutura de sua personalidade de uma forma tal que o permitisse usufruir plenamente a bênção que iria receber.

Deus prossegue em sua resposta: “Aí o Senhor levou Abrão para fora e disse: Olhe para o céu e conte as estrelas se puder. Pois bem! Será esse o número dos seus descendentes”. Gênesis 15:5 ntlh. Ao levá-lo para fora Deus o retirou de uma perspectiva limitada pelas quatro paredes de sua tenda e o apresentou à perspectiva ilimitada de seu poder que faria aquele homem velho e sem filhos ter tantos descendentes que seria impossível contá-los.

É isto que Deus faz quando nós nos fechamos dentro de nossas frustrações, desanimados porque as coisas parecem estar dando errado. Ele não fica alimentando a auto-piedade, mas eleva os nossos olhos para que possamos contemplar o seu poder e as bênçãos que ele tem para nos dar.
“Abraão creu em Deus, o Senhor, e por isso o Senhor o aceitou.” Gênesis 15:6 ntlh. Apesar de ter atravessado momentos de crise e questionamento, Abraão foi aceito pelo Senhor porque o seu coração estava disposto a crer. Deus não nos condena quando a nossa fé vacila porque ele conhece as nossas limitações e as compreende.

Os momentos de questionamento podem ser uma importante ferramenta para nos aproximar de Deus. Se apresentarmos as nossas perguntas a ele receberemos todas as respostas e vamos sair fortalecidos da crise. Para obter a ajuda divina precisamos apenas ser humildes em admitir que precisamos dela: “Imediatamente o pai do menino exclamou: Eu creio: ajuda-me a vencer a minha falta de fé.” Marcos 9:24.

Não deixe que os momentos difíceis destruam a sua alma. Faça como Abraão que não teve vergonha de derramar as suas tristezas e dúvidas na presença de Deus. Ele foi aceito pelo Senhor. Deus também quer te receber e abençoar.

quarta-feira, março 07, 2007

O REINO DE DEUS - II - UM REINO DE GRAÇA

UM REINO DE GRAÇA


"Jesus Respondeu: Quando vocês rezarem, digam: Pai, Santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino. Dá-nos a cada dia o pão de amanhã, e perdoa-nos os nossos pecados, pois também perdoamos a todos aqueles que nos devem; e não nos deixes cair em tentação"
Lucas 11.2-4


Todo o relacionamento precisa de diálogo para acontecer, pois sem comunicação entre as partes torna-se impossível o desenvolvimento da intimidade. O convívio entre o homem e os seus deuses sempre foi marcado pelo medo. Sacrifícios diversos eram oferecidos para aplacar a ira divina e sempre havia a desconfiança de que uma tragédia provocada por fenômenos da natureza era a vingança por alguma oferenda esquecida.


O evangelho anunciado por Jesus trouxe uma novidade estonteante: agora é possível chamar Deus de Pai. Os discípulos, acostumados com os rituais de sua religião pedem a Jesus que lhes ensine a orar. O Pai Nosso é chamado de oração modelo não porque deva ser decorado e repetido, mas porque apresenta os princípios que nortearão a vida de quem deseja fazer parte do reino de Deus. Neste artigo vamos analisar alguns destes princípios para obter uma melhor compreensão da mensagem que Jesus desejou comunicar.


Pai, Santificado seja o teu nome

A figura paterna representa o cuidado daquele que protege a família contra os inimigos, a orientação que indica o melhor caminho a seguir e a correção para evitar que as atitudes ruins se repitam causando uma tristeza maior. Quem chama pelo pai sabe que é filho e sente-se à vontade para abrir o coração e falar das alegrias, das tristezas ou simplesmente calar, e desfrutar de sua presença amorosa.

Na cultura hebraica os pais escolhiam para os seus filhos nomes que representassem o seu caráter. Quando alguém dizia o seu nome falava de si e da missão que deveria desempenhar. Jesus é o Deus conosco. O Deus que renunciou à sua glória para tornar-se conhecido por toda a humanidade. O seu nome também significa: "Javé (o Senhor) é ou dá a salvação "1


Venha o teu Reino

Deus respeita o desejo de seus filhos. Embora pudesse impor a sua vontade, ele prefere ser convidado a agir. Aí está a força da súplica "Venha o teu reino". Ela vem do coração e é fruto do desejo daquele que pede que chegue logo o momento em que Deus regerá o mundo de acordo com o seu propósito original.


Dá-nos a cada dia o pão

A palavra pão carrega um significado fortíssimo. Ele é o alimento que garante a vida, produz força para o trabalho e proporciona prazer quando é distribuído nas festas que celebram conquistas ou simplesmente comemoram a oportunidade de reunir os amigos. A ausência de pão traz fome, tristeza e morte. O ato de pedir a Deus o pão de cada dia representa a confiança absoluta de que ele cumprirá aquilo que prometeu e suprirá com fartura tanto as necessidades físicas quanto as espirituais.


Perdoa os nossos pecados, pois também perdoamos (...)

Perdoar significa doar completamente, de uma forma que não restará nada mais a acrescentar. Esta atitude se chama graça e é produzida por um coração que ama apaixonadamente as suas criaturas, o coração do Pai.

Se pudéssemos falar num passaporte para o Reino de Deus ele seria o perdão. O ser humano é imperfeito e nunca seria capaz de purificar-se a ponto de apresentar-se diante de Deus livre de pecado.

É a graça Divina que perdoa incondicionalmente sem cobrar pagamento nem exigir recibo. Sua única condição é ser transmitida por aquele que foi perdoado, ao seu semelhante também necessitado de acolhimento. Quando não compartilhada, a graça desfigura-se e se transforma em egoísmo. Perdoar o outro é a única resposta possível ao perdão que recebemos do Pai.


Não nos deixes cair em tentação

Precisamos de proteção nesta sociedade tão violenta e corrompida. As tentações apresentam-se como ofertas irrecusáveis que proporcionam prazeres intensos, mas são armadilhas das quais devemos nos afastar. Deus oferece proteção, apoio, força e a garantia de que nenhuma tentação será maior do que a nossa capacidade para suportá-la (I Coríntios 10.13). Enquanto aguardamos a manifestação do Reino de Deus, precisamos optar pela fidelidade e rejeitar o mal.

O Reino é de graça, pois é um presente e por ser presente não pode ser comprado, somente recebido pela fé de que Deus existe e abençoará aqueles que o buscarem (Hebreus 11.6).


NOTA


1) BOFF, Leonardo – O Senhor é o meu Pastor - p.90.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

NOUWEN, Henri J.M. A volta do filho pródigo: a história de um retorno para casa - Tradução Sonis S.R. Orberg - São Paulo - Ed. Paulinas - 1997 - Coleção sopro do espírito.

BOFF, Leonardo - O Senhor é o Meu Pastor - Consolo divino para o desamparo humano - Rio de Janeiro - Sextante - 2004.